Revista geo-paisagem (on line)

Ano  7, nº 13, 2008

Janeiro/Junho de 2008

ISSN Nº 1677-650 X

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Discutindo cientificidade: o caso da geografia

Geografia, uma ciência ? [1]

 

 

Helio de Araujo Evangelista [2]

 

Resumo

 

O texto aborda a cientificidade da geografia. Há diferentes enfoques e finaliza com uma proposta.

 

Palavras-chaves: Geografia , ciência, proposta

 

Abstract

 

The author examines the geography as a science. There is different ways to develop the question and give your own opinion about at the end of the text.

 

Key-words: Geography, science, proposal

 

 

Apresentação

 

            Ao contrário da época da Guerra Fria, quando os campos em conflito estavam desenhados, onde até mesmo a perspectiva de guerra nuclear estava na ordem do dia, hoje, a impressão que temos é de vivermos numa curva da história, não sendo possível assim vislumbrar o que encontraremos nos próximos anos.

            A formação dos blocos geo-econômicos configura novas formas de intercâmbio que subtraem da esfera do Estado Nacional o locus privilegiado na negociação dos investimentos, formas de apoios financeiros a empreendimentos, etc.. A formatação em escala planetária dos assim chamados tecno-polos realça a dimensão de que as relações de mercado estão engendradas por agentes que não trazem mais a identificação advinda do Estado

            Neste contexto o Brasil passa por enormes desafios que colocam em xeque a própria matriz urbano-industrial constituída, principalmente, neste século. A forma de adaptação à esta nova situação corrobora num verdadeiro desafio político, ( Becker, 1993 ) que é o de adequar um projeto que possibilite uma inserção do Brasil na economia internacional sem levar às perdas verificadas no México e Argentina.

            No campo da ciência há também um forte processo de mudança, de tal modo que não há um paradigma, ou corrente de pensamento dominante; há sim uma frenética busca por modelos, teorias que possam dar conta dos processos novos que vem surgindo das mais diferentes espécies . Há um acelerar da história, atualmente o que ocorre em um ano passa a ser mais decisivo do que ocorria no mesmo período na década de setenta, por exemplo.

            A ciência do mundo ocidental forjada no paradigma racionalista cartesiano, pelo qual o seccionamento, a subdivisão do campo do conhecimento por temas eram procedimentos que emulavam a produção do saber sofre nos dias atuais uma profunda revisão.

            A teoria do caos, o paradigma da complexidade, a defesa de uma visão holística no reconhecimento do mundo que nos cerca são sintomas que expressam, especificamente no campo da ciência, uma nova onda de inovações e novas formas de interações que não estamos totalmente cientes.

            Deste modo, este estudo sobre a cientificidade da Geografia deve estar inserido num momento quando novas propostas estão sendo colocadas para a ciência como um todo.

            Embora tenha sido elaborado um levantamento bibliográfico, foi necessária uma seleção dos autores durante a fase da elaboração do presente texto, esta seleção, por sua vez, teve como referência os autores citados durante a realização do Seminário de Geografia Humana, coordenado pela professora Bertha Koiffman Becker, e promovido pelo Curso de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro no primeiro semestre de 1995.

            Este Seminário ofereceu à turma um vasto temário sobre a Geografia Humana, indo desde o aspecto epistemológico até as discussões mais contemporâneas sobre a globalização da economia e a questão ambiental. Sendo assim, o presente trabalho procura expressar o significado do curso para nós a partir de uma discussão sobre a cientificidade da Geografia Humana.

 

1 ) Ciência

 

            A discussão sobre a ciência não raro é confundida com a discussão sobre a verdade, o cientista é tido como aquele que procura a verdade, seja pelo experimento, pela leitura, pela aquisição de um aprendizado, mas o seu norte é dar a conhecer algo que venha a ser aceito, acatado e que oriente a produção de novos conhecimentos, saberes, etc..

            A discussão sobre a verdade é antiga como a própria sociedade humana que visa melhor conhecer o mundo para nele continuar existindo. A rigor, o que é a verdade? O termo verdade já acusa a possibilidade de chegarmos à noção de existência efetiva de uma dada informação. Parece-me que a nossa existência acusa a existência da verdade; não parece ser possível constituirmos a vida a partir da negação da verdade.

            O que é ciência? A prática humana em favor da busca desta verdade ?

            Quando acompanhamos a história das invenções humanas, o avanço da ciência em termos gerais, notamos a sua constante finitude, os seus enunciados  são superados por novas asserções, que por sua vez chegam a novas, e assim por diante.

            Esta busca pela verdade não deixa de ser forjada por um processo histórico, ou seja, o modo como se procura alcançá-la são circunscritas às condições históricas que moldam as concepções dominantes quanto a forma adotada.

            Mas, a rigor, o que caracteriza um discurso como sendo científico? O que dá cientificidade a um enunciado?

            Como recurso para trabalharmos estas indagações, recorreremos à contribuição de Thomas Khun em A Estrutura das Revoluções Científicas, através dele não intentamos traçar um fichário sobre o seu pensamento, mas sim a partir de suas observações construir um cenário de como a ciência é conceituada como tal.

            O trabalho de Thomas Khun está centralizado em alguns ramos da ciência como o da astronomia, (comparando geocentrismo e heliocentrismo), química (ao tratar da concepção do flogisto e a descoberta do oxigênio ), física ( a composição da luz, a teoria eletromagnética, a teoria mecânica, a teoria da relatividade e a teoria atômica) e sobre alguns cientistas (Ptolomeu, Copérnico, Lavoisier, Dalton, Maxwell, Isaac Newton e Albert Einstein, entre outros) para pensar a constituição e mudanças de paradigmas na ciência, no entanto, ele não chega a ter nas Ciências Humanas material de apoio para pensar as revoluções científicas.

            Sobre as ciências humanas ele detecta uma séria dificuldade para se achar um consenso quanto aos paradigmas que orientem os trabalhos, ele, na verdade, não afirma ser possível encontrar nestas ciências paradigma, ele deixa a questão em aberto (p. 13, 35 ).

            Além deste aspecto, embora considere relevante o papel do avanço tecnológico e das condições sócio-econômicas como emulo da ciência, como fatores externo, ele dá pequena importância aos mesmos na justificativa de que ...“o papel desempenhado pelos fatores externos e de menor importância apenas em relação aos problemas discutidos neste ensaio “ (p. 15 e  vide nota 4 na mesma pág.).

            Thomas Khun procura compreender as rupturas que ocorrem nas ciências, não correspondendo a visão usual de que o conhecimento tem um caráter cumulativo, ele percebe que as transformações no campo científico ocorrem através de rupturas que trazem mudanças radicais nos paradigmas então adotados.

            O caráter cumulativo do conhecimento ocorre no curso normal das investigações onde há uma hegemonia de um paradigma, é a ciência normal - uma atividade que consiste em ... “em solucionar quebra-cabeças, é um empreendimento altamente cumulativo extremamente bem sucedido no que toca ao seu objetivo, a ampliação contínua do alcance e da precisão do conhecimento científico” (p. 77)  , porém quando ocorre um acúmulo de dívidas e fatos novos que o mesmo não explica, surge concepções rivais propondo-se a responder as novas dúvidas.

            A ciência é vista como um campo onde seu desenvolvimento tem nos estágios preliminares o conflito entre diferentes concepções de natureza. A resolução destes conflitos não ocorre exclusivamente devido à competência intrínseca dos argumentos apresentados, há outros aspectos que se destacam, ele chama atenção , neste sentido, para o papel da equipe, da coesão dos cientistas, da sua capacidade em articular-se e persuadir os demais de que a sua concepção é a mais eficiente (p. 128).

            As revoluções científicas surgem como episódio de desenvolvimento, cumulativo, nos quais um paradigma mais antigo é total ou parcialmente substituído por um novo, incompatível com o anterior (p. 125)

            O paradigma informa ao cientista que aspectos da natureza a considerar, assim como a maneira como estes se comportam. É como se fosse um mapa de pesquisa, sem o qual a observação estaria mergulhada num mundo complexo e sem expectativa de vir a gerar um conhecimento passível de ser acumulado. O paradigma compreende teoria, métodos e padrões científicos. Desse modo, quando o paradigma é rompido, há uma mudança na legitimidade quanto aos problemas e as soluções consideradas (143-144)

            O paradigma não tem apenas função normativa, mas também cognitiva e a mudança de paradigma significa a mudança de uma concepção de mundo.

            Em períodos de revolução científica, a percepção do cientista sobre o seu objeto de estudo passa por uma reeducação, há uma alteração da forma (Gestalt) de se perceber o objeto ...” embora o mundo não mude com uma mudança de paradigma, depois dele o cientista trabalha em um mundo diferente”. (p. 157).

            É uma perspectiva epistemológica segundo a qual a ciência não deixa de ser uma interpretação humana de determinados fatores...“A ciência não se ocupa com toda as manifestações possíveis no laboratório. Ao invés disso, seleciona aqueles que são relevantes para a justaposição de um paradigma com a experiência imediata, a qual, por sua vez, foi parcialmente determinado por esse mesmo paradigma” (p. 162)

            O discurso científico prima por uma certa unidade pois o seu enunciado está permeado por procedimento metodológico e teórico que orienta a seleção avaliação e crítica das experiências realizadas. A ausência de parâmetros necessariamente leva a uma série de divergência que pouco facultam a compreensão mútua e o caráter cumulativo do conhecimento.

            Mas, se o paradigma atua como o grande norte da pesquisa, o que advém de seu uso é uma construção sobre o real factível de ser remodelado por um novo paradigma. O que abre a indagação da ciência ser algo que chegue de fato à verdade, será que as mudanças dos paradigmas significam uma tendência evolutiva para a compreensão da realidade?

            Ele percebe que as mudanças de paradigma não têm uma aproximação acumulativa de chegar a verdade; ocorre sim na sucessão dos diferentes paradigmas, de um determinado campo de análise, uma não sucessão coerente de desenvolvimento, em termos de ajuste, entre a ontologia de uma teoria e sua contrapartida “real” na natureza ; há sim, no processo de evolução dos paradigmas, alguns aspectos da realidade destacados e outros que perdem significado ( mas que podem vir a ser valorizado pelo paradigma seguinte, como foi o exemplo da Teoria da Relatividade de Einstein estar mais próxima da Teoria de Aristóteles ). (p. 213, 235).

 

·      Conclusão parcial para o Trabalho

 

            A ciência é permeada por um paradigma que a conduz, indica os aspectos da natureza a considerar, assim como os mesmos se comportam. O paradigma compreende teoria, métodos e padrões de procedimento na pesquisa. Ele, enfim, dá legitimidade aos problemas e soluções encontradas durante os trabalhos. Pelo paradigma há, portanto, uma determinada concepção de fazer ciência.

            Pelo paradigma há a formatação de uma certa coesão nos discursos, achados e formas de comunicação das descobertas . No entanto, o paradigma não pode ser confundido como sendo a própria realidade, ele é um norte da pesquisa diante de sem número de fenômenos diante dos quais há de ter uma seleção para construir o conhecimento humano.

 

2) Ciência Humana

 

            A construção da ciência humana passa por um desafio a partir do próprio objeto que a mesma procura tratar, o homem.

            Ao contrário dos outros seres vivos ou coisas analisadas, o homem norteia o seu comportamento e é regido não só em função de seu meio ambiente, ou pelos seus instintos básicos de auto defesa e reprodução, ou ainda pela sua herança genética que delineia o seu biotipo e contribui na configuração do caráter e personalidade, mas, além de tudo isso, há também o norteamento do comportamento humano pelo exercício da vontade, o ser humano goza da particularidade de usufruir uma consciência que o capacita a exercer diferentes opções. Ele é um ser teleológico buscando um sentido não oferecido pelos instintos ou herança genética.

            A particularidade de se ter consciência (consciência de si, sabendo ter uma interpretação do que ocorre consigo, do que objetiva, e como realizar o que intenta ) o leva a apresentar um comportamento que procura não só satisfazer necessidades materiais mas tem encerrado em si uma indagação quanto à razão de sua existência, a origem de sua vida. Embora haja inteligência em animais, esta não é abstrata como a do homem que perscruta não só formas de sobrevivência biológica, mas percebe a sua existência de uma forma mais ampla, há uma busca de sentido para a vida.

            Logo, o homem não trata de seu tempo de vida apenas afeito à uma reprodução simples, do tipo comer, vestir, e morar. A cultura, por exemplo, é neste sentido uma expressão de uma busca para melhor compreender o mundo que o cerca, não basta o conhecimento advindo exclusivamente de seus sentidos, ele procura acumular conhecimento para conhecer e dominar.

            Em resumo, esta busca pela reprodução da vida no sentido maior do termo, faculta uma certa precariedade na formulação de prognósticos em relação ao que se pode esperar do futuro do mesmo.

            Para avançar na análise do conteúdo da ciência humana recorreremos ao pensamento do filósofo Michel Foucault exposto na obra As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. No entanto, a sua leitura não é das mais fáceis, necessitei de um apoio que veio a ser encontrado no livro Introdução ao Pensamento Epistemológico de Hilton Japiassu que apresenta um capítulo sobre este pensador, destacando exatamente a contribuição desta obra. 

            Dada a necessidade de tornar concisa a presente exposição para deitarmos maior atenção na cientificidade da Geografia, objeto de nosso trabalho, iremos a seguir destacar aspectos sobre a ciência humana explorando com maior intensidade o último capítulo do livro de Michel Foucault.

 

·      O Espaço Epistemológico das ciências humanas

 

            As ciências humanas não tiveram como as demais ciências uma herança advinda antes do século XIX, ela é muito recente. Não houve até este século uma determinação de seu domínio. (Foucault, 1992, p. 361 )

            O aparecimento desta ciência tem uma imediata correlação com a época da Revolução Industrial. A emergência de se figurar uma nova forma societária, com novo tipo de relações sociais, novas formas de vigilância, de se comportar, etc.. infringiram na sociedade determinadas estruturas de poder que passaram a ter melhor eficiência, caso esta mesma sociedade fosse mais bem conhecida. (Foucault, 1992, p. 362 )

            O debruçar sobre o homem pela primeira vez na história humana forjou uma reordenação no campo da episteme . O campo moderno da episteme já não está mais atrelado a uma matematização perfeita ou de uma hierarquia formal entre os diferentes saberes, ele vem a ser um espaço aberto segundo três dimensões formando uma espécie de “triedro dos saberes” que definiria o espaço epistemológico da constituição das ciências humanas.(Foucault, 1992, p. 364)

            Este triedro, com suas dimensões, contam com três eixos, a saber: A ) o eixo das Matemáticas e Psicomatemáticas, ciências exatas e protótipos da cientificidade; B ) o eixo das Ciências da Vida, da Produção e da Linguagem: Biologia, Economia e Ciências da Linguagem, C ) o eixo da Reflexão Filosófica propriamente dita. (Japiassu, 1991, , p. 114)

            Entre estes eixos há os seguintes planos: o das Matemáticas Aplicadas entre os eixos A e B, o da Formalização do Pensamento entre os eixos C e A, e o plano das Ontologias Regionais entre os eixos C e B . Vide figura proposta por Hilton Japiassu (p. 114 ) retratando o sistema de constituição das ciências humanas.


            Por este modelo as Ciências Humanas não estão em nenhum dos eixos ou dos planos. Elas estão no interstício do saber, participando de modo diversificado das três dimensões do saber. Pela figura proposta, Hilton Japiassu as representa como uma nuvem pairando sobre o triedro. Esta nuvem tem três núcleos formados por características comuns e formas de organização ( 1- o psicológico, 2- sociológico e 3-o lingüístico ).( Japiassu, 1991, p. 115 )

            Estes núcleos são espécies de pólos de regiões da Ciência Humana. A região das ciências psicológicas toma da Biologia empréstimo um modelo pautado nos conceitos de “função” e de “norma”. A segunda região, a das ciências sociológicas, toma da Economia Política um modelo que gira em torno dos conceitos de “conflitos” e de “regras”. A terceira região é das ciências Lingüísticas e Culturais que toma da ciência da linguagem um modelo apoiado nas idéias de “sentido” e de “sistema”.( Japiassu, 1991 ., p. 116 )

            No entanto, a configuração destas três regiões do espaço epistemológico da ciência humana não está solidificada, pois estas regiões estão inseridas na História e só compreendidas a partir de um conteúdo histórico. Além disso, cada região vem habitada por práticas deletérias que comprometem a sua configuração enquanto corpo científico, Tais práticas decorrem de inquietações quanto ao volume já adquirido e partir disto há a busca de novos encaminhamentos, como é o caso da Psicanálise em relação à Psicologia, ou ainda a Etnologia em relação à Sociologia. (Japiassu, 1991 ,p. 116)

 

·      Objeto das ciências humanas

            O homem para as ciências humanas não se define a partir de uma busca de sua natureza, mas sim pelo que ele é em sua positividade (ser que vive, trabalha, fala) e que o permite a conhecer o que vem a ser a vida. As ciências humanas ocupam o espaço entre a biologia, a economia e a filologia, no entanto, as ciências humanas não as absorvem . (Foucault, 1992, pp. 370-371). O campo das ciências humanas, além do próprio objeto,  viria a ser a representação  (Foucault, 1992, p. 380).

            Caberia neste momento novamente recorrermos ao trabalho de Hilton Japiassu.

            Foucault ao analisar a episteme ocidental vislumbra três grandes momentos “...a época da Renascença (séc. XVI), a época clássica da ciência e das Luzes ( séculos XVII e XVIII ); e o período que se inicia com o século XIX (1820) e que vem até nós”. (Japiassu, 1991, p. 117-118)

            Das três épocas, ele analisa, detalhadamente a segunda, da qual as ciências humanas ainda não saíram e que é a seguir destacado.

            A época clássica, por sua vez, é analisada por Foucault a partir do termo representação .Esta além de signo é também um fato mental, um registro epistemológico próprio constituído não só por uma percepção clássica do termo, tal como concebido por Descartes, mas perceptível nas formulações da matemática e da física do século XVII ( que vem inspirada por uma mathesis universalis; é como se houvesse a busca de uma grande lógica do universo ). (Japiassu, 1991, p. 119)

            O signo é uma das principais diferenças entre o período clássico e o anterior, o signo no período clássico não é algo que esconda alguma mensagem eterna, pelo contrário, a sua lógica muda constantemente; a economia dos signos é binária, representante-representado, este quadro imbrica numa relação indissociável entre significante-significado, pelo qual a compreensão de algo passa pela reflexão sobre os signos que o indicam; a ciências dos signos atua como um discurso do significado do que se procura compreender (Japiassu, 1991, pp. 119-120).

            Mas, há um esforço de normatização no decorrer deste período clássico que tem uma direta incidência no espaço das ciências humanas. A ciência clássica (física e matemática) organiza-se como a própria mathesis, marcada pela ordem, que vem a ser o princípio distintivo de toda a economia da representação, nela está as conveniências das “naturezas simples”, da álgebra ou da análise matemática. Porém, para além da ordem, surgirão dois novos segmentos de organização do conhecimento: o primeiro, taxinomia, e o segundo o estudo da ordem das produções e dos desenvolvimentos constitutivos no tempo (estudo das gêneses). (Japiassu, 1991, p. 120-121).

            Está assim configurado uma espécie de trinômio constituído pela mathesis, taxinomia e estudo das gêneses - entre a mathesis e a gênese estaria a região dos signos que atravessam o domínio da representação empírica mas não a supera . Nesta mediação entre o cálculo e a gênese é que aparecem “...os primeiros núcleos desse saber em referência aos quais começam a se constituir as ciências humanas” (Japiassu, 1991, p. 121).

 

·      Ciência Humana, uma ciência?

 

            Sendo a representação o próprio campo das ciências humanas, há duas conseqüências, a saber: não houve nas ciências humanas, como ocorreu nas ciências empíricas e no pensamento moderno, a superação do primado da representação; a segunda é “...que as ciências humanas, ao tratarem do que é representação ( sob uma forma consciente ou inconsciente ) estão tratando como seu objeto o que é sua condição de possibilidade... Vão do que é dado à representação ao que torna possível a representação, mas que é ainda uma representação. De maneira que elas buscam menos, como as outras ciências, generalizar-se ou precisar-se do que desmistificar-se sem cessar : passar de uma evidência imediata e não-controlada a formas menos transparentes, porém mais fundamentais “.(Foucault, 1992, p. 381).

            Dado o exposto, Michel Foucault entende que não há ciências humanas, que elas vêm a ser falsas ciências; e interpreta que o uso do termo ciência para qualificar o seu discurso decorre do uso, por empréstimo de modelos advindos de outras ciências. Sob o nome de homem, foi constituído algo que deve ser domínio do saber e não objeto de ciência. (Foucault, 1992, pp. 383-384).

            Ele entende ainda, por exemplo, a Economia não ser uma ciência humana. Esta aufere as suas leis a partir dos mecanismos da produção e mesmo quando recorre aos comportamentos humanos (originados pelo interesse), ele utiliza as representações como requisito de uma atividade humana (Foucault, 1992, pp. 369-370).

 

·      Conclusão parcial para o Trabalho

 

            Se há algo que marca o conteúdo de um discurso científico é a disposição para indicar cenários precisos tendo em vistas as leis encontradas nos diferentes ramos do saber.

            Se podemos passar por uma ponte, ou viver num prédio, ou ainda dirigir um carro sem que sejamos surpresos com o livre arbítrio destes conjuntos materiais, é porque as suas construções estão coadunadas a uma lógica de comportamento regular no tempo e no espaço. A apreensão desta lógica de comportamento, mesmo sendo precária, às vezes, é trazida pelo conhecimento científico dos componentes materiais destas construções.

            Ao contrário da Física, por exemplo, quando as leis do movimento de Isaac Newton do século XVII têm utilidade até hoje, podemos indicar que a falta de prognoses seguras no âmbito da ciência humana é algo que a compromete para qualificá-la enquanto ciência no estrito sentido do termo.

            Não há ciência humana, embora instintivamente há uma reação à esta afirmação, pois vivemos numa sociedade tecnologizada na qual o grande parâmetro da veracidade está calcado na ciência. Só que esta ciência nos moldes cartesianos, que de fato inaugura a ciência moderna, passa por uma fortíssima crise de tal forma que oferece novas formas de legitimar o saber.

            A sociedade contém uma normatividade, mas por que a mesma não é repetida indefinidamente ? Consideremos dois motivos.

            Primeiro, ao contrário de outros seres ou coisas existentes, o ser humano passa a sê-lo através de um aprendizado, ele aprende os costumes, valores, condutas que vai passar a ter. Logo, o regrar-se não é fundamentado num código genético mas sim por um processo social relativamente lento, que demora anos, e que a rigor o acompanha até a morte. Neste longo aprendizado, que é a ciência do viver, há várias oportunidades para ter comportamentos, iniciativas totalmente distintas de seus antepassados. Repare que o processo de aprendizado da pessoa humana é distinto dos demais seres vivos, pois ela adquire, inala as influências externas mediadas por um processo auto conscientizador, ou seja, o processo de aprendizagem não é homogêneo, é peculiar, heterogêneo, de acordo com as capacidades, interesses e as próprias circunstâncias que cercam o indivíduo.

            Outro aspecto diz respeito a finitude da vida, Tal aspecto marcante e dramático desta aventura na Terra encerra chances contínuas de mudanças. Pois aquele que nasce não deverá ter as mesmas responsabilidades daquele que está partindo.

 

 

 

3) Geografia

 

            Se não vislumbramos uma cientificidade para as ciências humanas, que vêm permeada por poderosas contribuições como as de Max Weber, Karl Marx, Émile Durkheim, etc.. o que dizer da Geografia? Um campo de estudo que tem deficiências notórias no campo da epistemologia como apontava, entre outros, Yves Lacoste em Geografia - Isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra .

            Para discutirmos sobre a cientificidade da Geografia iremos destacar a contribuição de dois geógrafos brasileiros, a saber: Antonio Carlos Robert de Moraes e Wanderley Messias da Costa.

            A escolha destes dois nomes decorre por dois motivos, o primeiro está no papel de destaque que tiveram na concepção da Geografia Crítica no Brasil, os seus diferentes trabalhos sobre teoria do conhecimento relacionada à Geografia serviram para enraizar esta corrente de pensamento na produção do conhecimento geográfico no Brasil; o segundo motivo foi dado pela oportunidade proporcionada pelo “Seminário de Geografia Humana” de ter cursos com estes dois professores. Embora não tenha sido objetivo precípuo dos professores em abordar questões epistemológicas da Geografia, as discussões dentro e fora de sala de aula ajudaram a madurecer algumas das observações aqui apresentadas.

            Dos diferentes trabalhos que eles redigiram juntos ou separados, aquele que sintentiza a grande contribuição dos dois para a Geografia Crítica combinada a uma positiva divulgação editorial vem a ser o trabalho A Geografia Crítica - A Valorização do Espaço. Embora, em sala de aula, o Profº Antônio Carlos Robert de Moraes tenha destacado da necessidade de rever a obra, podemos aqui observar, sem receio de cometer um grave equívoco, que esta obra foi decisiva no avanço da Geografia Crítica Brasileira, como o foram Por Uma Geografia Nova de Milton Santos e O Que é Geografia de Rui Moreira.

            Os autores entendem que o conhecimento científico é um produto histórico, que para discuti-lo há de discutir o contexto em que ele foi engendrado. Eles entendem que as determinações sociais são fundamentais na compreensão da ciência, mesmo naqueles aspectos que dizem respeito às condições endógenas do progresso científico, pois estas condições são de qualquer forma mediadas pelo contexto social. (p.15)

            A posição social dos cientistas trás uma relação com a produção da ciência, e esta relação fica mais nítida quando a área de domínio é o das ciências sociais, onde o distanciamento entre o observador e o objeto de análise é menor tendo em vista as características ideológicas e políticas que o estudo pode vir a tomar. (p.16)

            A cada fase histórica há novas concepções de ciência. A obra de Ptolomeu Síntese Geográfica , por exemplo, numa análise contemporânea poderia ser considerada pouco “geográfica”, e, conforme os autores, por ela a Geografia estaria para ter uma nova concepção de seu objeto. (p.17)

            Verifica-se atualmente uma ruptura com os padrões de cientificidade na Geografia dada a crise da influência positivista que embora tenha definido para a Geografia um temário comum, isto não indica que tenha delineado o objeto da Geografia. A configuração de um objeto passa por uma dilapidação teórica de tal temário.(p.24)

            É necessário para o delineamento do objeto da Geografia uma opção metodológica, pois esta é que fornecerá uma série de balizamentos para a pesquisa. Estes balizamentos orientam uma revisão crítica do que já foi acumulado, reformula ou resgata questões encontradas, equaciona problemas do próprio temário adotado e delineia o caráter do conhecimento a ser criado.(p. 26)

            O método apresenta uma diferença interna entre o de ser de interpretação e o de ser de pesquisa, o primeiro caracteriza-se por uma determinação concepção de mundo do pesquisador; já o segundo é sobre o conjunto de técnicas utilizadas na pesquisa. (p. 27)

            A adoção de uma linha metodológica não implica em entendê-la como já definida, acabada, ela deve ser continuamente objeto de modificações, de aprimoramento...“O compromisso do cientista só pode ser com o real. Quando a realidade observada não encontra correspondência nos pressupostos metodológicos, são esses que devem ser revistos ” (p. 30)

            No momento que é vinculado a construção do objeto da Geografia ao método, não é mais possível chegar-se a uma definição consensual do mesmo, pois ele será de acordo com o método adotado. No entanto, a adoção do método não termina a tarefa de um geógrafo, apenas a inicia. (p. 33)

            Os autores têm como opção metodológica trabalhar o temário geográfico à luz do materialismo histórico e dialético, tendo como campo de abrangência as ciências humanas. (p.35)

            O marxismo tem como pedra angular a relação entre teoria e prática... “Para o marxismo, só a perspectiva de transformar o mundo fornece a possibilidade de compreendê-lo, só a visão crítica permite apreender a essência dos processos sociais, só a inserção no movimento propicia seu entendimento” (p. 35).

            Embora não utilizada pela Geografia Tradicional, a contribuição de Karl Marx para a Geografia foi iniciada na década de cinqüenta do presente século, concomitante à crise da Geografia Tradicional. A progressão desta nova concepção de Geografia, a Geografia Crítica, teve a partir de um grupo de geógrafos ( Dresch, Pierre George, B. Kayser, R. Guglielmo, A. Prenat, Tricard, entre outros ) os primeiros ensaios de uma aplicação do marxismo na disciplina geográfica. (p.40)

            Pelo método adotado, há sucessivos e interpenetrantes procedimentos de abstração e concreção. Este processo cognitivo visa elaborar um conjunto de mediações explicativas do problema tratado. A explicação dos fenômenos não decorre da exaustão da análise e sim pela qualidade em fazer compreender o movimento, a dinâmica dos fatos. (p.47-8) “O marxismo trabalha com a lógica dialética, a qual concebe a realidade enquanto movimento e a contradição como a forma de ser dos fenômenos”.  (p. 49)

            Deste modo, não é possível compartimentar rigidamente o objeto de estudo da Geografia, o pesquisador identifica no estudo o que lhe é exterior, decifrando-o. Há uma postura materialista segundo a qual a existência antecede a consciência, o objeto de estudo é exterior ao pesquisador, o que significa que o pensamento deve estar consoante à observação dos episódios da realidade. (p. 50) Sendo assim, não é possível traçar um objeto ideal , impondo um corte ao real...“O objeto não pode ser um construto mental, uma pura ilação do sujeito. Ao contrário, ele deve ser uma existência concreta, uma identidade no real” (p. 51). [3]

            Esta postura materialista, consoante a uma utilização da lógica dialética, vem acompanhada por uma preocupação com a gênese e desenvolvimento dos fenômenos pesquisados. Os fatos não são coisas, é necessário privilegiar o respectivo processo de formação.(p. 52)

            A partir destes princípios de método temos que o objeto da Geografia deverá ser um processo que possua uma identidade específica como parte de uma totalidade, deste modo fica claro a incompatibilidade de se adotar a tese de unidade do objeto geográfico pela qual a Geografia seria uma ciência de síntese que trabalharia com fatores naturais e sociais.(p. 53)

            Há uma clara diferença entre ciências naturais e sociais, enquanto na primeira há distância entre o pesquisador e seu objeto de estudo, na segunda o cientista aparece como parte do objeto porque as suas convicções não deixam de influir na análise da sociedade. (p.54)

            Outro aspecto diz respeito às diferenças manifestas quando há uma comparação entre fenômenos sociais e naturais, estes, por exemplo, tenderiam a apresentar uma certa estabilidade de manifestação, facilitando a criação de leis, enquanto os primeiros há uma maior dificuldade de se produzir leis que venham a compreender exatamente a lógica do comportamento humano. (p. 55-6)

            Há, portanto, uma impossibilidade do geógrafo marxista em manter a tese da Geografia de ser uma ciência de interface entre dois grandes campos de saber: o físico e humano...“Assumir uma orientação marxista implica ter de escolher o domínio no qual desenvolverá suas investigações: o dos fenômenos naturais ou o dos sociais”. (p. 57).

            A partir do exposto os autores visualizam dois caminhos para a Geografia, ela enquanto ciência da sociedade, ou como ciência natural. O marxismo está melhor instrumentalizado para desenvolver a primeira alternativa, e é esta que os autores adotam. (p.59)

            Tendo a Geografia como ciência da sociedade, o objeto será o processo social referido ao espaço terrestre. A adoção da categoria modo de produção, que concebe relações sociais de produção, forças produtivas, reprodução ampliada, passa a ser um poderoso referencial na análise da sociedade. (p. 60-5)

            A dinâmica dos modos de produção ocorre pautado em processos contraditórios originados pelos conflitos entre classes sociais, dado o caráter social da produção e o caráter privado de sua apropriação, há ainda  o desenvolvimento das forças produtivas em choque com as relações de produção. (p. 69)

            A partir destas formulações da teoria marxista, os autores iniciam a delimitação do objeto da Geografia. Inicialmente eles entendem que há de haver uma descoisificação do objeto, ou seja, o objeto assim o é não porque corresponda a uma determinada definição, mas ele torna-se objeto por ser processo social, pleno de contradições, segmento de um dado modo de produção. (p. 70-2)

            Pelo marxismo, não há como relacionar diretamente a concepção de processo com a de espaço, de tal modo que teríamos diferentes processos espaciais. O espaço não expressa uma realidade em movimento, ele é uma qualidade (p. ex: dimensão ), é uma categoria da intuição e não do pensamento...“Nesse sentido, resta o espaço como categoria social real, o espaço-resultado, construído e em construção, o espaço real como demarcação de práticas sociais precisas, uma realidade que não prescinde, em hipótese alguma, da vitalidade histórica que lhe é impressa por uma sociedade concreta . Não há, então, espaço sem sociedade, nesta concepção; ou melhor, não pode haver espaço, nem como dimensão física isolada e arbitrariamente pré-delimitada. O que há é a possibilidade de se trabalhar uma relação sociedade-espaço, relação que é social exclusivamente, e que historicamente se expressa em processos reais os mais complexos, cuja compreensão deve ser a tarefa de uma teoria marxista da Geografia .”(p. 72-3)

            A relação sociedade-espaço está na base desta teoria, sendo que o trabalho humano é a categoria central . (p. 74 ) As transformações históricas que ocorrem no campo do trabalho humano suscitam novas formas de relação sociedade-espaço. (p. 74-89 ) Tais transformações culminam na construção de uma segunda natureza, uma natureza humanizada, pela qual o homem perderia a estreita relação com a lógica dos fenômenos naturais, estando afeito à dinâmica de crescimento ou crise de sua sociedade; além disso, a própria natureza passaria a ser alterada pelo avassalador processo de apropriação e explotação dos recursos capitaneado pelo capitalismo ( p. 89)

            Na intenção de avançar numa concepção marxista do objeto da Geografia, os autores passam a tratar de um tópico central no pensamento marxista que é a teoria do valor.(p. 93)

            Nas páginas seguintes do livro (92-121), os autores resgatam a formação da teoria do valor realizada por Karl Marx, destacam os diferentes autores que a influenciaram, as circunstâncias históricas, e a diferença da visão de Marx para os seus predecessores.

            A aplicação da teoria do valor na constituição do objeto da Geografia passa pela percepção da valorização do espaço. Esta valorização, por sua vez, deve destacar uma diferença interna, entre valor do espaço e valor no espaço. (p. 123)

            O valor do espaço vem a ser um valor contido pelos recursos naturais e aqueles construídos pela sociedade. ..“A Terra é, aqui, uma realidade natural e material que se define como receptáculo do trabalho humano historicamente acumulado” (p. 127).

            O valor no espaço decorre do mesmo ser objeto de troca o que vem a frisar a esfera da circulação . Pelo valor no espaço não está em questão a singularidade do espaço, se é plano, montanhoso, etc.., o que vai distinguir o valor no espaço é o modo como ocorre a sua inserção na circulação da riqueza. Através de um exemplo, não dos autores do livro, procuremos assim esclarecer a diferença entre os dois tipos de valores: dois terrenos de 1000 m2 com as mesmas características físicas e sem contar com qualquer tipo de infra-estrutura ( vias de acesso, rede de água, etc..), sendo um localizado no bairro nobre do Recreio dos Bandeirantes do Rio de Janeiro e outro em Campo de Santo Bento no município de Duque de Caxias, ora o primeiro tem melhores condições de satisfazer uma demanda capitalista do que o segundo, e tal particularidade não decorre das singularidades do terreno mas de uma determinada inserção da estrutura urbana que faculta uma melhor viabilização de acúmulo de riqueza.

            Cabe ressaltar que estas duas dimensões de valor em relação ao espaço ocorrem paralelamente a avaliação de um terreno, por exemplo, não é realizada apenas pelo que tem por características naturais ou construídas, o seu valor é ainda calculado pelo modo como o mesmo pode vir a potencializar as atividades pelo fato de ter uma determinada inserção no movimento de reprodução da sociedade e que por isso passa a ser muito valorizado.

            Mas como entra o espaço no movimento circular da criação dos valores ? (p. 134)

            O espaço participa da formação do valor enquanto condição, sendo percebido na formação do custo geral da produção quando, por exemplo, uma empresa se vê prejudicada pela péssima localização.(p. 135) Enquanto condição verifica-se a unidade contraditória do processo de valorização do espaço ao ser realizado mutuamente o valor do espaço e valor no espaço.

            Neste processo de valorização do espaço temos dois aspectos deste movimento, a saber: a perenização e a transitoriedade do valor (p. 142) . Pela perenização teríamos uma atividade que extrapolaria os objetivos iniciais de uma dada exploração no espaço de tal forma a constituir novas justificativas para se manter a produção num determinado local (por exemplo, que não foi utilizado pelos autores, a cidade de Ouro Preto, formada para gerenciar a produção de metais, passou a ter novas funções que a levam a existir ainda hoje), no caso da transitoriedade uma ocupação não deita raízes no local (como exemplo temos a Serra Pelada no Pará que de uma época que já teve milhares de pessoas atrás de ouro, hoje está muito pouco ocupada).

            Há assim uma relação entre valor extraído e valor criado, enquanto a ...“perenização refere-se a uma produção em escala ampliada do valor do espaço. A transitoriedade, por seu lado, refere-se ao consumo destrutivo desse mesmo valor. O fundamento da perenização está na intensificação da criação de valor no espaço. A transitoriedade, subvertendo a correspondência entre as duas formas de valor, mantém os processos de valorização no espaço em que ocorre, sob patamares baixos de reprodução” (p. 144). Com o desenho da dialética entre perenização-transitoriedade, os autores finalizam a forma de analisar o processo de valorização do espaço.

            Em termos gerais, o enfoque sobre a valorização do espaço seria o meio para delimitar o objeto da Geografia, estando constituído uma proposta a ser adotada pela Geografia Crítica.  No último capítulo do trabalho, eles adotam este enfoque no estudo da sociedade capitalista, no entanto, na intenção de reservar mais tempo para as outras partes do trabalho, nos restringiremos a destacar ao modo como eles delinearam o objetivo da Geografia sem entrar nos seus desdobramentos para a compreensão de uma sociedade capitalista.

 

·      Conclusão parcial para o trabalho

 

            Pelo exposto, o objeto da Geografia seria a análise do processo de valorização do Espaço. Sendo analisado este processo como fruto de uma longa maturação histórica, pela qual sai daquela relação mais imediata com a superfície terrestre, o da luta pela sobrevivência, para marcar nesta mesma superfície um caráter teleológico aberto com o trabalho. No fundo o processo de valorização de valorização não se resume a uma concepção econômica de valorização monetária de uma parcela da face da Terra, é mais do que isso, é sim uma dinâmica calcada e forjada pelas forças materiais emuladas pela capacidade de trabalho da sociedade humana. Neste sentido o espaço natural é visto basicamente à luz da apropriação. O espaço natural é tipo “um provedor de recursos”.

            A concepção investe de forma poderosa na compreensão econômica/política/social na relação entre sociedade e a superfície da terra, mas relega um papel pequeno para a pertinência da natureza na compreensão dos fenômenos sociais. Na percepção marxista a natureza está no homem representada, está no homem subsumida, por esta forma de pensar, não haveria, dada a dinâmica do processo produtivo diferença entre o natural e o social, este último, o fator dominante e determinante na compreensão do espaço, trás em seus produtos, seus artefatos, suas construções, a natureza trabalhada, a natureza negada no seu estágio primitivo mas confirmada na sua forma útil à sociedade.

            É uma forma de pensar que pressupõe um fluir da exploração dos recursos naturais. É compreensível para a época de Marx a não consideração das questões ambientais, a sua época é marcada pela questão social. A nossa época, além da questão social, adquire relevo a questão ambiental, e esta passa a ter uma valorização que não diz respeito a uma valorização dada pelo trabalho, mas sim pelo trabalho que a destrói.

 

            Pela concepção adotada, a Geografia seria uma ciência porque tanto o método de interpretação quanto o de investigação são tidos como científicos. Numa perspectiva marxista, o critério de cientificidade é adquirido, fundamentalmente, a partir de uma praxis . O engajamento numa luta pela transformação do mundo suscita uma compreensão dos processos sociais. Sendo adotado o marxismo a Geografia seria uma ciência humana de modo que a discussão sobre a cientificidade da Geografia Humana, por exemplo, seria desnecessária pois a Geografia Humana nada mais seria que um rótulo, de herança positivista, que não se coadunaria com esta visão .

            Há, obviamente, uma flagrante diferença entre Michel Foucault e Karl Marx no que tange à teoria do conhecimento. Michel Foucault tem por referência, na asserção sobre a ciência humana, um amplo estudo pelo qual esta é situada em relação aos demais campos do conhecimento; Karl Marx, por sua vez, constitui uma teoria do conhecimento, embora não a trate em trabalho específico e sistemático (como constatado por  Georg Lukács (1981)); a partir de uma percepção materialista a realidade social, a totalidade do ser social, é o verdadeiro metro do significado do conhecimento elaborado. Marx constitui uma nova forma de cientificidade, ela a constitui a partir de sua relevância na transformação da sociedade.

            A princípio, salvo ignorância de minha parte, fica difícil uma comparação entre os dois autores pois os pontos de contatos não foram vislumbrados. A consideração, no entanto, da contribuição de Karl Marx na forma como o mesmo concebe o ato de conhecer é um aspecto que deva ser mais bem analisado.

            Por exemplo, há um enunciado básico de sua concepção de ser (a sua ontologia) que é a existência anteceder a consciência. Ora, a anterioridade da existência indica que a consciência foi forjada materialmente, foi marcada pelas condições de produção e reprodução da vida, isto indica que a consciência tem limite de tamanho da matéria. Se não houvesse a raça humana, seria mais fácil compreendermos a pertinência deste enunciado, pois, a princípio, as espécies viventes teriam decorrido de processos naturais, complexos, após uma lenta evolução. No entanto, entendermos certas particularidades humanas a partir de um processo natural parece que diminui o significado misterioso de nossa existência. Refiro-me misterioso, não porque não tenha uma razão, mas sim porque esta razão ainda não apreendemos ainda. Por que existe a vida? De onde ela partiu? Como foi possível à pessoa humana ter consciência de si, saber julgar, poder optar, escolher? Como é possível ao homem amar, ter amor aos filhos, à companheira, etc..? Por que a morte nos desperta tanto medo, por que não é vista como algo próprio de nosso viver, como o comer, dormir etc..?

            Enfim, a anterioridade da existência pressupõe que este indagar o mundo proveio de situações únicas de uma evolução natural que deram oportunidade à raça humana em se destacar das demais espécies. No entanto, parece-me que algo não combina, ou seja, a limitude própria da matéria com a capacidade de abstração da pessoa humana. Obviamente que este tipo de argumento nos leva a determinados temas desagradáveis como é a hipótese de existir Deus. Não parece-me que seja tarefa da ciência em negá-lo ou comprová-lo, mas o que chama atenção é a crença que a racionalidade ou até a materialidade nos deva levar a um ateísmo ou, no mínimo, ao agnosticismo.

            Bom, ultimamente, principalmente a partir da consciência ecológica, como aponta Nancy Mangabeira Unger (1991), o item da espiritualidade passa a ser um tópico marcante na construção de um novo olhar sobre a natureza. Parece-me, portanto, que o avanço da ciência passa por uma não aversão ao imaterial, ou seja, cabe uma atitude na ciência em que a existência de um Ser não signifique o término da ciência. Não entendo que esta abertura para Deus signifique um avanço em si à ciência, mas, fundamentalmente, arranca esta aversão, quase que instintiva da ciência do mundo ocidental de negar qualquer possibilidade de sua existência; e ainda, confere à ciência a possibilidade da abertura de uma visão sobre o nosso universo pela qual o mistério do existir passa a ser fundada por outras formas de conhecer que não só pela razão. O físico Fritjoff Kapra em O Tao da Física opera um interessante paralelismo entre a física moderna e as correntes espirituais do Oriente, é como se o ato de conhecer fosse elaborado por um processo intuitivo no qual o raciocínio atua como suporte mas não como piloto.

 

4 ) Geografia Humana

 

            Não é nossa intenção, nesta parte do trabalho, elaborarmos uma análise que verse sobre a cientificidade da Geografia Humana à luz da concepção da Geografia Crítica, pois a divisão entre Geografia Física e Humana é tida como uma herança de fundo positivista que não se coaduna à visão da Geografia ser uma ciência humana, para a Geografia Crítica.

            A discussão que nos propomos é tratar da Geografia Humana destacando a contribuição de Richard Hartshorne em sua obra Propósitos e Natureza da Geografia . O resgate de tal contribuição visa contribuir na nossa proposta de uma concepção da Geografia que valorize a relação sociedade e natureza. Embora o livro do Hartshorne não se resuma a discutir esta relação, dele exploraremos o modo como o mesmo trata desta questão.

            A opção por esta questão decorre da ciência hoje passar por um processo de fortes transformações , nas quais um tema candente no nosso tempo é a questão ambiental. Em nome desta questão vem sendo elaborada uma literatura que afeta a economia, a sociologia, a antropologia pois destes campos de conhecimento são solicitados a respectiva interface com o meio ambiente.

            A valorização da variável ambiental no quadro das preocupações dos cientistas proporciona, já no campo da Geografia, um resgate desta antiga discussão Geografia Física x Geografia Humana. O retomar a obra de Richard Hartshorne significa neste contexto um meio para avançar no tratamento do tema visando uma contribuição de uma proposta de Geografia que destaque a relação sociedade-natureza .

 

·      A concepção de Geografia de Richard Hartshorne

 

            Ele entende que a determinação da natureza, do âmbito e dos propósitos da Geografia constitui principalmente um problema de caráter empírico. (p. 8)

            A limitação do campo da Geografia à crosta externa do planeta é de origem relativamente recente, vigorando até o século XVIII a concepção de que o objeto da Geografia era a de ser uma verdadeira cosmografia abrangendo o estudo da Terra e das estrelas ( p. 23 ) Porém, no advento da ciência moderna passou a ser promovido uma sistematização do conhecimento ensejando uma série de especializações que viriam a afetar o caráter da Geografia. (p. 28) A relação da Geografia com estes setores do conhecimento sistematizados é permeada por conflitos, embora ocorram vínculos. (p. 29)

 

            Há uma diferença entre uma ciência que analisa uma categoria particular de fenômenos e a Geografia que visa analisar as diferenças dos lugares, naturalmente pode surgir uma combinação entre estes dois enfoques ( p. 21 ) Pelo estudo sistemático, o estudo começa pela seleção de uma modalidade particular de objetos, que são mentalmente abstraídas do complexo de fenômenos que as rodeiam, há em seguida uma análise dos fenômenos e síntese sobre os fatores. Na Geografia, há uma análise dos diversos fenômenos que determinam o caráter variável das áreas estando, estes fenômenos, dispostos e inter-relacionados na realidade ...” conforme até mesmo um leigo possa observá-las...” (p. 34)

            O exercício de uma ciência sistemática tem a vantagem de poder concentrar a mente em um dos processos inorgânicos, ou orgânicos ou culturais; ficando o grau de heterogeneidade mais limitado, e o grau de integração apenas parcial.  (p. 37)

            Enquanto para a Geografia a análise de relações intercausais é mais difícil pois pode ter variações segundo processos inorgânicos e culturais, ou, orgânicos e inorgânicos, ou, orgânicos e culturais, ou, ainda, os três simultaneamente, o que torna a tarefa da Geografia mais difícil, (p. 35). Levando em conta que a Geografia não é definida em termos de modalidades de fenômenos, mas em termos de seções do espaço, as integrações que têm de ser analisada são complexas, e a heterogeneidade dos fenômenos a serem estudados só é limitada pelos fenômenos existentes e variáveis dentro de determinadas seções do espaço (p. 37)

            Mas a “...realidade total aí está para ser estudada, e Geografia é o nome desse setor dos conhecimentos empíricos que sempre foi convocado para estudar essa realidade ..”  (p. 35)...”  é fundamental para a verdadeira finalidade da Geografia, como o estudo da realidade da superfície da terra, sendo esta composta de todas as modalidades de elementos, em todos os tipos de combinações. Os estudos de categorias individuais de fenômenos são devidamente atribuídos às várias ciências sistemáticas. O propósito específico da Geografia é estudar as variações, na face da terra, de fenômenos que existem em inter-relação, independentemente da classificação dos fenômenos segundo suas espécies. “ (p. 36 )

            No entanto, esta definição da Geografia não exime o geógrafo de enfrentar a seguinte questão: qual o critério a ser adotado para nortear a análise complexa de fenômenos heterogêneos? (p. 39) Na prática, o estudo é iniciado a partir de um aspecto ou tópico pelo qual vai sendo realçado as inter-relações e interconexões com outros fenômenos até chegar a uma compreensão da área em estudo (p. 42), o início do estudo, por sua vez, deve estar apoiado na significância do aspecto escolhido para o homem (p. 49) ...“Qualquer fenômeno, quer da natureza, quer do homem, é significante em Geografia na extensão e no grau em que suas inter-relações com outros fenômenos do mesmo lugar, ou suas interconexões com fenômenos de outros lugares, determine as variações espaciais daqueles fenômenos, e portanto a totalidade de variação da área, medida em referência à sua significância para o homem”. (p. 50).

 

 

·      Geografia Física e Geografia Humana

 

       A distinção entre fenômenos naturais e sociais ocasiona várias dificuldades para a Geografia, a saber:

       a ) o geógrafo deverá ter critérios para discernir entre o que vem a ser natural daquele que é social. Esta é uma tarefa difícil pois a associação dos fatores não é exclusivamente humana ou natural. (p. 54)

       b ) quando há a preocupação em dividir o campo do estudo entre físico e humano, o pesquisador não raro passo “por cima” de aspectos que não os escolhidos ( por serem físicos, ou humanos ) mas significativos para compreender o que vem estudando (p. 55)

       c ) a análise científica, em geral,  já demanda a descrição do modo como o fenômeno escolhido se inter-relaciona com outros fenômenos, se além deste aspecto há a solicitação de se separar entre físico e humano, o analista passa a considerar que há entre as partes uma correspondência, é como se os “dois lados pesassem da mesma forma para favorecer a compreensão da área “ (haspas nossa) (p. 55 ).

       d ) na divisão entre as partes ( física e humana ) há uma tendência de uma ser compreendida pela outra; na época de Hartshorne, o aspecto natural era considerado como causa, enquanto o social como efeito de modo a minorar as relações ocasionadas por aspectos humanos que atuam como fatores causais (p. 56)[4]

       e ) a operação de dividir entre aspectos humanos e físicos implica num processo de resgate histórico que explicite a partir de que ponto um ou outro aparece, ficava difícil indicar que o aspecto natural explicaria aquela área se este mesmo aspecto só podem ser compreendido com o apoio da compreensão dos fenômenos sociais, deste modo, para evitar confusão procurava-se operar uma distinção entre os aspectos a partir de uma análise histórica. (p. 57-58)

       Richard Hartshorne após numerar estas dificuldades e fazer compreender que esta divisão entre Geografia Física e Geografia Humana está articulada à corrente de pensamento do determinismo, que propugna a compreensão da área a partir do modo como o meio natural atua sobre a sociedade, defende que a crosta da terra, que constitui o objeto de estudo da Geografia, é um complexo de várias integrações com uma larga multiplicidade de fenômenos, inter-relacionados segundo uma grande diversidade de maneiras, de modo que não cabe à Geografia distinguir dentre os fatores inter-relacionados nos fenômenos que estuda, quais os de origem humana e quais os de origem natural.

       Hartshorne considera ser equivocada a divisão entre Geografia Física e Geografia Humana, ele chega no capítulo VI destacar a origem deste dualismo, mas o interpreta como um obstáculo para o crescimento da Geografia e conclui ...”Ao estudar as relações que existem entre os aspectos da terra, a Geografia analisa esses aspectos na medida em que isso for necessário para explicar as suas inter-relações, sem levar em conta o fato de tais inter-relações poderem ou não ser descritas em termos de “leis naturais” ou de “leis sociais”.(p. 85-6)

       E é a partir de uma fase dos estudos que compreende a especialização por tópicos, como em qualquer outra ciência, estando esta especialização voltada para os fenômenos associados, embora heterogêneos, que cada setor da Geografia poderá contribuir para a compreensão da diversidade da face da terra. Assim, as diferentes abordagens da Geografia, orientadas para o estudo particular de integrações parciais corroborariam, a partir de sucessivas combinações entre os resultados encontrados por estes enfoques, na compreensão aproximadamente completa das variações da superfície terrestre . (p. 86)

 

·      Objeção ao pensamento de Hartshorne

 

            Pelo exposto sobressai uma poderosa contribuição deste autor ao enfatizar a noção de complexidade nos estudos da Geografia a partir de uma “não discriminação” na consideração entre aspectos inorgânicos, orgânicos ou humanos.

            Porém, há um aspecto que fragiliza a proposta de Hartshorne, a saber: a noção de área como seção da esfera terrestre não dá devida segurança ao pesquisador sobre o que de fato deve-se considerar como área, quais são os parâmetros para considerar a área estudada, quais os seus limites ? Por exemplo, quando resolvo estudar o Estado de São Paulo, proponho-me a analisar uma área que trás subjacente um qualitativo, qual seja, uma área circunscrita, definida por uma terminologia da estrutura de poder do sistema federativo de um país; ou ainda, quando estudo a Mata Atlântica, a área a ser considerada, que abrange parte do Estado de São Paulo, terá dimensão e proporções em função de um tema = a mata.

            Em resumo, não há uma área pura, as designações utilizados por um geógrafo ao referir-se de sua área de estudo, ( p. exemplo a mata, a cidade, o Estado, o bairro, etc.), designam, sub-repticiamente, uma determinada ótica de análise da área. A saída deste caráter “sistemático”, a partir da busca de sucessivas inter-relações com outras várias, está calcada por um critério frágil, pois, em última análise, o que dita a busca das integrações dos fenômenos ? Como indica Hartshorne é a significância deste estudo para o homem, ora que homem ? O favelado, os ricos, ? Nesta designação Homem está o pressuposto a noção de uma sociedade harmônica, que embora possa ter conflitos, chega a ultimar um objetivo comum.

            Um segundo aspecto diz respeito à concepção de ciência calcada na neutralidade do próprio pesquisador, não ficando claro o engajamento político, a sua formação ideológica, etc.. o raciocínio de Hartshorne indica ser possível uma operação intelectiva ao estudar uma área passível de ser comungada por outros geógrafos.

            Um outro aspecto a assinalar encontra-se na contribuição das “diferentes geografias”, tópicas, voltadas para determinadas parcelas do complexo mundo inter-relacionado da face da Terra, que em determinado momento contribuem na compreensão global da área. Ora, a depender do fenômeno analisado, mesmo havendo uma preocupação com um caráter integrador, buscando relações com outros fenômenos, as dimensões de tempo e de espaço são distintas. Por exemplo, se um estudo é sobre cidade, e outro é sobre redes de transporte, a lógica a ser extraída para a compreensão de ambos os fenômenos encerra peculiaridades que dificultam uma imediata integração numa fase posterior do estudo.

            No entanto, o principal ponto a ser observado sobre este sentido colaboracionista dos diferentes setores da Geografia é a premissa de que todos falam a mesma linguagem, guardam conceitos semelhantes, enfim têm uma comunicação fácil. Está implícito, às vezes ele o coloca explicitamente,[5]  que a própria realidade propicia esta nitidez. É como se houvesse o império da realidade diante da qual o geógrafo amealharia informações, relações, para chegar ao intento tão buscado que é o patamar da compreensão global das diversidades da superfície terrestre.

            Logo há um ponto fraco na principal argumentação do autor para definir o caráter da Geografia que talvez explique a sua relativa pequena repercussão diante do crescimento da Geografia Crítica. No entanto, a lembrança de Hartshorne decorre de sua ênfase em destacar: a)  o caráter complexo da Geografia, b ) a ênfase em não “discriminar” aspectos físicos ou sociais, c ) e ainda destacar o foco dos estudos não em fenômenos, como é próprio das ciências sistemáticas, mas nas áreas, nos espaços.

            Deste modo, a partir do “exemplo” de Hartshorne, inicio uma proposta de concepção de Geografia tendo como material de apoio e referência o estudo de Edgar Morin publicado na obra O Método , este sociólogo francês vem se destacando no contexto das discussões sobre os paradigmas da ciência a partir de sua tentativa de integrar aspectos físicos e humanos .

            A apresentação do pensamento do sociólogo francês representa um verdadeiro desafio, não só pela magnitude da obra O Método , mais de mil páginas, mas também pela forma como pensa, um pensar globalizante propondo a constituir um novo paradigma para a ciência de nossos dias; não deixa de ser um projeto ambicioso, mais consoante às necessidades de nosso tempo. Deste modo, apenas realçamos algumas noções do raciocínio que são muito caras ao sociólogo, mas que aqui são introduzidas para realçar aspectos da nossa forma de perceber a questão da cientificidade da Geografia.

 

·      O pensamento de Edgar Morin

 

            Morin reconhece uma séria crise da ciência, não sendo mais possível desconhecer a particularidade de nossa época cujos problemas atingem a tal magnitude de interações e aspectos que não são mais passíveis de serem compreendidos como até então foi produzida a ciência. Esta, a partir de sucessivos cortes de seu objeto do conhecimento proporcionou um fantástico processo de manipulação da natureza e das próprias informações produzidas, mas nega o caráter integrador dos fenômenos que deve ter a ciência.

            Deste modo, ele propugna pelo paradigma da complexidade, que viria em contraposição ao paradigma da simplicidade até então adotado pela ciência moderna. A complexidade não se situa apenas ao nível da observação e construção das teorias, mas ao nível do processo de orientação da construção do pensamento (p. 348 tomo 1). Pela complexidade é factível a impossibilidade de negar a existência das incertezas (p. 348, tomo 1) Falta agora transformar a descoberta da complexidade em método. (p. 351, tomo 1).

            Ele reconhece na Ecologia um campo do conhecimento que vêm fugindo desta forma sescionista  de produzir a ciência visando a manipulação. Pela primeira vez na história ocidental, uma lógica científica, a ecológica, está subordinada à proteção da vida e a qualidade de vida. (capítulo VI, tomo 2 )

            O raciocínio de Morin segue uma ordem anelar, elabora raciocínios como que composto por anéis interligados mas que seguem uma ordem acumulativa, ou seja, não se trata de um círculo vicioso, mas sim de anéis que vão se sobrepondo, interligando-se, assim por diante. Ele traça, por exemplo, uma relação anelar entre physis e antropos, ou objeto e sujeito, ou ordem e desordem, etc.. Estes anéis são formas do autor em traçar um encadeamento que chegue a construir o seu método. Ele adota um raciocínio circular pautado em relações contraditórias, avulsas, mas que chegam a uma ordem e posterior desordem, construção e ruptura. Ele visa constituir um novo princípio de organização do saber.

            Ele entende que há uma organização na realidade, mas que não decorre de um processo pré-concebido, mas sim , do conflito de variáveis que a partir de diversos “desencontros” passam a apresentar uma determinada regularidade, porém, esta ordem adquirida ao acaso não é contínua, ela pode vir a sofrer inflexões de modo a gerar novos conflitos e assim proporcionar novas combinações .

            A organização é que informa o sistema. Para Morin a concepção de sistema segue uma leitura distinta da realizada a partir da década de 50 com a elaboração da chamada Teoria Geral do Sistema; que  ao ser adotada pela Geografia desembocou num incremento da quantificação dos métodos utilizados na pesquisa.

            Morin diferencia a sua acepção de sistema da visão tradicional do sistema enquanto fluxos, relativamente harmônicos. Ele entende que o sistema apresenta-se como uma unidade, uma unidade complexa, elaborada por êmulos diversificados que embora chegue a uma certa “situação de equilíbrio”, esta situação enseja novos enquadramentos de forma a suscitar reações, movimentos, rupturas e desestabilização. Sendo assim, o sistema existe enquanto uma emergência, como se fosse um grande fluir de uma dinâmica, coesa internamente, mas circunscrita a mudanças diversificadas  (capítulo 2 da primeira parte do tomo I).

            Correlata as noções de organização e sistema, devemos realçar a de máquina. Ele entende, por exemplo, que o ecossistema é mais do que um sistema e sim uma máquina . (tomo 2, p. 86)

            O ser-máquina está relacionado à determinada produção; se as interações, reações, transações e retroações marcam a organização, todo este processo chega a algo, produz algo, por exemplo ...” a produção de átomos de carbono no seio duma estrela efetua-se de modo extremamente improvável e poderíamos considerá-la unicamente como o fruto de encontros ao acaso, se não existisse a organização das estrela que provoca incessantemente colisões entre núcleos de hélio...”(nota 1, tomo 1, p. 151 ). A produção pode vir tanto pela soma, adição, como pela desagregação ou esmagamento, assim,  pela concepção de Morin o ser-máquina não vem a ser aquela marcada por uma perspectiva cartesiana, uma máquina ordenada, uma máquina feito relógio, ela é práxis. Pelo ser-máquina ser há uma organização ativa que ela não se limita ao ambiente biológico, inorgânico ou social. A percepção de ser-máquina diz respeito ao como Morin vê o mundo. O mundo, o universo, é um ato em ação, em retroação, enfim em movimento. (Vide capítulo 1 segunda parte, tomo 1).

            Morin verifica, no entanto, a inviabilidade de ser constituído um paradigma da complexidade sem a correlata transformação do mundo das idéias. Ele aponta no tomo 3 de sua obra a distância entre o pensamento e a linguagem. Embora uma reflexão tenha por expressão uma forma de comunicação, dada pela linguagem, não é possível entender como sendo a mesma coisa, o pensamento e meio de comunicação. Entre o pensamento e a sua comunicação há um sem número de mediações que chegam a comprometer a própria capacidade de cognocibilidade . (Tomo 3, pp. 209-211 )

            Morin no tomo 4 entende que estamos, a partir de um levantamento das mediações do ato de conceber as idéias e um histórico da evolução do ato de pensar humano, numa época de barbárie. Nosso universo mental ainda é perpassado por circunstâncias, crenças, atitudes que obstaculizam o avanço de um paradigma da complexidade. Por isso, ele chega a indicar três grandes carências no campo da teoria científica, a saber: a) falta de uma atitude reflexiva, de elucidação epistemológica sobre os seus fundamentos; b) há uma distância entre o ato de conhecer e o ato ético de julgar, a ciência se posiciona como a-ética, o que cria sérios problemas; c ) evita os problemas fundamentais da filosofia ( tais como por que a existência da vida? qual o sentido da vida? ). (p. 247)

            Não é nossa intenção retratar os principais aspectos do pensamento, pois seria uma tarefa assaz complexa , mas, a partir do que já foi exposto, passaremos em seguida a analisar a forma como Edgar Morin pensa a relação sociedade-natureza.

            Obviamente que este tema é encontrado na obra  O Método mas inserido na construção de um verdadeiro paradigma pela qual procura-se trazer uma alternativa ao da ciência ocidental pautada por uma orientação cartesiana, o que exigiria um verdadeiro trabalho de garimpagem.

            Deste modo recorremos a uma outra obra de Morin que trata mais especificamente deste tema, a saber: Sociologia.

            Morin destaca que o estudo da sociedade deve ter uma idéia de unidade global, permeada de conflito e de complementaridade. (p. 66) No entanto, as teorias sociológicas não incluem a infra-estrutura biofísica na abordagem sobre a sociedade (p. 79).

            Ele percebe a sociedade enquanto sistema, sendo aplicada a idéia de sistema a objetos fenomenais, mas que não chegam a se identificar com eles. Há diferentes sistemas, de diferentes ordens, o corpo humano, por exemplo, também é um sistema, então a sociedade é visto como um conjunto contraditório, intricado, relacionada, coeso, e em degradação de sistemas. Logo, a percepção de sistema segue a intenção do autor em constituir um patamar paradigmático pelo qual possa analisar a sociedade. Não se trata de apontar as bases da sociologia, mas sim a de destacar uma perspectiva sistêmica muito útil para compreender a sociedade. (p. 61)

            Ele entende que deva ter uma concepção mais ampla de ecossistema, ele o entende como ...“a ciência das interações entre elementos (sistemas) de natureza diferente ( geológicos, climáticos, vegetais, animais, humanos, sociais, econômicos, tecnológicos, mitológicos, etc.. ) no seio de um “nicho” natural ou de uma aglomeração social. Ora, estas interações têm um caráter sistêmico, quer dizer, sofrem ou estabelecem coações, regularidades, ciclos, complementaridades, antagonismos, etc.., cujo conjunto constitui um ecossistema para todos os sistemas nele estão imersos”. (p. 103).

            Para que haja sistema é necessária a manutenção das diferenças, ou seja, o jogo das inter-relações entre elementos é perpassado por combinações e conflitos, mas o sistema só é percebido enquanto tal quando estas combinações e conflitos convivem e subsistem de modo a fundar um aspecto organizacional. (p. 62-3)  Mas o sistema não é eterno, ele cedo ou tarde desagrega, de modo que correlato ao modo organizacional do sistema há o seu antiorganizacional (p. 64).

            Há uma espécie de processo circular pelo qual os sistemas mantêm-se por combinações e contradições internas que são mantidas por um certo tempo, porém há a morte, a desagregação (entropia) , só que o fim de um sistema significa a regeneração de outros sistemas, é como se fosse condição do processo da vida. A auto-regeneração configura a perpetuação da dinâmica de um fluir, de um emergir, enfim, de uma emergência.

            Ele propõe, uma noção paradigmática na análise da sociedade ao destacar a noção de auto-eco-reorganização pela qual é possível destacar a capacidade auto-organizadora da sociedade, a relação com o ambiente (relação ecológica), a permanente desorganização interna (entropia), e a reorganização interna ( auto-regeneração ). (p. 69)

            Morin entende, assim, que a teoria sociológica deve ser uma teoria do auto-eco-reorganização... “Essa teoria permite conceber a sociedade não só na sua realidade biofísica mas também na sua complexidade organizacional. Desde a partida “natural”, a nossa teoria põe no centro o indivíduo...Desde a partida, a nossa teoria concebe a organização social como fenômenos neurocerebral, ao passo que as teorias sociológicas apenas concebem forças mecânicas, gastos energéticos pré-termodinâmicos, equilíbrios de sistemas fechados...Desde a partida, pudemos conceber ao mesmo tempo a invariância e a possibilidade evolutiva, ao passo que as teorias se dividem entre um imobilismo estrutural e um dinamismo sem estrutura.”(p. 96).

 

            Uma poderosa contribuição de Edgar Morin à nossa proposta diz respeito à forma como ele trabalha a noção de meio ambiente na obra Sociologia. Segundo ele o meio tem uma origem geográfica que não se coaduna com uma percepção da complexidade, pois remete para as características físicas que determinam ou condicionam os seres vivos e sociedade. (p. 97)

            Cabe não ignorar dois aspectos a trabalhar com a noção de meio, a saber: a) “Que o conjunto dos fenômenos num dado nicho ecológico constitui, pelas suas interações, um sistema de tipo original: o ecossistema”, b) “Que todo o organismo (sistema aberto) está intimamente ligado ao ecossistema numa relação fundamental de dependência/independência em que a independência aumenta ao mesmo tempo que a dependência.” (p. 97).

            A superação destes obstáculos significa, sobre o primeiro aspecto, adotar uma perspectiva sistêmica, tal como ele a concebe; onde a hierarquização, regulação, regularidade, coação, complementaridade e antagonismos perfazem os traços de um ponto de vista sistêmico. Mas é um quadro relacional sistêmico precário, frágil, passível de degradação, e ainda, o seu processo organizacional não decorre de um eixo, de um aspecto determinante, mas de interações às miríades . A Terra passa a ser vista assim como um ecossistema global resultante da integração de ecossistemas e ecossistemas, que pela abrangência de cada um, pode vir a ser, enquanto ecossistema, apenas um elemento de um ecossistema maior, e assim sucessivamente. Assim “o termo ecossistema, e também o termo sistema, é integrável numa sistemologia geral e ao mesmo tempo definível segunda a escala ou o nível de observação e de estudo”. (p. 98 ).

            Sobre o segundo aspecto, cabe adotar uma noção de dialética sistêmica pela qual a dependência articula-se, alimenta-se da independência. A liberdade humana, a autonomia não é vista como emancipação das condições dadas pelo meio social, mas sim próprio de um exercício, de um processo onde esta existência é um processo interativo e contraditório com a dependência. (p. 97).

            Porém, quanto maior o desenvolvimento da sociedade, maior é o caráter “técnico” desta sociedade, ou seja, maior são as redes de controle, julgamento, punição, além disto, maior é o número dos lugares, os objetos produzidos pela e para a produção. Neste sentido, para esta sociedade modernizada, avançada, ele propõe o termo ecossistema sociourbano, pois é pela cidade que a sociedade se interage com o ecossistema . Enfim este “...ecossistema sociourbano não é senão a sociedade moderna considerada do ponto de vista ecológico, ou seja, do ponto de vista dos indivíduos, grupos, instituições, etc.., que estão, no interior, em relação de sistema aberto ao ecossistema” . (p. 98).

            Tratamos o meio urbano como sistema pois vem a ser uma totalidade de relações na qual interferem as organizações e as instituições, os grupos sociais e os indivíduos, o que configura uma multiplicidade de sistemas relacionados uns com os outros. Mas o ecossistema sociourbano compreende também elementos do meio natural (clima, subsolo, atmosfera, microorganismos, etc..) o que confirma o seu caráter ecológico. (p. 98-9 )... “Assim, o ecossistema sociourbano é um conjunto de conjuntos constituído não só pelo conjunto dos fenômenos especificamente urbanos, mas também pelo conjunto dos fenômenos sociais e pelo conjunto dos fenômenos biogeoclimáticos que estão localizados nele”. (p. 99)

 

·      Proposta

 

            A proposta a ser apresentada tem os seguintes aspectos que seguem abaixo.

1.         O principal deles vem a ser o não considerar a Geografia como ciência, mas como saber.

            A principal diferença entre ciência e saber é de que a primeira, ao contrário da segunda, por tratar de aspectos regulares passíveis de detectar normas (e partir delas leis) pode realizar prognósticos relativamente seguros, já o saber, no entanto, está calcado no que passou sem muita chance de prever com certeza; ele tem, obviamente, a capacidade de trazer algumas observações para o futuro que podem ocorrer ou não.

            No caso específico da Geografia, há dois fortes obstáculos que dificultam a realização do projeto de vir a ser ciência.

            O primeiro decorre de ser uma disciplina que analisa a sociedade, ou seja um objeto cuja normatividade, regularidade verificada não faculta a formação de leis que possam dar um prognóstico de seu comportamento para o futuro.

            O segundo decorre da interface que a Geografia apresenta com o mundo natural. Estes dois campos (= natural e o social), embora venham a ser a grande marca da Geografia, obstaculiza ainda mais a realização de um projeto que relacione Geografia e ciência pois cada um deles têm lógicas próprias de organização de modo que o estudo de sua relação visando a busca de leis não parece ser factível  a ponto de traçar prognósticos seguros.

            A postura aqui assumida fica mais fácil numa época onde há enorme processo de revisão dos fundamentos da ciência moderna de base cartesiana em função de novas perspectivas. Até pouco tempo atrás seria inconcebível esta posição pois o ato de reconhecer-se como não ciência era o atestado de um conhecimento inútil, de inexato, não passível de crédito.

            Porém, a crise que  permeia o campo científico faculta novas formas de abordagem que proporciona o posicionamento acima.

            A se assumir um campo do conhecimento não científico faculta à Geografia largar o enorme de peso de se obrigar a ter que elaborar leis, teorias, o que de certa forma vem aumentando a diluição de seu caráter tendo em vista que os trabalhos passam a ser uma Economia, ou Sociologia, ou ainda Antropologia, etc.. espacializadas. Mesmo na Geografia Crítica a Geografia não saiu de sua posição de depositária de outros saberes.

            Cabe frisar, no entanto, que a proposição da Geografia não ser uma ciência e sim um saber, isto não significa que esta vem a ser arte.

            A diferença entre saber e arte é que para ambas o peso do raciocínio tem sentidos diferentes. Na arte, o raciocínio está consoante à sensibilidade do artista, à sua subjetividade, visando comunicar uma mensagem pessoal, portanto particular ; para o saber, o raciocínio busca argumentos lógicos, comprováveis que sedimente a sua forma.

2.         Outro pressuposto é o de adotar uma nova forma de abordar a causalidade. Importante abandonarmos a idéia de qual a causalidade tenha uma rigidez pela qual é construída uma relação imediata entre causa efeito. A adoção da causalidade circular implica na percepção de que há uma contínua transformação dos fenômenos em estudo, e estes por interações múltiplas decorrem de causas e concorrem como efeitos afetar nas próprias causas. (p. 238-239, tomo 1)

            Tal procedimento interrompe com a postura de entender os fenômenos determinados por algumas variáveis principais, a transformação dos fenômenos e sua compreensão passam por ascese em não “discriminar” perspectivas que tentem compreender o objeto em estudo. Esta ascese implica não só numa abertura às observações realizadas sobre a realidade, mas sobre a própria forma como é formada a nossa mentalidade.

3.         Outro pressuposto indica que não é possível um consenso sobre o objeto da Geografia a partir de uma definição empírica do mesmo, como se existisse na realidade esperando ser descoberto. ...”Ora, o observador que observa, o espírito que pensa e concebe, são indissociáveis duma cultura, e portanto de uma sociedade Hic et nunc. Todo o conhecimento, mesmo o mais físico, sofre uma determinação sociológica” (Morin, 1º vol. p. 15 ).

            Se um geógrafo tem por área de concentração a botânica e outro o urbanismo e resolvam realizar um trabalho em separado sobre a mesma área, mesmo que haja um esforço em apreender sucessivas inter-relações dificilmente chegarão a um resultado comum pois o objeto de estudo é objetivado pelo sujeito do mesmo, ou seja, o seu olhar, a sua cultura acumulada, os hábitos de pesquisa estarão norteando o trabalho e delimitando a própria competência de abordar bem um determinado campo de interações e outro não.

4.         Outro pressuposto é de virmos a trabalhar o objeto da Geografia sem operar distinções entre o campo físico e humano, sem cair na armadilha de querer definir a Geografia como um saber físico ou humano, novamente nos reportando à Morin .( tomo 1. p. 15 ). ..” O grande corte entre as ciências da natureza e as ciências do homem oculta, simultaneamente, a realidade física das segundas e a realidade social das primeiras “

            O resgate do projeto unitário da Geografia encerra a compreensão do princípio que nos obriga a isolar e a separar para conhecer; assim como um outro princípio capaz de ligar novamente o isolado e o separado.[6] Uma percepção da complexidade dos fenômenos implica a idéia de que não há algo completamente físico, ou completamente social; é necessário superar a visão que o objeto físico não tem alguma relação com um aspecto social; romper com a noção de que ele é a própria revelação de si, como, , se ele não fosse previamente condicionado por uma percepção forjada pela cultura, contexto social do pesquisador, etc..

            Havemos de romper com os dois pontos de vistas, um fisicomórfico, e outro antropossociomórfico, pelos quais temos o paradigma da simplicidade. Estas duas entradas se contrapõem na constituição de uma compreensão articulada entre elas, Morin propugna por uma concepção pelo qual a realidade vista como sistema que se alimenta de movimentos contrários das duas formas de percepção. (tomo 1, p. 254)

            No livro de Hartshorne há uma análise sobre a razão da divisão entre Geografia Humana e Geografia Física, logo não passa a ser nossa preocupação a compreensão do princípio que separa, mas cabe ver o princípio que “reorganize o nosso sistema mental para reaprender a aprender “ ( p. 25 )

            Enfim, ao ser valorizado o paradigma da complexidade não está incluso a desvalorização dos estudos temáticos, mas sim a desvalorização dos estudos temáticos serem entendidos como estudos da totalidade.

            Não está em questão na proposição aqui elaborada desmerecer a produção da Geografia Crítica ou da Geografia Tradicional, de cunho positivista, mas valorizá-las como formas, caminhos, tendências circunscritas à história, ao meio social, enfim a uma época. Pela proposição aqui expressa está indicado que há uma nova época sendo desenhada a partir de marcantes e velozes mudanças desde o cenário político internacional até o cenário do cotidiano a partir de novos costumes e valores, e sobretudo mudanças que ocorrem no mundo tecnológico que embora alcance tanta efetividade em adentrar nas relações sociais, nos laboratórios de pesquisa, etc.. vêm ruindo as velhas concepções de conhecer.

            É a época da crise, de uma crise que diz respeito ao fundamento da civilização. Qual o projeto que orienta a humanidade nesta virada de século e milênio? Há buscas cada vez mais frenéticas, pois os impasses as impelem, a perspectiva de uma guerra total, de um empobrecimento acelerado, do aparecimento de doenças que eram até então desconhecidas pois o ecossistema do planeta encontra-se em sucessivos momentos de rupturas de seu equilíbrio, tudo isto enfim impele a busca por novos parâmetros de conhecimento.

            Pelo paradigma da complexidade é considerado não só os campos distantes, mas também os que se opõem...“A complexidade corresponde, neste sentido, à irrupção dos paradoxos ou contradições no centro da teoria.” (p. 345) Por este enfoque o esforço não é o de reduzir, delimitar, mas sim de o de recorrer, retroagir, o de perceber que as variáveis consideradas são mais do aparentam ser, ou ainda, podem oferecer mais informações que podem ser obtidas através de um processo seccionador da realidade.

            A Geografia não se assentaria numa base, num objeto, ela participaria de um jogo circular, de um debulhar do conhecimento a partir da concepção que esta mesma realidade tem a emergência e a regressão, o avanço e recuo. Não se trata mais de reificar a divisão da Geografia em Geografia Econômica, Humana, etc.. ou ainda abrir um fosso entre Físico e Humano, indicando a impossibilidade de ser mantido o projeto unitário da Geografia.

 

Conclusão

 

            Fica possível resgatar o projeto de unidade da Geografia, que visa abordar os aspectos físicos e humanos, sem o receio de não encontrar regras absolutas ( como chegou a tentar o determinismo para validar a Geografia no campo da ciência ) desde que os geógrafos percam de vista a intenção de ter a Geografia como ciência.

            O que se propugna é a Geografia da Tentativa, de uma Geografia apta e atenta às transformações da ciência pois nos encontramos na curva da história, o atravessá-la reserva-nos surpresas que podem coincidir numa derrocada ou renovação da Geografia. Já nos foi acometida uma curva depois da qual a Geografia  não se saiu tão bem como as outras ciências sociais como a Antropologia, Sociologia, Economia, ou até mesmo a História, refiro-me à época da busca da cientificidade , período no qual a principal “contribuição foi a noção do determinismo”

            Acredito que o termo Geografia da Tentativa não venha a ser muito “simpático” pois declara implicitamente uma possibilidade de insucesso, mas de fato pode vir a ocorrer.

            Pois, não é certo a adoção do paradigma da complexidade pela Geografia. Na verdade, há um campo que concorre com ela que vem a ser a ecologia. Nos últimos anos a ecologia saiu claramente de sua percepção calcada na regulação das relações entre seres vivos para entrar no âmbito da economia, no modelo de desenvolvimento, na política, até atingir o campo da filosofia.

            Nesta virada da história há uma competição entre ciências, a ênfase pela interdisciplinaridade e transdisciplinaridade decorre da ruptura de parâmetros solidamente fundados no século passado e no entanto, a Geografia é convocada, como qualquer forma de saber, a rever a sua produção, os seus critérios, etc..

            Cabe, no entanto, registrar que este paradigma da complexidade está numa situação semelhante ao da Geografia Crítica ou seja, não vai ter grande avanço se não ocorrer mudanças institucionais e sociais que afetem a própria forma de ensino da Geografia. A vigorar esta forma secionada de se ensinar a Geografia no Brasil, pautada em lista de disciplinas, sem ser criado um espaço que propicie o exercício da análise pelo paradigma da complexidade, estamos fadados a ter um fracasso .

 

 

 

 

Bibliografia:

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[1] O presente texto foi registrado na Biblioteca Nacional no volume conhecido por Cadernos de Doutorado no ano de 1996.

[2] Prof. Dr. do Departamento de Geografia (UFF) – helio@vm.uff.br

[3]  Pela percepção marxista o conhecimento decorre de uma apreensão cognitiva de algo situado na realidade, a revisão e superação do conhecimento decorrem de novos confrontos com a realidade. O objeto do conhecimento é a realidade objetiva que o cientista verifica, experimenta, interroga e tira suas conclusões. O conhecimento é dado pela experiência empírica, pela observação e experimentação.

                A existência antecede a consciência, havendo uma prioridade e exterioridade do real frente ao conhecimento ...”Assim, as coisas tem uma existência anterior e exterior às representações que os homens delas fazem...O pensamento é uma apropriação humana do real...” . Sendo a realidade movimento, o conhecimento também assim se torna, sendo relativo, pois visa acompanhar um fluir. (nota p. 35 Upege)

                O espaço era uma realidade anterior ao homem, manifestação de formas de materialidade inorgânica e orgânica. O homem transforma o mundo externo teleológicamente pelo trabalho, apropria e transforma o espaço natural. Tal transformação é permeada por um conhecer o espaço, porém o sucessivo desenvolvimento dos meios de produção vão proporcionando novas formas de mediação entre o homem e o seu meio. Não bastam as noções de localização das meios de sobrevivência, há de ter novas formas de decodificação na compreensão do espaço, pois nelas passam a ser registrados formas múltiplas de apropriação do espaço ...”O ser já não é uma “natureza em si” mas uma “natureza para o homem” e cada vez mais um trabalho do homem. De tal modo imbuído do movimento e da dinâmica própria da materialidade social “(p. 35-36, Território Livre nº 1 )

 

[4] Assim, por haver divisão e ocorrer um esforço para demonstrar a cientificidade da Geografia, a área tem uma compreensão a partir de seu quadro natural que atua “em oposição ao quadro social”.

[5] Na Geografia, em contraste com diversos fenômenos, as quais, em virtude de sus existência, determinam o caráter variável das áreas ...Ela começa, portanto, com as coisas tais como estão efetivamente dispostas e inter-relacionadas na realidade, conforme até mesmo um leigo possa observá-las..(1978, p. 34) (sublinhado nosso ).

 

[6]  Morin indica que além desta dificuldade epistemológica há a dificuldade enciclopédica e outra lógica para superar esta divisão entre o campo físico e humano (1º tomo, 1987,  p. 15-16 ).