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Revista geo-paisagem (on line) Ano 6, nº 12, 2007 Julho/Dezembro de 2007 ISSN Nº 1677-650 X |
(Re)pensando a Baixada Fluminense em um contexto da Região Metropolitana do Rio de Janeiro : Sociedade, Território e Representação.
André Santos da Rocha
Professor Assistente do Departamento de Geografia da Fundação Educacional de Duque de Caxias (FEUDUC), Coordenador e Pesquisador do Núcleo de Estudos Geográficos da Baixada Fluminense (NEG-BF/FEUDUC), Especialista em Políticas Territoriais No Estado do Rio de Janeiro (Departamento de Geografia UERJ) e Mestrando do programa de pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense.
e-mail: asrgeo@gmail.com
RESUMO:
Este artigo tem como objetivo apresentar a construção da representação social da Baixada Fluminense discutindo a partir da sua formação sócio-territorial propondo um (re)pensar sobre sua funcionalidade econômica, política e de suas atuais representações num contexto da Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro.
Palavras-chaves: Baixada Fluminense, Região Metropolitana, Representação, Dinâmicas Territoriais.
Abstract.
This paper aims to present the construction of the social representation of the Baixada Fluminense talking from their training special organization proposing a think about its functionality economic, political and your representations in the context of the Metropolitan Region of the State of Rio de Janeiro.
Key-words: Baixada Fluminense, Metropolitan Region of Rio de Janeiro, Representation, Territorial Dinamics
Repensando a Baixada Fluminense em um contexto da Região Metropolitana do Rio de Janeiro: sociedade, território e representação.
(Re) pensar significa pensar de novo, reconsiderar, pensar dentro de um novo contexto. A significância de tornar a refletir sobre alguma coisa reside, entre muitas coisas, no fato de nossas representações, criadas sobre determinado fenômeno, não atenderem mais a demanda conceitual, ou mesmo material que está em intensa transformação.
O espaço é em sua essência dinâmico (SANTOS, 1992), que abriga um acúmulo de intencionalidades construídas no seio do tecido social. A sociedade é dinâmica, portanto em constante transformação. Ao espaço, que é condicionado e condicionante, é atribuindo diferentes usos, estabelecendo diferentes tramas de poder. Assim, o espaço é transformado por esta sociedade em seu território usado (SANTOS, 2006), tendo sua representação construída a partir da funcionalidade que desempenhe na formação da totalidade social.
É desta forma que iniciamos nossas considerações sobre uma porção territorial do Estado do Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense. Tais reflexões se baseiam em uma apurada revisão bibliográfica e na coleta de dados de jornais de grande circulação no estado do Rio de janeiro e instituições de pesquisa, tais como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro (CIDE) e Federação das indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).
O presente texto tem o objetivo mostrar como se constituiu a representação territorial da Baixada Fluminense como lugar da violência, medo e o descaso social, esclarecendo a funcionalidade que esta desempenhou no contexto da expansão da urbana da metrópole carioca bem como (re)pensar seu atual papel, versando sobre as atuais dinâmicas territoriais que se revelam estratégicas na vitalidade da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Para melhor exposição dividimos o presente trabalho em três momentos, a saber: 1) Breves notas sobre a formação da região metropolitana do Rio de Janeiro: uma história territorial; 2) Baixada Fluminense representações de uma periferia - a inserção na metrópole carioca; 3) Repensando a Baixada Fluminense e suas atuais dinâmicas territoriais dentro da metrópole carioca.
1. Breves notas sobre a formação da região metropolitana do Rio de Janeiro: uma história territorial.
A definição de Região metropolitana no Brasil é regida por lei estadual, no entanto ela pode ser, informalmente, entendida por uma conurbação (junção material e de interação de fluxos de maneira intensa) entre formações urbanas. Normalmente essa conurbação é fruto da expansão urbana das cidades, em especial aquelas que possuem dinâmicas sócio-econômicas consideráveis.
A Região Metropolitana do Rio de Janeiro segundo o Centro de Dados e Informações do Rio de Janeiro é formada por 18 municípios1.
Esta por sua vez, possui uma característica intensa, “a imensa concentração populacional, de atividades e recursos”(OLIVEIRA, 2006, p.79), tendo cerca de 80% da população do estado residindo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, sendo que cerca de 50% deste total reside na área periférica, Baixada Fluminense(IBGE, 2000).
A concentração de serviços e atividades industriais são evidentes nos indicadores econômicos, segundo dados do IBGE, cidades como Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Belford Roxo, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, presentes na estrutura da região metropolitana, estão entre as cidades que mais arrecadaram em todo país no ano de 2002, o que revela a dinâmica intensa no interior dessa metrópole 2.
Essa dinâmica faz desta, a mais concentradora de todas as regiões metropolitanas do país, reflexos da estruturação da expansão urbana e dinâmica econômica da cidade do Rio de Janeiro.
A cidade do Rio de Janeiro possui uma centralidade histórica, advinda dos séculos XVII e XVIII quando esta servia como ponto de escoação de ouro provindo de Minas Gerais. Esta importância ganha verdadeira pujança na vinda da família real, na qual fornece à cidade do Rio de Janeiro o status de capital do Império (LESSA, 2003). Desde então, a cidade do Rio de Janeiro ganha não somente uma visibilidade nacional, mas internacional.
É interessante salientar que esta centralidade exercida pela cidade do Rio de Janeiro demandava uma interação sócio-territorial intensa com sua “hinterlândia”3, como era o caso da grande conexão existente entre o Rio e a “Baixada da Guanabara”, está “Baixada” é toda a porção territorial localizado a oeste da Baia de Guanabara, hoje conhecida popularmente como Baixada Fluminense.
Essa interação econômica se dava pela circulação de produtos que perpassavam as localidades dessa Baixada da Guanabara, por quanto esta servia de entreposto comercial e área de produção agrícola, tais como a produção da laranja, cana de açúcar, aipim etc.
Mas é somente nas décadas de 1920 e 1930 que se percebe a expansão urbana da cidade de Rio de janeiro em direção a sua hinterlândia (ABREU, 1987), quando a cidade começa a passar por reformas urbanísticas importantes como a reforma pereira passos, que surge com o ideário de colocar a cidade do Rio de Janeiro aos moldes da modernidade, o que implicaria a retirada da população mais pobre da área central da cidade os expulsando para as áreas mais afastadas.
De certo modo essas intenções foram ao encontro de dois eventos muito importantes na consolidação da integração da Metrópole, Rio de Janeiro, com sua hinterlândia, Baixada Fluminense. A saber:
a. Disposição de sistemas de integração rodoviária e ferroviária: isto se valida no uso das ferrovias para o deslocamento da população que antes era utilizado somente para o transporte de mercadorias, e a abertura de importantes rodovias durante as primeiras décadas do século XX, a Avenida Presidente Dutra, Avenida Brasil e Avenida Washington Luiz, que hoje servem como espinhas dorsais na ligação rodoviária das áreas periféricas ao núcleo central da cidade;
b. Loteamentos das antigas fazendas na Baixada Fluminense: devido às crises decorrentes nos sistemas agrícolas, em especial na queda da produção da laranja, começa-se uma intensa onda loteadora por todos as áreas da Baixada Fluminense (GEIGER &MESQUITA, 1956).
Esses dois eventos propiciaram uma expansão cada vez maior da cidade do Rio de Janeiro em direção à conhecida Baixada Fluminense, consolidando aquilo que Maria Terezinha de Segada Soares (1956) chamou de “incorporação da célula urbana”.
O processo da formalização política da Região Metropolitana do Rio de Janeiro ainda se projetou de maneira muito singular, pois até o início dos anos de 1970, a extensa malha urbana do Rio de Janeiro se encontrava recortada por um desafio político, proposto pela existência de dois governos estaduais, um do antigo Estado da Guanabara (atual município do Rio de janeiro) e outro do Estado do Rio (composto pelos municípios da periferia da metrópole e do interior do estado).
Essa divisão política dentro de uma malha urbana conurbada, onde a resolução dos problemas estava ligada diretamente a uma gestão participativa desta região metropolitana, se colocavam como impasse nas resoluções de questões como o aumento da miserabilidade e a segregação espacial que se consolidara na dinâmica interna desta região.
A incorporação da periferia, Baixada Fluminense, à região metropolitana estava disposta em uma relação funcional, uma vez que após as décadas de 1950 percebe-se um “surto” industrial nesta região, como são os exemplos da instalação de indústrias dos ramos do petróleo e químico-farmacêutico, como respectivamente a Reduc, localizado no município de Duque de Caxias e o Bayer localizado no município de Belford Roxo.
Havia ainda a incorporação nos ramos automobilísticos, como a instalação da Fábrica Nacional de Motores no distrito de Xerém em Duque de Caxias.(ROCHA & SANTOS FILHO, 2006)
Essa nova dinâmica fabril colocava a incorporação da periferia com uma funcionalidade importantíssima, pois ela além de abrigar a grande parte da massa trabalhadora serviria como suporte para atuação logística industrial que vitalizaria a interação sócio-econômica da região metropolitana.
A questão que se constrói no imaginário da população do fluminense, sobre a Baixada, se forjou em uma representação de violência, miséria e medo, que se processou na incorporação desta porção territorial na categoria de “periferia” no contexto da metrópole carioca, sem qualquer indagação sobre essa representação construída, e de seu papel, de sua importância, dentro do contexto fluminense. Desse modo, se torna válido vislumbrarmos um panorama sobre a construção dessa representação periférica para a Baixada Fluminense.
2. Baixada Fluminense: representações de uma periferia - a inserção na metrópole carioca.
Mas, o que é Baixada Fluminense? Tal questionamento é imbuído de uma definição complexa. A problemática de sua definição territorial possui uma enorme variedade de representações variando segundo intencionalidades de grupos sociais em temporalidades distintas. Atualmente o desenho territorial intitulado por Baixada Fluminense é aquele estabelecido pela Secretaria de Desenvolvimento da Baixada e Região Metropolitana - SEDEBREM.
A representação construída no período hodierno não se constitui no sentido original que se baseia em uma definição sobre sua toponímia. Ao consultarmos a gênese das palavras que dão origem ao seu nome perceberemos que se resume em “áreas limítrofes ao mar”. Num sentido geomorfológico a definição da palavra baixada significa área baixa em relação a outras, ou área de deposição. A palavra fluminense vem do radical Latino, Flumem, que significa rio. Para Alexandre Marques(2006, p.7) essa denominação latina se aproxima bastante da denominação “iguassu que em tupi significa muita água”.
A Baixada Fluminense poderia nestes moldes ser definida como “lugar entre rios” ou “terras de muitas águas” (SANTOS SOUZA, 1996). Assim, a representação territorial para a Baixada Fluminense abarcaria todos os municípios do estado do Rio de Janeiro localizados entre a Serra do Mar e o Oceano Atlântico, indo de Campos dos Goytacazes até Mangaratiba.
Varias propostas sob a conceituação de Baixada Fluminense foram elaboradas GÓES (1934), GEIGER & SANTOS (1955), GEIGER & MESQUITA (1956), estando estas primeiras concepções ligadas à grande influência da matriz das escolas tradicionais da geografia, vinculada principalmente a filosofia positivista. Esta por sua vez atribui às ciências naturais o seu maior destaque. Daí entende-se que dentro deste direcionamento metodológico o emprego da regionalização estava mais ligado à particularidade do espaço natural (relevo, hidrografia, clima, etc.).
Dentro deste contexto, podemos citar obras clássicas como a de Alberto Ribeiro Lamego: O Homem e o Brejo (1940), O Homem e a Restinga (1946), O Homem e a Guanabara (1948) e O Homem e a Serra (1950). Nestas obras Alberto Lamego atribui a noção de relevo como um fator importante na regionalização do espaço fluminense.
Dentre as concepções sobre a Baixada Fluminense a que toma um olhar mais apurado fora a dos Geógrafos GEIGER & MESQUITA (1956), que embora colocavam a Baixada Fluminense com uma definição geomorfológica, atribuiu uma regionalização engendrada a partir da estrutura sócio-econômica, com as atividades agrícolas desta região. Tal tentativa tem validade uma vez que o agrupamento dos municípios nesta regionalização acontece pelo potencial econômico bem como pelos problemas enfrentados por tais municípios, em especial os ligados à explosão de loteamentos que começara a acontecer.
Nesta concepção Geiger e Mesquita, apontam uma divisão nesta Baixada Fluminense, baseada em quatro regiões, a saber: Baixada dos Coitacazes, a Baixada da Araruama, a Baixada de Sepetiba e a Baixada da Guanabara (OLIVEIRA, 2004).
Nossas considerações serão direcionadas à Baixada da Guanabara4, pois é a porção que se encontra na hinterlândia da Cidade do Rio de Janeiro e que sofreu o processo mais intenso de marginalização social.
Segundo Maria Terezinha de Segada Soares (1962) foi esta a porção territorial absorvida pela “célula urbana do Grande Rio de Janeiro”, intensificado pelos constantes loteamentos, já apontas por Geiger e Mesquita, e pelas implementações rodo-ferroviárias, servindo esta porção do território como um suporte da expansão urbana da metrópole carioca.
Mas afinal, porque esta porção é a que recebe o nome de Baixada Fluminense? E por que esta denominação nos representa algo melindroso, como morte, miséria e etc? O processo de inserção à condição de periferia nos traduz uma via para entender o teor de tal representação?
As representações são um processo de apropriação da realidade e de (re) construção desta através de um sistema simbólico (MAZZOTTI, 2005). Esse sistema simbólico pode se manifestar das mais variadas formas seja por imposição do poder (SACK, 1986) seja por formas de vigilância (FOUCAULT, 1984) ou mesmo na materialização de nossas intencionalidades criando múltiplas psicosferas (SANTOS, 2002) sendo essas psicosferas responsáveis por parte de nossa classificação e conceituação sobre os diferentes espaços que variam segundo a velocidade dos acontecimentos.
O processo de apropriação da realidade, dos acontecimentos, se circunscreve em uma dimensão espacial, estando as representações conectadas em diversas instâncias sociais.
As representações estão incrustadas em “todas as instâncias que compõe a sociedade”, na economia, política, na cultura, sempre em constante transformação (SÁ 1998, p.21). Essas representações são difundidas por diferentes veículos, seja pela mídia que utiliza jornais, revistas, meios televisivos, a internet seja pelos ditos populares da vida cotidiana, que se propaga por contos, lendas, histórias locais passadas nas interlocuções diárias das pessoas que compõem uma dada sociedade.
Portanto, uma representação sempre é construída a partir de uma relação dada de um sujeito ao fenômeno e vice-versa que sempre se constrói em uma dada espaço-temporalidade, escrevendo-se como uma manifestação imaginária dos sujeitos e da relação destes com o fenômeno que revelam as interações, os conflitos, as tensões, que problematizam determinado momento, que podem se perpetuar por um longo período ou não.
Para Jodelet (1989) a representação social e sua abordagem nos permitem uma apreensão das formas e conteúdos da construção coletiva da realidade social. Esta realidade social se manifesta espacialmente, portanto passível de apreensão pela lente da ciência geográfica (LIMA, 2006). Se o espaço é entendido como um produto social (SANTOS, 1992) ela é passível de ser moldada por representações que se revelam no processo de produção do mesmo, caracterizando uma dimensão simbólica de referenciamento.
Assim, as concepções que temos do espaço são representações construídas a partir das interações sócio-espaciais produzidas no seio do tecido social, seja pela dinâmica de fixos e fluxos materiais e materiais, ou seja, pela disposição de formas-conteúdos, objetos e ações, que fazem desta produção espacial uma produção ideológica, carregada de representações. O espaço pode, a partir do sistema de produção, ter suas representações construídas pela funcionalidade que desempenhem numa dada estrutura espaço-temporal.
Estando a Baixada Fluminense inserida na “Grande Célula Urbana do Rio de Janeiro”, ela vai abarcar dimensões representacionais que irão ao encontro de suas funcionalidades dentro desta estrutura, que num primeiro momento se concentrou em um processo de periferização, que num processo de produção dos espaços e de suas representações, tiveram no Estado, nos veículos difusores midiáticos e nos proprietários de um poder local (sejam imobiliários e/ou fundiários locais) a solidificação desta representação periférica ao longo da segunda metade do século XX.
O processo de periferização da Baixada Fluminense.
Construção da Baixada Fluminense enquanto periferia da cidade do Rio de Janeiro, tem seu processo intensificado após os anos de 1950 (LAZARONI,1990). A incorporação à célula urbana ocorreu a partir das necessidades de absorver o crescimento populacional que os municípios sofreram nos anos 1940 e 1950, em especial, com a chegada de imigrantes de diversas partes do estado do Rio de Janeiro (região sul, noroeste e norte fluminense) e o Brasil (região nordeste, por exemplo).
Algumas localidades da Baixada apresentaram um considerável índice de crescimento populacional neste período, a saber: Inhomirim, com 423%; Vila de Cava, com 306%; Queimados, com 372%; Duque de Caxias, com 226% “(ALVEZ, 2003, p.62)”.
O surto de crescimento da população desencadeado ao longo da segunda metade do século XX atribui ao território um uso intenso e “desordenado”, que em sua maior parte não houve um amparo em infra-estrutura básica, demonstrando a consolidação de expressões sócio-territoriais aos municípios da Baixada Fluminense atrelando-os a condição de “periferia da periferia” (SANTOS DE SOUZA, 2002).
A produção deste espaço se constrói totalmente marginalizada das instâncias reguladoras de ordem estatal, o exemplo dos loteamentos que não receberam nenhuma implementação de infra-estrutura básica como esgoto e água tratada, sendo construídas ainda em terrenos de solos hidromóficos, põe em questão uma fragilidade do processo de intensa urbanização se repercutindo em verdadeiros impactos sócio-ambientais em dias de chuva intensa, provocando enchentes, doenças, danos materiais e etc. (FIALHO et all, 2005).
Toda a ausência política promoveu um crescimento de um poder local, que se estruturou no vazio deixado pelo Estado, dando cabo a uma ação de um poder “marginal” marcado pelos domínios dos “esquadrões da morte”.
Para Alves (2003) cria-se um cenário ótimo para a presença destes “novos coronéis” que se caracterizam pela imposição de sua supremacia política pautada na “violência”. Assim, em toda a Baixada Fluminense se consolidam espaços de violência e medo social. Tal perspectiva obteve tal evidência que um de seus municípios, Belford Roxo, foi colocada entre as cidades mais violentas do mundo durante os anos 1980.
Alguns títulos de reportagens de Jornais revelam isto: “Baixada, debate da criminalidade” 5 , “Baixada, em 6 meses: 198 homicídios, 136 misteriosos”6, “Baixada tenta mudar a imagem violenta”7 “Comissão de Justiça e Paz pede a ministro medidas contra crime na Baixada”8 “Os mitos da Baixada Fluminense”9, este títulos reforçam o imaginário da violência. Em um caso mais recente, no ano de 2005, ocorre na Baixada Fluminense mais um cenário desta violência com um chacina que ocorreu em vários bairros, obtendo uma repercussão internacional10, o que solidifica mais ainda esse tipo de representação.
Esse cenário é ainda construído na ambigüidade política para região metropolitana que começara a se forja no estado do Rio de Janeiro, pois a mesma ainda possuía uma demarcação simbólica entre o estado da Guanabara e o antigo estado do Rio de Janeiro, mesmo depois da fusão no ano de 1974 entre esses dois domínios políticos, as representações sócio-territoriais dos espaços eram bem definidos, coincidindo com as palavras de Milton Santos (2005), sobre uma distinção territorial dentro da região metropolitana entre um espaço luminoso e um espaço opaco.
O espaço luminoso é marcado pela centralidade cultural e econômica de uma metrópole nacional, a cidade do Rio de Janeiro, estabelecida como uma vitrine do Brasil para o mundo (LESSA, 2003). O Espaço opaco é aquele entendido como o marginalizado, periferia, lugar forjado pelo processo de produção que se revela desigual e combinado, o que podemos, de certa forma, enquadrar a Baixada Fluminense.
A representação de um espaço opaco, marginalizado, periférico construído sobre a Baixada Fluminense vai ser predominante, especialmente pela promoção da ausência do poder político estatal, em vias de abrigo para infra-estrutura social: saneamento básico, pavimentação de ruas, iluminação pública, áreas de lazer de domínio público, etc. É, portanto com essa representação, que as principais notícias de jornais e revistas se voltavam para a qualificação da Baixada Fluminense.
Segundo Alvez (2003) em uma reportagem sobre a chacina na Favela de Vigário Geral, esta localizada no município do Rio de Janeiro, obteve um comentário que muito chamou atenção do autor, onde diante de uma entrevista uma deputada federal verbalizou que lamentava o que ocorria em “uma favela da Baixada Fluminense”.
A questão que se processa é: será que a violência e o medo são as diretrizes da representação da Baixada Fluminense?
Esse aspecto da representação acaba se confundindo com o estabelecimento de limites claros, dando ao que sistematiza tal representação uma construção não muito precisa sobre o que seja realmente à Baixada Fluminense. A caracterização atribuída à Baixada, numa representação periférica da pobreza, pode ser ainda revelada em índices alarmantes da pobreza. Em 1991, sua população era de 2541574 habitantes, “sendo que do total de famílias moradoras da região, 22,95% viviam em condições de indigência, representando 33,48% dos indigentes da Região Metropolitana”.(FLORÊNCIO et al.1995, p.19)
A associação do descaso político, índices gritantes de pobreza e miséria a o reforço midiáticos dos jornais sempre confabularam para essa formação uma representação da periferia da periferia, que tem trazido profundas tensões para inserção ou não de territórios nesta composição territorial de Baixada Fluminense, como é o exemplo de cidades como Guapimirim que para a secretaria de turismo se tornar muito melindroso afirmar que este faz parte da Baixada, pois poderia acarretaria numa suposta baixa de turista para esse município, se afirmando então enquanto região serrana, embora na divisão do SEDEBREM Guapimirim seja pertencente à suposta composição territorial de Baixada. Já em sentido contrário para a secretaria de planejamento e infra-estrutura, Guapimirim faz parte desta composição territorial, pois dessa forma se beneficiará da onda de investimento que vem ocorrendo nas últimas décadas para os municípios pertencentes à Baixada Fluminense, revelando o papel destas localidades e de suas atuais dinâmicas territoriais no contexto da região metropolitana.
3 - Repensando a Baixada Fluminense e suas atuais dinâmicas territoriais dentro da metrópole carioca.
A Baixada Fluminense, àquela estabelecida pelo SEDEBREM, está toda inserida no corpo da região metropolitana. Este vem demonstrando um sucesso econômico que é anunciado pelos últimos dados censo do IBGE. Mesmo com toda a promoção econômica não se percebe melhorias nas condições de vida. Tais dados refletem o papel desempenhado e a força da Baixada Fluminense dentro da composição econômica da Região Metropolitana. Como bem exposto, temos os municípios de Belford Roxo, Nova Iguaçu e Duque de Caxias que se encontram, segundo dados do IBGE, entre os 100 maiores PIB municipais do país no ano de 2002, paralelamente com os municípios Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo.
Esses dados referenda a importância da inserção da Baixada Fluminense na célula urbana do Rio de Janeiro, pois acoplar áreas que desempenhem funcionalidades à dinâmica do capital no urbano se faz mister, mesmo que seja de forma perversa.
Neste contexto, o dado de maior surpresa é, sem dúvida, o da situação do município de Duque de Caxias, pois sendo este localizado nesta região, trás certos méritos a Baixada Fluminense uma vez que se situa na 6º posição geral do país onde o mesmo acaba por derrubar capitais já consagradas como Curitiba em 7º, Recife em 11º e Salvador em 15º.
Ainda sobre o perfil socioeconômico da Baixada Fluminense é salutar uma análise de do IDH - Índice de Desenvolvimento Humano - de seus municípios. Mesmo obtendo uma evolução econômica o quadro social desses municípios permanece mergulhado em situações alarmantes, como exemplo, o próprio caso do município de Duque de Caxias. Mesmo estando na 6º posição em relação ao PIB nacional seu Índice de Desenvolvimento Humano não reflete o mesmo seu desempenho econômico, no caso do município de Duque de Caxias ele se encontra na 1796º colocação, a mesma dicotomia ocorre nos municípios de Nova Iguaçu e Belford Roxo, que embora permaneçam entre as melhores arrecadações do país, tais municípios se vêem presos a severos contrastes sociais, econômicos e territoriais.
Essa atual promoção econômica se dá pelas inúmeras externalidades positivas que se consolidaram nesta região, o que leva a grandes vantagens comparativas aos que nela investem.
Como externalidades positivas podemos citar: a) a proximidade com a metrópole nacional, o Rio de Janeiro; b) a presença de rodovias federais que possibilitam a circulação de mercadorias, como a BR-116(via Dutra), a BR-101(AV. Brasil) e a BR-040(Av. Washington Luiz), mais ainda se colocarmos a presença do projeto da RJ -109 - Anel-arco rodoviário que faria a interligação destas rodovias federais (ver representação 3); c) a presença de investimentos por parte do governo estadual e federal, como, por exemplo, a implantação recente do Pólo Gás-químico em Duque de Caxias, o complexo industrial de Japeri, a Usina termoelétrica TERMORIO; d) presença ativa da iniciativa privada, na ampliação dos Shopping's Grande Rio, localizado no município de São João de Meriti, do TOP Shopping localizado em Nova Iguaçu, na instalação de três novas fábricas: a Ebamag Logística; a Geoplan e a Metalúrgica Barra do Piraí em Belford Roxo , instalação do galpão logístico das Casas Bahia em Magé, etc.
O princípio locacional para a circulação de bens e serviços atribui à Baixada Fluminense uma funcionalidade de suma importância.
A localização na área de entorno de uma metrópole nacional e ser servida de vias de circulação que dão acesso a grandes mercados consumidores do país, basta lembrar que A BR-040 leva até Belo Horizonte e a BR-116 leva até São Paulo. Faz com que a Baixada adquira uma posição privilegiada na circulação de bens e serviços, servindo de grande atrativo à investimentos empresariais. Um dado ainda importante que afirma as idéias mencionadas é o fato de Duque de Caxias ser atualmente o 3º maior exportador do país (PMDC, 2007).
Esse teor locacional e sua funcionalidade são mais aguçados perante a vitalização do antigo porto de Sepetiba, agora chamado porto de Itaguaí, conjuntamente com a Implementação no Anel Arco-Rodoviário, RJ-109, contribuirá para que a movimentação de fluxos dentro desta área se torne ainda mais intenso, possibilitando uma potencialidade produtora-exportadora, que beira até mesmo a um nível internacional via a utilização do porto de Itaguaí. Cabe lembrar que este projeto da RJ-109 pode até mesmo dinamizar a outra porção da região metropolitana, o leste metropolitano, onde estará localizada a refinaria de Itaboraí.
Segundo dados da FIRJAN, na Baixada Fluminense foi registrada a maior alta segundo a sondagem econômica regional do primeiro trimestre de 2007, merecendo uma titulação “Em expansão: estudo da Firjam revela um crescimento da indústria e do emprego na Baixada” contida no caderno especial do Jornal do Dia de 1 de julho de 2007.
Dados do crescimento econômicos têm atraído não somente o ramo industrial, mas, também investimentos na área da construção civil, como são os casos de uma intensa implementação de condomínios de porte da classe média alta na Baixada. Vale salientar como exemplo o atual empreendimento da GAFISA, “Aqua”, localizado no município de Nova Iguaçu que tem “Porte de condomínios da Barra da Tijuca, estilo nobre”11 , na qual o preço mais em conta de um apartamento custa 170 mil reais, além deste empreendimento existem mais projetos em bairros de Duque de Caxias e mesmo em Nova Iguaçu onde casas podem chegar ao valor de 300 à 500 mil reais, como é o caso do condomínio Residencial Afrânio localizado na área central de Nova Iguaçu.
Essa intensa valorização do solo urbano contido na zona “periférica” coloca novos padrões na oferta de serviços como localizações de universidades publicas e privadas e mesmo de áreas de compras como shopping centers, ate mesmo a realizações de eventos de projeção internacional como o Fórum Mundial de Educação realizado no ano de 2006 no município de Nova Iguaçu.
Desta forma, não é de se surpreender o aparecimento no cenário nacional nas disputas políticas pelo domínio de prefeituras como Duque de Caxias e Nova Iguaçu, nas últimas eleições, que além de serem importantes colégios eleitorais dentro do estado do Rio de Janeiro apresentam grandes projeções econômicas de suma importância no seio da região metropolitana deste estado.
4) Para não concluir.... A Baixada deixa de ser “Baixada”?
A funcionalidade periférica começa a ganhar novos contornos, via aos investimentos proporcionados pelo princípio da localização, que a Baixada Fluminense é privilegiada. A inserção da Baixada Fluminense à região metropolitana do Rio de Janeiro advinha de uma questão estratégica, que hoje se projeta na disposição da circulação de bens e serviço proporcionado pelas interações existentes entre a periferia e a metrópole, seja na concentração de mão-de-obra seja na circulação de produtos.
Atualmente a própria mídia vêm colocando novas representações sobre esta porção territorial, a ponto de vários jornais, direcionarem um caderno especial todos os domingos aos acontecimentos desta área, abordando cultura, lazer, política e especialmente economia.
Desse modo, se fez importante um (re)pensar sobre inserção da Baixada fluminense na posição de periferia bem como aludir sobre suas atuais dinâmicas territoriais, que vêm sobre a ações de diversos atores, que promovem sobre esta área diferentes representações.
Assim algumas questões sobre a Representação da Baixada Fluminense afloram:
· Como o choque de representações pode proporcionar diferentes desenhos à Baixada Fluminense?
· Será que a Baixada está deixando a sua imagem periférica para assumir uma posição diferente da que foi circunscrita ao longo ao século XX ?
· Será que novos traçados econômicos e políticos vêm proporcionando à Baixada Fluminense uma nova representação?
De qualquer modo o presente texto não tem a finalidade de esgotar tais questionamentos, mas se de alguma forma podemos contribuir para um (re)pensar a Baixada Fluminense e suas dinâmicas e representações territoriais já nos damos por satisfeitos.
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NOTAS
1 Os município que compõem a região metropolitana para o CIDE são: Rio de Janeiro, Niterói , São Gonçalo, Itaboraí, Tanguá, Nova Iguaçu, Belford Roxo, Duque de Caxias, São João de Meriti, Japeri, Queimados, Nilópolis, Paracambi, Seropédica, Magé, Guapimirim, Mesquita e Itaguaí.
2 Segundo Miguel Ângelo Ribeiro & etall, em seu livro Rio de Janeiro e Regiões de governo(2006) - destaca existências de dinâmicas produtivas que se dinamizam no interior do estado com a produção petrolífera no Norte Fluminense e a produção metal mecânica no Sul Fluminense e vale médio do paraíba
3 “Hinterlândia significa área subordinada economicamente a um centro urbano” (CORREA, 2000, p.86)
4 A esta porção ainda percebe-se a designação de “Tabuleiro da Guanabara” utilizada por memorialistas como Ney Alberto, Ruy Afrânio, Guilherme Peres e etc.
5 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14/04/1980
6 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro. 18/06/1975
7 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 03/09/1984
8 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 31/031978
9 Jornal O Globo, Rio de Janeiro, 21/04/1979
10 “Caderno especial sobre a chacina na Baixada Fluminense”, Jornal EXTRA, 02/04/2005
11 Comentário da Reportagem do jornal valor Econômico de 29/03/2007