Revista geo-paisagem (on line)

 

Ano  7, nº 14, 2008

 

Julho/Dezembro de 2008

 

ISSN Nº 1677-650 X

 

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Sociedade e meio ambiente no tempo colonial brasileiro. A geografia dos índios!

Helio de Araujo Evangelista[1]

(www.feth.ggf.br)

 

RESUMO

Este artigo pretende analisar a importância do povo indígena para a geografia brasileira. Temos como pressuposto que sua influência foi decisiva nos primeiros três séculos da colonização iniciada pelos portugueses desde que estes aqui chegaram.

 Palavras-chaves: desenvolvimento, geografia brasileira, povo indígena

ABSTRACT

This article intends to analyze the importance of indigenous people for brazilian geography. It shows that this people was responsible for the biggest characteristics of the earliest aspects of our history at the first three hundred after portugueses appeared in the territories that was named Brazil.. 

Key-words: development, brazilian geography, primitive people.

 

Introdução

A geografia brasileira é coisa de índio. A geografia brasileira, enquanto território e enquanto relato, tem uma nítida marca indígena. Este é o pressuposto deste artigo que inicia uma série voltada para a geografia brasileira no tempo colonial. Esta é a idéia que percorre a nova linha de investigação tendo em conta os primórdios da mesma, seja enquanto uma realidade transposta em mapas, seja uma grafia que atinge a forma de relatos, relatórios, livros etc.

            No entanto, é uma empreitada árida, difícil, porque a base documental é precária, nossos índios carecem de acervos que acusem a sua passagem em nossas terras (ou seria na terra deles?). O índio brasileiro não deixa nada escrito; o índio brasileiro não deixa monumentos, como ainda hoje podemos verificar dos maias, astecas etc. O índio brasileiro não deixa ... Nada disso, o índio brasileiro deixa. Só que sua presença é muito mais impressa do que expressa. A presença indígena está na nossa carne, na nossa língua, na toponímia dos lugares, na destreza com que os portugueses chegaram a conquistar mundo, um mundo chamado Brasil. Os portugueses, com os índios, aprenderam a andar, a aproveitar o que comer, e usar plantas para se curar.

            Mas, de qualquer forma, há uma notória dificuldade para se analisar a geografia à luz da questão indígena. Assim, vários serão os meios que lançaremos mãos para adentrar na questão. Obviamente, para o autor destas linhas, é um percurso que assume um aspecto pioneiro, pioneiro por não ser um especialista em índio; mas é guiado pela intuição de que não é possível falar em geografia brasileira sem pesar com maior intensidade a presença indígena.

            No Brasil, a chamada geografia histórica, nos cursos de graduação não alcança o reconhecimento que deveria ter, quando muito há toda uma digressão sobre Ratzel, Vidal de La Blache etc. mas não se olha para dentro do país. Afinal, quem fez a geografia brasileira, enquanto mapa e relato? Respondo, foram os índios! Naturalmente que não foram os únicos, mas cabe destacar sua participação que é tão desconsiderada.

 

Desenvolvimento

            Em que pese todo o ideário existente de que os índios brasileiros foram dizimados, convém ter um melhor discernimento quanto a este propalado extermínio. Arrisco-me afirmar que os índios brasileiros foram muito mais assimilados do que extintos. Ocorreu mais miscigenação do que uma lenta destruição.[2] Nós brasileiros somos indígenas; devemos o que somos aos índios. E a geografia também! Sobre este aspecto segue abaixo uma luminosa passagem da obra de Jaime Cortesão (1958, p. 134):

Em São Paulo dera-se, com a fusão das raças, a assimilação da cultura aborígine, essencial na formação do mito da Ilha-Brasil. O índio, nas suas migrações através do território, prenunciara aquela vasta formação insular. Conhecia e praticava as rotas fluviais que insulavam o território, e os varadouros, por onde arrastavam as canoas dum rio para o outro. Ao unir-se com o português transmitia-lhe um direito elementar, mas fundamental, nesse mundo de vagas e abstratas soberanias: a herança dos caminhos e das grandes linhas que delimitavam o meio geográfico, a economia e a cultura. Ao nomadismo da cultura o português trouxe a consciência e a diretriz política. Lapidou, por assim dizer, essa enorme força de expansão, que estava em bruto.

Os fatos patenteiam que ao contrário do que se tem afirmado, lusos e luso-brasileiros não escravizaram ou não escravizaram totalmente o tupi, propriamente dito. Aliaram-se a eles. Das bandeiras participavam entre cinco a dez por cento de brancos. Os noventa ou noventa e cinco restantes eram índios, e maiormente os tupi. Estes últimos participaram da missão desbravadora ou preadora das bandeiras, por inclinação e gosto próprio. As cartas dos jesuítas referem-se, com freqüência, a expedições formadas exclusivamente por índios tupi, que partiam para o Guairá e voltavam a São Paulo com suas presas. Tivemos também ocasião de referir-nos atrás a um documento português, em que são citados vários nomes de paulistas, que usavam dos tupi como intermediários para trazer outros índios do sertão. A própria documentação espanhola prova que, muitas vezes, esses índios não eram trazidos por violência

            Inicio a investigação da relação entre geografia e a questão indígena através de uma biografia, a do primeiro beato brasileiro, assim consagrado pelo então Papa João Paulo II em 22/6/1980. Tal atalho decorre de uma certa dificuldade em considerar material produzido na época e que tenha chegado até nossos dias.

            O recurso à biografia de José Anchieta (19/3/1534 a 9/6/1597) nos ajuda a inferir alguns aspectos da herança indígena.

 

Nasceu em 19/3/1534 em Laguna (Canária) tendo ascendência judaica, estudou na Espanha. Ingressou na Companhia de Jesus em 1/5/1551 fundado por Ignácio de Loyola, um parente distante da família Anchieta. Chegou a trabalhar 16 horas por dia e a celebrar dez missas por dia. Passou a ter problemas de colunas e veio para o Brasil. Em 1553 saiu do Tejo (Lisboa) em direção ao Brasil onde havia o Segundo Governo Geral do Brasil, Duarte da Costa. Ensinou latim na escola fundada por Manuel da Nóbrega, escola de Piratininga. Catequizou índios e viveu com eles. Em 1563 viveu refém dos tamoios. Foi ordenado sacerdote no Brasil em 1566. Aprendeu as primeiras palavras em abanheenge , língua geral dos tupis e guaranis.[3] Foi superior na Capitania de São Vicente (das duas casas, a de S.Vicente e a de S. Paulo) e do Espírito Santo e províncias. Em 25/1/1554 fundou com Manuel da Nóbrega o Colégio de Piratininga. Entre 1577 e 1588 chegou a ocupar o cargo de provincial da Companhia de Jesus para a Província do Brasil.

            Morreu em 9/6/1597, numa aldeia. Em 1617 ocorreu o primeiro passo para a canonização, em 1736 foi declarado o caráter heróico das virtudes. Em 22/6/1980 foi beatificado  (dia 9/6 passou a ser seu dia)

            Segundo Lavínia Cavalcanti Martini Teixeira dos Santos que elabora um alentado trabalho sobre a forma como José Anchieta concebia o índio brasileiro, observa que os índios que serão objeto de atenção do jesuíta, os tapuias também tratados como tupinambás, membros da família tupi-guarani, encontravam-se em plena expansão no território brasileiro, particularmente na costa. (1997, p. 32)

            Embora com diferenças internas, os europeus recém-chegados observaram uma homogeneidade entre os grupos indígenas na costa brasileira. Este aspecto, tendo o tupi como língua geral, destaca a importância da ação de José Anchieta por ter sido o primeiro a constituir a primeira gramática desta língua. A obra Arte da Gramática mais usada na costa do Brasil  veio a ser um poderoso instrumento na compreensão do mundo que os europeus passavam a se avizinhar. Uma situação bem diferente da encontrada pelos portugueses quando no século XVII adentraram a região amazônica que apresentou uma enorme diversidade étnica e lingüística da população indígena. O padre Antonio Vieira chegou a tratar esta última região como região do rio Babel (ibidem, p. 33).

            O índio brasileiro, tendo sido melhor compreendido pelos jesuítas, foi grande portão de entrada aos portugueses que até então ficavam aferrados em suas feitorias centradas no litoral, afeitos a troca de produtos e comércio. O índio ensinava o português a caminhar; a escolher as plantas para alimentação e cura de doenças, a evitar tais animais etc.

            O índio brasileiro fez com que o português deixasse de ser português e passasse a falar tupi. Foram os índios que forneceram a chave da relação com o meio ambiente em favor dos portugueses.

 

O que significam os índios na formação social brasileira?

 

Tendo em conta uma entrevista do jornalista/historiador Jorge Caldeira, autor do clássico, Mauá – empresário do Império, registrado nos programas Conexão Roberto D’Ávila dos dias 22 e 29 de abril de 2007.[4] O jornalista/historiador que os europeus que chegaram ao Brasil, embora pobres, estavam voltados a uma busca de mudanças para suas vidas, que, por sua vez, foram recebidos por índios, tupi-guaranis que tinham especial pendor para receber estrangeiros.[5] Os casamentos com pessoas de fora eram vistos de forma positiva pelos índios. Pela visão mítica dos tupis o estrangeiro trás coisas novas e positivas. Assim, além da receptividade, os europeus precisavam dos índios para se adaptar ao novo local. [6]

            Em sua recente obra já lançada, Banqueiro do Sertão, consta a vida de um padre que vira banqueiro. O padre Guilherme Pompeu de Almeida, nascido em 1656 e falecido em 1713 exemplifica o quanto no chamado sertão brasileiro havia toda uma produção industrial que nos é pouco valorizado pelos estudos de história brasileira. A riqueza do pai foi sediada em Santana do Parnaíba (SP) quando produziu uma espécie de metalurgia que gerava espingardas, cadeados, selas, facas, foices, anzóis etc. E o que tornou possível esta proeza foi uma outra quando ele conseguiu que uma população de 5000 pessoas que estavam em Vila Rica do Espírito Santo (atualmente ficaria próximo de Corumbá, Estado de Mato Grosso) se transferisse para São Paulo, guiado por 80 portugueses, usando canoas e andado a pé. Era já uma população afeita a trato com minerais porque a sua Vila era um entroncamento entre São Paulo e Potosi, onde ficava a rica mina peruana, responsável pela metade da produção da prata no planeta à época. Cabe observar que à época, Potosi era em 1680 a segunda maior aglomeração urbana no mundo com 160.000 habitantes, dos quais 6.000 eram portugueses (ora, à época, a cidade de São Paulo não chegava a duas mil pessoas).[7]

            A história do padre/banqueiro não deixa de ser interessante. O pai dele era rico e para ter o filho com educação este foi enviado para o colégio dos jesuítas em Salvador e chegou a ser aprovado para ter doutorado em teologia (algo raro, só um ou dois o conseguiam a cada ano). Porém, ele abandonou os estudos, voltou para o Rio de Janeiro e passou a ser padre secular, tipo um funcionário que não chegava a receber salário. A mudança pode ser explicada pelo nascimento de uma filha com uma índia. À época, a questão do celibato para os sacerdotes estava em vias de consolidação, mas não era incomum padre com filhos. Inclusive, no caso em pauta, a filha, Inês de Lima foi reconhecida anos depois e veio a receber herança.

            Mas o que chama a atenção do entrevistado é que o código que o banqueiro utilizou para realizar negócios foi o código indígena. Numa época que não havia tabelião, rede jurídica, como as transações se faziam ? Eram realizadas segundo um modus operandi indígena pelo qual o circuito prioritário na realização dos negócios era de índole feminina; ou seja, privilegiava-se a ascendência e descendência da mulher na hora de escolher sócios e estabelecer relações de troca. A própria genealogia que veio a ser escrita pelo padre/banqueiro constava nomes de homens, porém os anelos, a estrutura, era toda ela pautada nas mães que cada um tinha.

            Em resumo, é da herança indígena tupi-guarani que temos a boa recepção ao que vem de fora (isto não é próprio dos portugueses; estes, em Portugal, apresentam uma baixa miscigenação com o estrangeiro); há uma índole empreendedora (o que temos ainda hoje no Brasil, qualquer um é empreendedor, até manicure, ambulante etc.)  e um forte caráter adaptável, ou seja, não há rigidez. Estes valores não são encontrados na educação formal, ela é incutida pela informalidade das relações.

            Ele (Jorge Caldeira) entende que o sistema escravocrata no Brasil trouxe sérios prejuízos para este aspecto empreendedor brasileiro; pelo contrário, a escravatura reforçou o aspecto mais tradicional na sociedade brasileira, o que gerou uma nítida ambigüidade. Há o Brasil do sertão, do sertanejo, do pioneiro; mas há o da escravidão que é a negação da vida livre, do progresso e do empreendedorismo. Na sociedade escravocrata o ócio é símbolo de distinção (trabalho é coisa de negro); na sociedade escravocrata, a luta do escravo é o de trabalhar o menos possível, porque isto significa ser menos explorado. Na sociedade escravocrata há o estigma da fatalidade no qual o escravo não tem outra esperança a não ser morrer mais cedo. Na sociedade escravocrata é fundamental a ordem; o progresso desperta medo. Sobre este aspecto é interessante o título nobiliárquico conferido a Ireneu Evangelista por D. Pedro II, a saber, Barão de Mauá, ou seja, Mal há !

            Temos muita coisa no Brasil que não está na cultura escrita. Numa entrevista com o antropólogo Darci Ribeiro a Jorge Caldeira, Darci chamava a atenção que a cultura escrita brasileira é muito lenta na absorção deste Brasil informal, inclusive, por exemplo, a primeira grande obra literária brasileira que introduz um monólogo interior cujo sujeito é um analfabeto é o romance de Guimarães Rosa, Sertão e Veredas, que veio a lume em 1963! Até então ninguém tinha reproduzido um pobre pensando, reproduzindo suas indagações.[8] A cultura escrita brasileira padece para acompanhar esta dinâmica comunicativa brasileira.

            Jorge Caldeira cita o curioso estudo que fez sobre o jogador de futebol Ronaldo Fenômeno, que também virou livro. Um rapaz pobre, com parcos recursos, com a ajuda de um dono de posto de gasolina confecciona um tipo de contrato sofisticado que leva em conta direito de imagem mesmo quando não tinha alcançado 18 anos. É um jogador que fala pouco, tem vocabulário limitado, mas que sobreviveu a uma rede de interesses, de contatos; assim, a questão é : qual o aparato intelectual que o sustenta numa situação como essa? Certamente  não foi dada pela educação formal. Há algo nos valores que passam mesmo com poucas palavras; no comportamento geral do brasileiro. Valores estes que não estamos muito conscientes de sua existência. A cultura escrita não consegue traduzir os mecanismos que levam os brasileiros a raciocinar, pensar e agir. Infelizmente, no Brasil, não se dá valor ao que dá certo. Por exemplo, a recuperação do jogador para a Copa do Mundo de 2002 foi algo notável, chegava a fazer 800 a 900 flexões por dia para recuperar a massa muscular.

            Em outro estudo, também, livro, sobre a criação do samba, ele acentua que a criação do gênero samba surgiu numa época de inovação tecnológica dada pelo fonógrafo diante do qual um grupo de analfabetos se adaptou perfeitamente ao processo!

            Ou seja, são dois casos que exemplificam que há uma formação do brasileiro que embora não passando pela estrutura formal de ensino, aliás extremamente precária, faz com que ocorra certas adaptações a princípios imprevisíveis. 

 

 

O programa de Tv Expedições, tendo como ancora a jornalista Paula Saldanha, reprisou em 24/3/08 uma entrevista com o antropólogo Darcy Ribeiro realizada no ano de 1996 que versou sobre  a sua mais recente obra, O Povo Brasileiro. No ano seguinte o senador viria a falecer com 75 anos.

            O livro foi escrito em três meses, porém demorou quarenta anos para a sua elaboração. Já tinha tentado escrevê-lo em 1964, mas entendeu que faltava teoria, e isto ele a construiu produzindo O Processo Civilizatório (que estuda 10.000 anos de história humana), As Américas e a Civilização (indagando porque alguns países deram certo como Canadá, Estados Unidos e outros ainda não), Os  Índios e a Civilização, Dilema da América Latina, depois desta produção ele entendeu que estaria apto a escrever a obra.

            Segundo ele, escreveu o livro porque temia morrer! Enfrentando um câncer, literalmente fugiu da UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) e se recuperou do tratamento que o matava para escrever o trabalho. E conseguiu! Ele interpreta que veio ao mundo para escrever este livro, O Povo Brasileiro.  

            Ele entende que o Brasil foi formado por poucos europeus, embora degredados, de pouca importância para o seu país de origem, chegaram ao Brasil e passaram a formar a nossa civilização. Uma civilização de mameluco, alguém que não é nem índio, nem europeu, é brasileiro. Aqueles desventurados iniciam uma ventura nos trópicos, uma aventura com pleno apoio dos índios.

            Os índios tinham aqueles europeus em baixa conta, eram cabeludos, fediam, mas tinha bugigangas, mais particularmente instrumentos. Depois de usar um machado de ferro não tinha mais sentido continuar usando um de pedra. E a maneira de realizar seus interesses, os índios usavam suas índias, os portugueses no início da colonização foram pródigos em acasalamentos. João Ramalho, por exemplo, tido um herói sertanista, não passava de um homem rústico que chegou a ter trinta mulheres. Em suma, em poucas dezenas de anos, tivemos no Brasil um verdadeiro criatório de gente, gente brasileira.

            O Brasil poderia ser vários países. A Amazônia é um país, o Nordeste um outro, São Paulo com Minas Gerais ( que dispõe de um barroco mais bonito que o do europeu) um terceiro, a região Sul com os gaúchos um quarto país. Mas esta divisão não aconteceu.

            A vinda da família real ao Brasil trouxe o que havia de melhor em termos de quadros capacitados, habilidosos, curtidos por mil anos de luta contra os espanhóis em favor de sua autonomia. Dezoito mil pessoas, com nível superior ao existente no Brasil, lutaram e conseguiram a unidade brasileira. Lutaram com uma das mãos contra os movimentos emancipacionistas, mas tendo em outra mão uma anistia e uma encomenda (ou seja, vencia para então constituir um aliado).

            Assim, o Brasil constituiu em seu processo de formação uma diversidade étnica, cultural e ecológica.

            O Brasil tem tudo para ter seu esplendor, carece de uma elite mais qualificada. Esta que aí está permite ao povo se expressar em dois campos, o futebol e a música. Justamente setores que não se exige escola. A ausência de sofisticação na população brasileira, a ausência de uma formação formal, qualificada, é que impede desta imensa população ter maneiras mais diversificadas de expressão de sua capacidade.

            Os vários países, como Coréia, Japão etc. criaram suas crianças com educação em tempo integral. No Brasil há este absurdo de escola diurna. Está errado isto. Mandar uma criança pobre fazer dever de casa? Como? Se não tem casa! Não têm quem a apóie nos deveres escolares. Escola não integral serve para gente com posses que à tarde vai estudar piano ou francês.

            Um povo que foi capaz de elaborar Iemanjá, a deusa do amor, que se justifica não para oferecer coisas, mas que proporcione que o marido não bata mais, ou que consiga um namorado melhor, o que não é capaz de elaborar se contar com educação formal mais qualificada?

            Darcy Ribeiro, visivelmente empolgado ao falar do povo brasileiro acredita que dará certo e que termina assim a sua entrevista para Paula Saldanha:

Eu saúdo daqui, com esse livro, aqueles que virão, que continuarão fazendo o Brasil para ser essa grande civilização que nós podemos ser. Que nós havemos de ser.

 

Conclusão

 

Como já observado, com este texto inicio uma análise de geografia brasileira profunda, ou seja, uma geografia que passo a encontrá-la no início da colonização brasileira. Tenho como hipótese que a geografia brasileira, o seu emulo, é maior que seus intérpretes. Geralmente se procura os pensadores, as escolas, no caso brasileiro, o que falta, é um reconhecimento de como esta geografia fatual tal qual se fez para então ter uma interpretação do que seja geografia brasileira enquanto disciplina. Esta, não raro, é buscada na mente das pessoas, nas suas idéias, nos seus conceitos; no entanto, o que procuro é uma compreensão da disciplina à luz do processamento histórico brasileiro.

            Naturalmente que assim procedendo, ao fim e ao cabo estou compreendendo melhor este país, e não só uma disciplina. Um país que se expressa por uma geografia, geografia enquanto relato, carta, monografia e mapa.

            Deste modo, apresento o presente texto relacionando geografia e índio. Devemos muito aos índios. Muito do que somos, temos, a dimensão territorial brasileira, vem da forma como se interagiram com os índios, e como estes conformaram um grau de relacionamento e recepção aos aqui chegaram.

            Naturalmente que aqui foi exposto um breve desenho do assunto, ele está a exigir que outros geógrafos adentrem no tema. Não deixemos este assunto restrito aos historiadores, antropólogos e arqueólogos. Convém olhar a geografia brasileira com o olhar dos índios, pelos costumes dos índios, pela sua fala, enfim, há toda uma exploração a ser desenvolvida pelos geógrafos.  

 

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[1] Prof. Dr. do Departamento de Geografia da UFF.

[2] Cabe menção ao número publicado pela Revista História, promovida pela Biblioteca Nacional (RJ) dedicada exclusivamente à figura do bandeirante, ano 3, nº 34, julho de 2008. Embora os artigos repisem a dimensão da matança, não podemos concordar que havia um branco que matava um índio, de forma alguma, eram, a rigor, índios contra índios. Não raro os chamados bandeirantes nem falavam português, mas tupi. Não raro os assim chamados portugueses guiavam milhares de índios e só conseguiam tal proeza porque os índios assim queriam, porque estavam dispostos a guerrear. O português usava, mas também os índios usavam os portugueses para dirimir antigas diferenças entre tribos indígenas.  Na bibliografia constam diferentes trabalhos que versam sobre o tema., tais como, Monteiro, Kok, Neves e Miranda.

[3] Sobre o tema produziu a clássica obra – Arte da gramática da língua mais usada na costa do Brasil.

[4] Programa televisivo transmitido na Tv Brasil.

[5] A nação portuguesa, à época, ainda era fortemente marcada pela era medieval na qual onde se nascia, morria. A mobilidade social era praticamente nula. Logo, o ideário era fazer a América.

[6] Situação diferente aquela encontrada nos Estados Unidos, segundo Jorge Caldeira. Lá os índios não tinham esta índole, assim como os migrantes europeus não dependiam tanto da população indígena para sua sobrevivência.

[7] A maior aglomeração urbana à época era a de Paris.

[8] Realmente o personagem Riobaldo no romance de Guimarães Rosa é ímpar na literatura brasileira ; porém, não podemos esquecer Graciliano Ramos e sua obra Vidas Secas, a cadela baleia e seu dono perfazem uma dupla onde as distancias entre ambos se vêem anuladas pelo drama da seca. Nesta última obra há um espasmo de monólogo interior mas que não chega a altura de nosso filósofo roseano.