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Ano 7, nº 13, 2008 Janeiro/Junho de 2008 ISSN Nº 1677-650 X Revista indexada ao Latindex Revista classificada pelo Dursi Revista classificada pela CAPES |
Discutindo cientificidade: o caso da geografia
Geografia, uma ciência ? [1]
Helio de Araujo Evangelista [2]
Resumo
O texto aborda a cientificidade da geografia. Há
diferentes enfoques e finaliza com uma proposta.
Palavras-chaves: Geografia , ciência, proposta
Abstract
The
author examines the geography as a science. There is different ways to develop
the question and give your own opinion about at the end of the text.
Key-words:
Geography, science, proposal
Apresentação
Ao contrário da época da Guerra Fria, quando os campos em
conflito estavam desenhados, onde até mesmo a perspectiva de guerra nuclear
estava na ordem do dia, hoje, a impressão que temos é de vivermos numa curva
da história, não sendo possível assim vislumbrar o que encontraremos nos
próximos anos.
A formação dos blocos geo-econômicos configura novas
formas de intercâmbio que subtraem da esfera do Estado Nacional o locus
privilegiado na negociação dos investimentos, formas de apoios financeiros a
empreendimentos, etc.. A formatação em escala planetária dos assim chamados
tecno-polos realça a dimensão de que as relações de mercado estão engendradas
por agentes que não trazem mais a identificação advinda do Estado
Neste contexto o Brasil passa por enormes desafios que
colocam em xeque a própria matriz urbano-industrial constituída,
principalmente, neste século. A forma de adaptação à esta nova situação
corrobora num verdadeiro desafio político, ( Becker, 1993 ) que é o de adequar
um projeto que possibilite uma inserção do Brasil na economia internacional sem
levar às perdas verificadas no México e Argentina.
No campo da ciência há também um forte processo de mudança,
de tal modo que não há um paradigma, ou corrente de pensamento dominante; há
sim uma frenética busca por modelos, teorias que possam dar conta dos processos
novos que vem surgindo das mais diferentes espécies . Há um acelerar da
história, atualmente o que ocorre em um ano passa a ser mais decisivo do que
ocorria no mesmo período na década de setenta, por exemplo.
A ciência do mundo ocidental forjada no paradigma
racionalista cartesiano, pelo qual o seccionamento, a subdivisão do campo do
conhecimento por temas eram procedimentos que emulavam a produção do saber
sofre nos dias atuais uma profunda revisão.
A teoria do caos, o paradigma da complexidade, a defesa
de uma visão holística no reconhecimento do mundo que nos cerca são sintomas
que expressam, especificamente no campo da ciência, uma nova onda de inovações
e novas formas de interações que não estamos totalmente cientes.
Deste modo, este
estudo sobre a cientificidade da Geografia deve estar inserido num momento
quando novas propostas estão sendo colocadas para a ciência como um todo.
Embora tenha sido elaborado um levantamento
bibliográfico, foi necessária uma seleção dos autores durante a fase da
elaboração do presente texto, esta seleção, por sua vez, teve como referência
os autores citados durante a realização do Seminário de Geografia Humana,
coordenado pela professora Bertha Koiffman Becker, e promovido pelo Curso de
Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro no
primeiro semestre de 1995.
Este Seminário ofereceu à turma um vasto temário sobre a
Geografia Humana, indo desde o aspecto epistemológico até as discussões mais
contemporâneas sobre a globalização da economia e a questão ambiental. Sendo assim,
o presente trabalho procura expressar o significado do curso para nós a partir
de uma discussão sobre a cientificidade da Geografia Humana.
1 ) Ciência
A discussão sobre a ciência não raro é confundida com a
discussão sobre a verdade, o cientista é tido como aquele que procura a
verdade, seja pelo experimento, pela leitura, pela aquisição de um aprendizado,
mas o seu norte é dar a conhecer algo que venha a ser aceito, acatado e que
oriente a produção de novos conhecimentos, saberes, etc..
A discussão sobre a verdade é antiga como a própria
sociedade humana que visa melhor conhecer o mundo para nele continuar
existindo. A rigor, o que é a verdade? O termo verdade já acusa a possibilidade
de chegarmos à noção de existência efetiva de uma dada informação. Parece-me
que a nossa existência acusa a existência da verdade; não parece ser possível
constituirmos a vida a partir da negação da verdade.
O que é ciência? A prática humana em favor da busca desta
verdade ?
Quando acompanhamos a história das invenções humanas, o
avanço da ciência em termos gerais, notamos a sua constante finitude, os seus
enunciados são superados por novas
asserções, que por sua vez chegam a novas, e assim por diante.
Esta busca pela verdade não deixa de ser forjada por um
processo histórico, ou seja, o modo como se procura alcançá-la são
circunscritas às condições históricas que moldam as concepções dominantes
quanto a forma adotada.
Mas, a rigor, o que caracteriza um discurso como sendo
científico? O que dá cientificidade a um enunciado?
Como recurso para trabalharmos estas indagações,
recorreremos à contribuição de Thomas Khun em A Estrutura das Revoluções
Científicas, através dele não intentamos traçar um fichário sobre o seu
pensamento, mas sim a partir de suas observações construir um cenário de como a
ciência é conceituada como tal.
O trabalho de Thomas Khun está centralizado em alguns
ramos da ciência como o da astronomia, (comparando geocentrismo e
heliocentrismo), química (ao tratar da concepção do flogisto e a descoberta do
oxigênio ), física ( a composição da luz, a teoria eletromagnética, a teoria
mecânica, a teoria da relatividade e a teoria atômica) e sobre alguns
cientistas (Ptolomeu, Copérnico, Lavoisier, Dalton, Maxwell, Isaac Newton e
Albert Einstein, entre outros) para pensar a constituição e mudanças de
paradigmas na ciência, no entanto, ele não chega a ter nas Ciências Humanas
material de apoio para pensar as revoluções científicas.
Sobre as ciências humanas ele detecta uma séria
dificuldade para se achar um consenso quanto aos paradigmas que orientem os
trabalhos, ele, na verdade, não afirma ser possível encontrar nestas ciências
paradigma, ele deixa a questão em aberto (p. 13, 35 ).
Além deste aspecto, embora considere relevante o papel do
avanço tecnológico e das condições sócio-econômicas como emulo da ciência, como
fatores externo, ele dá pequena importância aos mesmos na justificativa de que
...“o papel desempenhado pelos fatores externos e de menor importância apenas
em relação aos problemas discutidos neste ensaio “ (p. 15 e vide nota 4 na mesma pág.).
Thomas Khun procura compreender as rupturas que ocorrem
nas ciências, não correspondendo a visão usual de que o conhecimento tem um
caráter cumulativo, ele percebe que as transformações no campo científico
ocorrem através de rupturas que trazem mudanças radicais nos paradigmas então
adotados.
O caráter cumulativo do conhecimento ocorre no curso normal das investigações onde há
uma hegemonia de um paradigma, é a ciência
normal - uma atividade que consiste em ... “em solucionar quebra-cabeças, é
um empreendimento altamente cumulativo extremamente bem sucedido no que toca ao
seu objetivo, a ampliação contínua do alcance e da precisão do conhecimento
científico” (p. 77) , porém quando
ocorre um acúmulo de dívidas e fatos novos que o mesmo não explica, surge
concepções rivais propondo-se a responder as novas dúvidas.
A ciência é vista como um campo onde seu desenvolvimento
tem nos estágios preliminares o conflito entre diferentes concepções de
natureza. A resolução destes conflitos não ocorre exclusivamente devido à
competência intrínseca dos argumentos apresentados, há outros aspectos que se
destacam, ele chama atenção , neste sentido, para o papel da equipe, da coesão
dos cientistas, da sua capacidade em articular-se e persuadir os demais de que
a sua concepção é a mais eficiente (p. 128).
As revoluções científicas surgem como episódio de
desenvolvimento, cumulativo, nos quais um paradigma mais antigo é total ou
parcialmente substituído por um novo, incompatível com o anterior (p. 125)
O paradigma informa ao cientista que aspectos da natureza
a considerar, assim como a maneira como estes se comportam. É como se fosse um
mapa de pesquisa, sem o qual a observação estaria mergulhada num mundo complexo
e sem expectativa de vir a gerar um conhecimento passível de ser acumulado. O
paradigma compreende teoria, métodos e padrões científicos. Desse modo, quando
o paradigma é rompido, há uma mudança na legitimidade quanto aos problemas e as
soluções consideradas (143-144)
O paradigma não tem apenas função normativa, mas também
cognitiva e a mudança de paradigma significa a mudança de uma concepção de
mundo.
Em períodos de revolução científica, a percepção do
cientista sobre o seu objeto de estudo passa por uma reeducação, há uma
alteração da forma (Gestalt) de se perceber o objeto ...” embora o mundo não
mude com uma mudança de paradigma, depois dele o cientista trabalha em um mundo
diferente”. (p. 157).
É uma perspectiva epistemológica segundo a qual a ciência
não deixa de ser uma interpretação humana de determinados fatores...“A ciência
não se ocupa com toda as manifestações possíveis no laboratório. Ao invés
disso, seleciona aqueles que são relevantes para a justaposição de um paradigma
com a experiência imediata, a qual, por sua vez, foi parcialmente determinado
por esse mesmo paradigma” (p. 162)
O discurso científico prima por uma certa unidade pois o
seu enunciado está permeado por procedimento metodológico e teórico que orienta
a seleção avaliação e crítica das experiências realizadas. A ausência de
parâmetros necessariamente leva a uma série de divergência que pouco facultam a
compreensão mútua e o caráter cumulativo do conhecimento.
Mas, se o paradigma atua como o grande norte da pesquisa,
o que advém de seu uso é uma construção sobre o real factível de ser remodelado
por um novo paradigma. O que abre a indagação da ciência ser algo que chegue de
fato à verdade, será que as mudanças dos paradigmas significam uma tendência
evolutiva para a compreensão da realidade?
Ele percebe que as mudanças de paradigma não têm uma
aproximação acumulativa de chegar a verdade; ocorre sim na sucessão dos
diferentes paradigmas, de um determinado campo de análise, uma não sucessão
coerente de desenvolvimento, em termos de ajuste, entre a ontologia de uma
teoria e sua contrapartida “real” na natureza ; há sim, no processo de
evolução dos paradigmas, alguns aspectos da realidade destacados e outros que
perdem significado ( mas que podem vir a ser valorizado pelo paradigma seguinte,
como foi o exemplo da Teoria da Relatividade de Einstein estar mais próxima da
Teoria de Aristóteles ). (p. 213, 235).
· Conclusão parcial para o Trabalho
A ciência é permeada por um paradigma que a conduz,
indica os aspectos da natureza a considerar, assim como os mesmos se comportam.
O paradigma compreende teoria, métodos e padrões de procedimento na pesquisa.
Ele, enfim, dá legitimidade aos problemas e soluções encontradas durante os
trabalhos. Pelo paradigma há, portanto, uma determinada concepção de fazer
ciência.
Pelo paradigma há a formatação de uma certa coesão nos
discursos, achados e formas de comunicação das descobertas . No entanto, o
paradigma não pode ser confundido como sendo a própria realidade, ele é um
norte da pesquisa diante de sem número de fenômenos diante dos quais há de ter
uma seleção para construir o conhecimento humano.
2) Ciência Humana
A construção da ciência humana passa por um desafio a
partir do próprio objeto que a mesma procura tratar, o homem.
Ao contrário dos outros seres vivos ou coisas analisadas,
o homem norteia o seu comportamento e é regido não só em função de seu meio
ambiente, ou pelos seus instintos básicos de auto defesa e reprodução, ou ainda
pela sua herança genética que delineia o seu biotipo e contribui na
configuração do caráter e personalidade, mas, além de tudo isso, há também o
norteamento do comportamento humano pelo exercício da vontade, o ser
humano goza da particularidade de usufruir uma consciência que o capacita a
exercer diferentes opções. Ele é um ser teleológico buscando um sentido não
oferecido pelos instintos ou herança genética.
A particularidade de se ter consciência (consciência de
si, sabendo ter uma interpretação do que ocorre consigo, do que objetiva, e
como realizar o que intenta ) o leva a apresentar um comportamento que procura
não só satisfazer necessidades materiais mas tem encerrado em si uma indagação
quanto à razão de sua existência, a origem de sua vida. Embora haja
inteligência em animais, esta não é abstrata como a do homem que perscruta não
só formas de sobrevivência biológica, mas percebe a sua existência de uma forma
mais ampla, há uma busca de sentido para a vida.
Logo, o homem não trata de seu tempo de vida apenas
afeito à uma reprodução simples, do tipo comer, vestir, e morar. A cultura, por
exemplo, é neste sentido uma expressão de uma busca para melhor compreender o
mundo que o cerca, não basta o conhecimento advindo exclusivamente de seus
sentidos, ele procura acumular conhecimento para conhecer e dominar.
Em resumo, esta busca pela reprodução da vida no sentido
maior do termo, faculta uma certa precariedade na formulação de prognósticos em
relação ao que se pode esperar do futuro do mesmo.
Para avançar na análise do conteúdo da ciência humana
recorreremos ao pensamento do filósofo Michel Foucault exposto na obra As
palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. No entanto, a
sua leitura não é das mais fáceis, necessitei de um apoio que veio a ser
encontrado no livro Introdução ao Pensamento Epistemológico de Hilton
Japiassu que apresenta um capítulo sobre este pensador, destacando exatamente a
contribuição desta obra.
Dada a necessidade de tornar concisa a presente exposição
para deitarmos maior atenção na cientificidade da Geografia, objeto de nosso
trabalho, iremos a seguir destacar aspectos sobre a ciência humana explorando
com maior intensidade o último capítulo do livro de Michel Foucault.
· O Espaço Epistemológico das ciências humanas
As ciências humanas não tiveram como as demais ciências
uma herança advinda antes do século XIX, ela é muito recente. Não houve até
este século uma determinação de seu domínio. (Foucault, 1992, p. 361 )
O aparecimento desta ciência tem uma imediata correlação
com a época da Revolução Industrial. A emergência de se figurar uma nova forma
societária, com novo tipo de relações sociais, novas formas de vigilância, de
se comportar, etc.. infringiram na sociedade determinadas estruturas de poder
que passaram a ter melhor eficiência, caso esta mesma sociedade fosse mais bem
conhecida. (Foucault, 1992, p. 362 )
O debruçar sobre o homem pela primeira vez na história
humana forjou uma reordenação no campo da episteme
. O campo moderno da episteme já não
está mais atrelado a uma matematização perfeita ou de uma hierarquia formal
entre os diferentes saberes, ele vem a ser um espaço aberto segundo três
dimensões formando uma espécie de “triedro dos saberes” que definiria o espaço
epistemológico da constituição das ciências humanas.(Foucault, 1992, p. 364)
Este triedro, com suas dimensões, contam com três eixos,
a saber: A ) o eixo das Matemáticas e Psicomatemáticas, ciências exatas e
protótipos da cientificidade; B ) o eixo das Ciências da Vida, da Produção e da
Linguagem: Biologia, Economia e Ciências da Linguagem, C ) o eixo da Reflexão Filosófica
propriamente dita. (Japiassu, 1991, , p. 114)
Entre estes eixos há os seguintes planos: o das
Matemáticas Aplicadas entre os eixos A e B, o da Formalização do Pensamento
entre os eixos C e A, e o plano das Ontologias Regionais entre os eixos C e B .
Vide figura proposta por Hilton Japiassu (p. 114 ) retratando o sistema de
constituição das ciências humanas.
Por este modelo as Ciências Humanas não estão em nenhum
dos eixos ou dos planos. Elas estão no interstício do saber, participando de
modo diversificado das três dimensões do saber. Pela figura proposta, Hilton
Japiassu as representa como uma nuvem pairando sobre o triedro. Esta nuvem tem
três núcleos formados por características comuns e formas de organização ( 1- o
psicológico, 2- sociológico e 3-o lingüístico ).( Japiassu, 1991, p. 115 )
Estes núcleos são espécies de pólos de regiões da Ciência
Humana. A região das ciências psicológicas toma da Biologia empréstimo um modelo
pautado nos conceitos de “função” e de “norma”. A segunda região, a das
ciências sociológicas, toma da Economia Política um modelo que gira em torno
dos conceitos de “conflitos” e de “regras”. A terceira região é das ciências
Lingüísticas e Culturais que toma da ciência da linguagem um modelo apoiado nas
idéias de “sentido” e de “sistema”.( Japiassu, 1991 ., p. 116 )
No entanto, a configuração destas três regiões do espaço
epistemológico da ciência humana não está solidificada, pois estas regiões
estão inseridas na História e só compreendidas a partir de um conteúdo
histórico. Além disso, cada região vem habitada por práticas deletérias que
comprometem a sua configuração enquanto corpo científico, Tais práticas
decorrem de inquietações quanto ao volume já adquirido e partir disto há a
busca de novos encaminhamentos, como é o caso da Psicanálise em relação à
Psicologia, ou ainda a Etnologia em relação à Sociologia. (Japiassu, 1991 ,p.
116)
·
Objeto das ciências humanas
O homem para as ciências humanas não se define a partir
de uma busca de sua natureza, mas sim pelo que ele é em sua positividade (ser
que vive, trabalha, fala) e que o permite a conhecer o que vem a ser a vida. As
ciências humanas ocupam o espaço entre a biologia, a economia e a filologia, no
entanto, as ciências humanas não as absorvem . (Foucault, 1992, pp. 370-371). O
campo das ciências humanas, além do próprio objeto, viria a ser a representação (Foucault, 1992, p. 380).
Caberia neste momento novamente recorrermos ao trabalho
de Hilton Japiassu.
Foucault ao analisar a episteme ocidental vislumbra três grandes momentos “...a época da
Renascença (séc. XVI), a época clássica da ciência e das Luzes ( séculos XVII e
XVIII ); e o período que se inicia com o século XIX (1820) e que vem até nós”.
(Japiassu, 1991, p. 117-118)
Das três épocas, ele analisa, detalhadamente a segunda,
da qual as ciências humanas ainda não saíram e que é a seguir destacado.
A época clássica, por sua vez, é analisada por Foucault a
partir do termo representação .Esta além de signo é também um fato
mental, um registro epistemológico próprio constituído não só por uma percepção
clássica do termo, tal como concebido por Descartes, mas perceptível nas
formulações da matemática e da física do século XVII ( que vem inspirada por
uma mathesis universalis; é como se
houvesse a busca de uma grande lógica do universo ). (Japiassu, 1991, p. 119)
O signo é uma das principais diferenças entre o período
clássico e o anterior, o signo no período clássico não é algo que esconda alguma
mensagem eterna, pelo contrário, a sua lógica muda constantemente; a economia
dos signos é binária, representante-representado, este quadro imbrica numa
relação indissociável entre significante-significado, pelo qual a compreensão
de algo passa pela reflexão sobre os signos que o indicam; a ciências dos
signos atua como um discurso do significado do que se procura compreender
(Japiassu, 1991, pp. 119-120).
Mas, há um esforço de normatização no decorrer deste
período clássico que tem uma direta incidência no espaço das ciências humanas.
A ciência clássica (física e matemática) organiza-se como a própria mathesis, marcada pela ordem, que
vem a ser o princípio distintivo de toda a economia da representação, nela está
as conveniências das “naturezas simples”, da álgebra ou da análise matemática.
Porém, para além da ordem, surgirão dois novos segmentos de organização do
conhecimento: o primeiro, taxinomia, e o segundo o estudo da ordem das
produções e dos desenvolvimentos constitutivos no tempo (estudo das gêneses).
(Japiassu, 1991, p. 120-121).
Está assim configurado uma espécie de trinômio constituído pela mathesis, taxinomia e estudo das gêneses - entre a mathesis e a gênese estaria a região dos signos que atravessam o domínio da representação empírica mas não a supera . Nesta mediação entre o cálculo e a gênese é que aparecem “...os primeiros núcleos desse saber em referência aos quais começam a se constituir as ciências humanas” (Japiassu, 1991, p. 121).
· Ciência Humana, uma ciência?
Sendo a representação o próprio campo das ciências
humanas, há duas conseqüências, a saber: não houve nas ciências humanas, como
ocorreu nas ciências empíricas e no pensamento moderno, a superação do primado
da representação; a segunda é “...que as ciências humanas, ao tratarem do que é
representação ( sob uma forma consciente ou inconsciente ) estão tratando como
seu objeto o que é sua condição de possibilidade... Vão do que é dado à
representação ao que torna possível a representação, mas que é ainda uma
representação. De maneira que elas buscam menos, como as outras ciências,
generalizar-se ou precisar-se do que desmistificar-se sem cessar : passar de
uma evidência imediata e não-controlada a formas menos transparentes, porém
mais fundamentais “.(Foucault, 1992, p. 381).
Dado o exposto, Michel Foucault entende que não há
ciências humanas, que elas vêm a ser falsas ciências; e interpreta que o uso do
termo ciência para qualificar o seu discurso decorre do uso, por empréstimo de
modelos advindos de outras ciências. Sob o nome de homem, foi constituído algo
que deve ser domínio do saber e não objeto de ciência. (Foucault, 1992, pp.
383-384).
Ele entende ainda, por exemplo, a Economia não ser uma
ciência humana. Esta aufere as suas leis a partir dos mecanismos da produção e
mesmo quando recorre aos comportamentos humanos (originados pelo interesse),
ele utiliza as representações como requisito de uma atividade humana
(Foucault, 1992, pp. 369-370).
· Conclusão parcial para o Trabalho
Se há algo que marca o conteúdo de um discurso científico
é a disposição para indicar cenários precisos tendo em vistas as leis
encontradas nos diferentes ramos do saber.
Se podemos passar por uma ponte, ou viver num prédio, ou
ainda dirigir um carro sem que sejamos surpresos com o livre arbítrio destes
conjuntos materiais, é porque as suas construções estão coadunadas a uma lógica
de comportamento regular no tempo e no espaço. A apreensão desta lógica de
comportamento, mesmo sendo precária, às vezes, é trazida pelo conhecimento
científico dos componentes materiais destas construções.
Ao contrário da Física, por exemplo, quando as leis do
movimento de Isaac Newton do século XVII têm utilidade até hoje, podemos
indicar que a falta de prognoses seguras no âmbito da ciência humana é algo que
a compromete para qualificá-la enquanto ciência no estrito sentido do termo.
Não há ciência humana, embora instintivamente há uma
reação à esta afirmação, pois vivemos numa sociedade tecnologizada na qual o
grande parâmetro da veracidade está calcado na ciência. Só que esta ciência nos
moldes cartesianos, que de fato inaugura a ciência moderna, passa por uma
fortíssima crise de tal forma que oferece novas formas de legitimar o saber.
A sociedade contém uma normatividade, mas por que a mesma
não é repetida indefinidamente ? Consideremos dois motivos.
Primeiro, ao contrário de outros seres ou coisas
existentes, o ser humano passa a sê-lo através de um aprendizado, ele aprende
os costumes, valores, condutas que vai passar a ter. Logo, o regrar-se não é
fundamentado num código genético mas sim por um processo social relativamente
lento, que demora anos, e que a rigor o acompanha até a morte. Neste longo
aprendizado, que é a ciência do viver, há várias oportunidades para ter
comportamentos, iniciativas totalmente distintas de seus antepassados. Repare
que o processo de aprendizado da pessoa humana é distinto dos demais seres
vivos, pois ela adquire, inala as influências externas mediadas por um processo
auto conscientizador, ou seja, o processo de aprendizagem não é homogêneo, é peculiar,
heterogêneo, de acordo com as capacidades, interesses e as próprias
circunstâncias que cercam o indivíduo.
Outro aspecto diz respeito a finitude da vida, Tal
aspecto marcante e dramático desta aventura na Terra encerra chances contínuas
de mudanças. Pois aquele que nasce não deverá ter as mesmas responsabilidades
daquele que está partindo.
3) Geografia
Se não vislumbramos uma cientificidade para as ciências
humanas, que vêm permeada por poderosas contribuições como as de Max Weber, Karl
Marx, Émile Durkheim, etc.. o que dizer da Geografia? Um campo de estudo que
tem deficiências notórias no campo da epistemologia como apontava, entre
outros, Yves Lacoste em Geografia - Isso serve, em primeiro lugar, para
fazer a guerra .
Para discutirmos sobre a cientificidade da Geografia
iremos destacar a contribuição de dois geógrafos brasileiros, a saber: Antonio
Carlos Robert de Moraes e Wanderley Messias da Costa.
A escolha destes dois nomes decorre por dois motivos, o
primeiro está no papel de destaque que tiveram na concepção da Geografia
Crítica no Brasil, os seus diferentes trabalhos sobre teoria do conhecimento
relacionada à Geografia serviram para enraizar esta corrente de pensamento na
produção do conhecimento geográfico no Brasil; o segundo motivo foi dado pela
oportunidade proporcionada pelo “Seminário de Geografia Humana” de ter cursos
com estes dois professores. Embora não tenha sido objetivo precípuo dos
professores em abordar questões epistemológicas da Geografia, as discussões dentro
e fora de sala de aula ajudaram a madurecer algumas das observações aqui
apresentadas.
Dos diferentes trabalhos que eles redigiram juntos ou
separados, aquele que sintentiza a grande contribuição dos dois para a
Geografia Crítica combinada a uma positiva divulgação editorial vem a ser o
trabalho A Geografia Crítica - A Valorização do Espaço. Embora, em sala
de aula, o Profº Antônio Carlos Robert de Moraes tenha destacado da necessidade
de rever a obra, podemos aqui observar, sem receio de cometer um grave
equívoco, que esta obra foi decisiva no avanço da Geografia Crítica Brasileira,
como o foram Por Uma Geografia Nova de Milton Santos e O Que é
Geografia de Rui Moreira.
Os autores entendem que o conhecimento científico é um
produto histórico, que para discuti-lo há de discutir o contexto em que ele foi
engendrado. Eles entendem que as determinações sociais são fundamentais na
compreensão da ciência, mesmo naqueles aspectos que dizem respeito às condições
endógenas do progresso científico, pois estas condições são de qualquer forma
mediadas pelo contexto social. (p.15)
A posição social dos cientistas trás uma relação com a
produção da ciência, e esta relação fica mais nítida quando a área de domínio é
o das ciências sociais, onde o distanciamento entre o observador e o objeto de
análise é menor tendo em vista as características ideológicas e políticas que o
estudo pode vir a tomar. (p.16)
A cada fase histórica há novas concepções de ciência. A
obra de Ptolomeu Síntese Geográfica , por exemplo, numa análise
contemporânea poderia ser considerada pouco “geográfica”, e, conforme os
autores, por ela a Geografia estaria para ter uma nova concepção de seu objeto.
(p.17)
Verifica-se atualmente uma ruptura com os padrões de
cientificidade na Geografia dada a crise da influência positivista que embora
tenha definido para a Geografia um temário comum, isto não indica que tenha
delineado o objeto da Geografia. A configuração de um objeto passa por uma
dilapidação teórica de tal temário.(p.24)
É necessário para o delineamento do objeto da Geografia
uma opção metodológica, pois esta é que fornecerá uma série de balizamentos
para a pesquisa. Estes balizamentos orientam uma revisão crítica do que já foi
acumulado, reformula ou resgata questões encontradas, equaciona problemas do
próprio temário adotado e delineia o caráter do conhecimento a ser criado.(p.
26)
O método apresenta uma diferença interna entre o de ser
de interpretação e o de ser de pesquisa, o primeiro caracteriza-se por
uma determinação concepção de mundo do pesquisador; já o segundo é sobre o
conjunto de técnicas utilizadas na pesquisa. (p. 27)
A adoção de uma linha metodológica não implica em
entendê-la como já definida, acabada, ela deve ser continuamente objeto de
modificações, de aprimoramento...“O compromisso do cientista só pode ser com o
real. Quando a realidade observada não encontra correspondência nos
pressupostos metodológicos, são esses que devem ser revistos ” (p. 30)
No momento que é vinculado a construção do objeto da
Geografia ao método, não é mais possível chegar-se a uma definição consensual
do mesmo, pois ele será de acordo com o método adotado. No entanto, a adoção do
método não termina a tarefa de um geógrafo, apenas a inicia. (p. 33)
Os autores têm como opção metodológica trabalhar o
temário geográfico à luz do materialismo histórico e dialético, tendo como
campo de abrangência as ciências humanas. (p.35)
O marxismo tem como pedra angular a relação entre teoria
e prática... “Para o marxismo, só a perspectiva de transformar o mundo fornece
a possibilidade de compreendê-lo, só a visão crítica permite apreender a
essência dos processos sociais, só a inserção no movimento propicia seu
entendimento” (p. 35).
Embora não utilizada pela Geografia Tradicional, a
contribuição de Karl Marx para a Geografia foi iniciada na década de cinqüenta
do presente século, concomitante à crise da Geografia Tradicional. A progressão
desta nova concepção de Geografia, a Geografia Crítica, teve a partir de um
grupo de geógrafos ( Dresch, Pierre George, B. Kayser, R. Guglielmo, A. Prenat,
Tricard, entre outros ) os primeiros ensaios de uma aplicação do marxismo na
disciplina geográfica. (p.40)
Pelo método adotado, há sucessivos e interpenetrantes
procedimentos de abstração e concreção. Este processo cognitivo visa elaborar
um conjunto de mediações explicativas do problema tratado. A explicação dos
fenômenos não decorre da exaustão da análise e sim pela qualidade em fazer
compreender o movimento, a dinâmica dos fatos. (p.47-8) “O marxismo trabalha
com a lógica dialética, a qual concebe a realidade enquanto movimento e a
contradição como a forma de ser dos fenômenos”.
(p. 49)
Deste modo, não é possível compartimentar rigidamente o
objeto de estudo da Geografia, o pesquisador identifica no estudo o que lhe é
exterior, decifrando-o. Há uma postura materialista segundo a qual a existência
antecede a consciência, o objeto de estudo é exterior ao pesquisador, o que
significa que o pensamento deve estar consoante à observação dos episódios da
realidade. (p. 50) Sendo assim, não é possível traçar um objeto ideal , impondo
um corte ao real...“O objeto não pode ser um construto mental, uma pura ilação
do sujeito. Ao contrário, ele deve ser uma existência concreta, uma identidade
no real” (p. 51). [3]
Esta postura materialista, consoante a uma utilização da
lógica dialética, vem acompanhada por uma preocupação com a gênese e
desenvolvimento dos fenômenos pesquisados. Os fatos não são coisas, é
necessário privilegiar o respectivo processo de formação.(p. 52)
A partir destes princípios de método temos que o objeto
da Geografia deverá ser um processo que possua uma identidade específica como
parte de uma totalidade, deste modo fica claro a incompatibilidade de se adotar
a tese de unidade do objeto geográfico pela qual a Geografia seria uma ciência
de síntese que trabalharia com fatores naturais e sociais.(p. 53)
Há uma clara diferença entre ciências naturais e sociais,
enquanto na primeira há distância entre o pesquisador e seu objeto de estudo,
na segunda o cientista aparece como parte do objeto porque as suas convicções
não deixam de influir na análise da sociedade. (p.54)
Outro aspecto diz respeito às diferenças manifestas
quando há uma comparação entre fenômenos sociais e naturais, estes, por
exemplo, tenderiam a apresentar uma certa estabilidade de manifestação,
facilitando a criação de leis, enquanto os primeiros há uma maior dificuldade
de se produzir leis que venham a compreender exatamente a lógica do
comportamento humano. (p. 55-6)
Há, portanto, uma impossibilidade do geógrafo marxista em
manter a tese da Geografia de ser uma ciência de interface entre dois grandes
campos de saber: o físico e humano...“Assumir uma orientação marxista implica
ter de escolher o domínio no qual desenvolverá suas investigações: o dos fenômenos
naturais ou o dos sociais”. (p. 57).
A partir do exposto os autores visualizam dois caminhos
para a Geografia, ela enquanto ciência da sociedade, ou como ciência natural. O
marxismo está melhor instrumentalizado para desenvolver a primeira alternativa,
e é esta que os autores adotam. (p.59)
Tendo a Geografia como ciência da sociedade, o objeto
será o processo social referido ao espaço terrestre. A adoção da categoria modo
de produção, que concebe relações sociais
de produção, forças produtivas,
reprodução ampliada, passa a ser um poderoso referencial na análise da
sociedade. (p. 60-5)
A dinâmica dos modos de produção ocorre pautado em
processos contraditórios originados pelos conflitos entre classes sociais, dado
o caráter social da produção e o caráter privado de sua apropriação, há
ainda o desenvolvimento das forças
produtivas em choque com as relações de produção. (p. 69)
A partir destas formulações da teoria marxista, os
autores iniciam a delimitação do objeto da Geografia. Inicialmente eles entendem
que há de haver uma descoisificação
do objeto, ou seja, o objeto assim o é não porque corresponda a uma determinada
definição, mas ele torna-se objeto por ser processo social, pleno de
contradições, segmento de um dado modo de produção. (p. 70-2)
Pelo marxismo, não há como relacionar diretamente a
concepção de processo com a de espaço, de tal modo que teríamos diferentes
processos espaciais. O espaço não expressa uma realidade em movimento, ele é
uma qualidade (p. ex: dimensão ), é uma categoria da intuição e não do
pensamento...“Nesse sentido, resta o espaço como categoria social real, o
espaço-resultado, construído e em construção, o espaço real como demarcação de práticas sociais precisas, uma
realidade que não prescinde, em hipótese alguma, da vitalidade histórica que
lhe é impressa por uma sociedade concreta . Não há, então, espaço sem
sociedade, nesta concepção; ou melhor, não pode haver espaço, nem como dimensão
física isolada e arbitrariamente pré-delimitada. O que há é a possibilidade de
se trabalhar uma relação
sociedade-espaço, relação que é social exclusivamente, e que historicamente
se expressa em processos reais os mais complexos, cuja compreensão deve ser a
tarefa de uma teoria marxista da Geografia .”(p. 72-3)
A relação sociedade-espaço está na base desta teoria,
sendo que o trabalho humano é a
categoria central . (p. 74 ) As transformações históricas que ocorrem no campo
do trabalho humano suscitam novas formas de relação sociedade-espaço. (p. 74-89
) Tais transformações culminam na construção de uma segunda natureza, uma natureza humanizada, pela qual o homem
perderia a estreita relação com a lógica dos fenômenos naturais, estando afeito
à dinâmica de crescimento ou crise de sua sociedade; além disso, a própria
natureza passaria a ser alterada pelo avassalador processo de apropriação e
explotação dos recursos capitaneado pelo capitalismo ( p. 89)
Na intenção de avançar numa concepção marxista do objeto
da Geografia, os autores passam a tratar de um tópico central no pensamento marxista
que é a teoria do valor.(p. 93)
Nas páginas seguintes do livro (92-121), os autores
resgatam a formação da teoria do valor realizada por Karl Marx, destacam os
diferentes autores que a influenciaram, as circunstâncias históricas, e a
diferença da visão de Marx para os seus predecessores.
A aplicação da teoria do valor na constituição do objeto
da Geografia passa pela percepção da valorização do espaço. Esta valorização,
por sua vez, deve destacar uma diferença interna, entre valor do espaço e valor no
espaço. (p. 123)
O valor do espaço
vem a ser um valor contido pelos recursos naturais e aqueles construídos pela
sociedade. ..“A Terra é, aqui, uma realidade natural e material que se define
como receptáculo do trabalho humano historicamente acumulado” (p. 127).
O valor no espaço
decorre do mesmo ser objeto de troca o que vem a frisar a esfera da circulação
. Pelo valor no espaço não está em questão a singularidade do espaço, se é
plano, montanhoso, etc.., o que vai distinguir o valor no espaço é o modo como
ocorre a sua inserção na circulação da riqueza. Através de um exemplo, não dos
autores do livro, procuremos assim esclarecer a diferença entre os dois tipos
de valores: dois terrenos de 1000 m2 com as mesmas características físicas e
sem contar com qualquer tipo de infra-estrutura ( vias de acesso, rede de água,
etc..), sendo um localizado no bairro nobre do Recreio dos Bandeirantes do Rio
de Janeiro e outro em Campo de Santo Bento no município de Duque de Caxias, ora
o primeiro tem melhores condições de satisfazer uma demanda capitalista do que
o segundo, e tal particularidade não decorre das singularidades do terreno mas
de uma determinada inserção da estrutura urbana que faculta uma melhor
viabilização de acúmulo de riqueza.
Cabe ressaltar que estas duas dimensões de valor em
relação ao espaço ocorrem paralelamente a avaliação de um terreno, por exemplo,
não é realizada apenas pelo que tem por características naturais ou
construídas, o seu valor é ainda calculado pelo modo como o mesmo pode vir a potencializar as atividades pelo fato de
ter uma determinada inserção no movimento de reprodução da sociedade e que por
isso passa a ser muito valorizado.
Mas como entra o espaço no movimento circular da criação
dos valores ? (p. 134)
O espaço participa da formação do valor enquanto condição,
sendo percebido na formação do custo geral da produção quando, por exemplo, uma
empresa se vê prejudicada pela péssima localização.(p. 135) Enquanto condição verifica-se a unidade
contraditória do processo de valorização do espaço ao ser realizado mutuamente
o valor do espaço e valor no espaço.
Neste processo de valorização do espaço temos dois
aspectos deste movimento, a saber: a perenização
e a transitoriedade do valor (p. 142)
. Pela perenização teríamos uma atividade que extrapolaria os objetivos
iniciais de uma dada exploração no espaço de tal forma a constituir novas
justificativas para se manter a produção num determinado local (por exemplo,
que não foi utilizado pelos autores, a cidade de Ouro Preto, formada para gerenciar
a produção de metais, passou a ter novas funções que a levam a existir ainda
hoje), no caso da transitoriedade uma ocupação não deita raízes no local (como
exemplo temos a Serra Pelada no Pará que de uma época que já teve milhares de
pessoas atrás de ouro, hoje está muito pouco ocupada).
Há assim uma relação entre valor extraído e valor criado,
enquanto a ...“perenização refere-se a uma produção em escala ampliada do valor
do espaço. A transitoriedade, por seu lado, refere-se ao consumo destrutivo
desse mesmo valor. O fundamento da perenização está na intensificação da
criação de valor no espaço. A transitoriedade, subvertendo a correspondência
entre as duas formas de valor, mantém os processos de valorização no espaço em
que ocorre, sob patamares baixos de reprodução” (p. 144). Com o desenho da
dialética entre perenização-transitoriedade, os autores finalizam a forma de
analisar o processo de valorização do espaço.
Em termos gerais, o enfoque sobre a valorização do espaço seria o meio para delimitar o objeto da Geografia, estando constituído uma proposta a ser adotada pela Geografia Crítica. No último capítulo do trabalho, eles adotam este enfoque no estudo da sociedade capitalista, no entanto, na intenção de reservar mais tempo para as outras partes do trabalho, nos restringiremos a destacar ao modo como eles delinearam o objetivo da Geografia sem entrar nos seus desdobramentos para a compreensão de uma sociedade capitalista.
· Conclusão parcial para o trabalho
Pelo exposto, o objeto da Geografia seria a análise do
processo de valorização do Espaço. Sendo analisado este processo como fruto de
uma longa maturação histórica, pela qual sai daquela relação mais imediata com
a superfície terrestre, o da luta pela sobrevivência, para marcar nesta mesma superfície
um caráter teleológico aberto com o trabalho. No fundo o processo de
valorização de valorização não se resume a uma concepção econômica de
valorização monetária de uma parcela da face da Terra, é mais do que isso, é
sim uma dinâmica calcada e forjada pelas forças materiais emuladas pela
capacidade de trabalho da sociedade humana. Neste sentido o espaço natural é
visto basicamente à luz da apropriação. O espaço natural é tipo “um
provedor de recursos”.
A concepção investe de forma poderosa na compreensão
econômica/política/social na relação entre sociedade e a superfície da terra,
mas relega um papel pequeno para a pertinência da natureza na compreensão dos
fenômenos sociais. Na percepção marxista a natureza está no homem representada,
está no homem subsumida, por esta forma de pensar, não haveria, dada a dinâmica
do processo produtivo diferença entre o natural e o social, este último, o
fator dominante e determinante na compreensão do espaço, trás em seus produtos,
seus artefatos, suas construções, a natureza trabalhada, a natureza negada no
seu estágio primitivo mas confirmada na sua forma útil à sociedade.
É uma forma de pensar que pressupõe um fluir da exploração
dos recursos naturais. É compreensível para a época de Marx a não consideração
das questões ambientais, a sua época é marcada pela questão social. A nossa
época, além da questão social, adquire relevo a questão ambiental, e esta passa
a ter uma valorização que não diz respeito a uma valorização dada pelo
trabalho, mas sim pelo trabalho que a destrói.
Pela concepção adotada, a Geografia seria uma ciência
porque tanto o método de interpretação quanto o de investigação são tidos como
científicos. Numa perspectiva marxista, o critério de cientificidade é
adquirido, fundamentalmente, a partir de uma praxis . O engajamento numa luta pela transformação do mundo
suscita uma compreensão dos processos sociais. Sendo adotado o marxismo a
Geografia seria uma ciência humana de modo que a discussão sobre a
cientificidade da Geografia Humana, por exemplo, seria desnecessária pois a
Geografia Humana nada mais seria que um rótulo, de herança positivista, que não
se coadunaria com esta visão .
Há, obviamente, uma flagrante diferença entre Michel
Foucault e Karl Marx no que tange à teoria do conhecimento. Michel Foucault tem
por referência, na asserção sobre a ciência humana, um amplo estudo pelo qual
esta é situada em relação aos demais campos do conhecimento; Karl Marx, por sua
vez, constitui uma teoria do conhecimento, embora não a trate em trabalho específico
e sistemático (como constatado por Georg
Lukács (1981)); a partir de uma percepção materialista a realidade social, a
totalidade do ser social, é o verdadeiro metro do significado do conhecimento
elaborado. Marx constitui uma nova forma de cientificidade, ela a constitui a
partir de sua relevância na transformação da sociedade.
A princípio, salvo ignorância de minha parte, fica
difícil uma comparação entre os dois autores pois os pontos de contatos não
foram vislumbrados. A consideração, no entanto, da contribuição de Karl Marx na
forma como o mesmo concebe o ato de conhecer é um aspecto que deva ser mais bem
analisado.
Por exemplo, há um enunciado básico de sua concepção de
ser (a sua ontologia) que é a existência anteceder a consciência. Ora, a
anterioridade da existência indica que a consciência foi forjada materialmente,
foi marcada pelas condições de produção e reprodução da vida, isto indica que a
consciência tem limite de tamanho da matéria. Se não houvesse a raça humana,
seria mais fácil compreendermos a pertinência deste enunciado, pois, a
princípio, as espécies viventes teriam decorrido de processos naturais,
complexos, após uma lenta evolução. No entanto, entendermos certas
particularidades humanas a partir de um processo natural parece que diminui o
significado misterioso de nossa existência. Refiro-me misterioso, não porque
não tenha uma razão, mas sim porque esta razão ainda não apreendemos ainda. Por
que existe a vida? De onde ela partiu? Como foi possível à pessoa humana ter
consciência de si, saber julgar, poder optar, escolher? Como é possível ao
homem amar, ter amor aos filhos, à companheira, etc..? Por que a morte nos
desperta tanto medo, por que não é vista como algo próprio de nosso viver, como
o comer, dormir etc..?
Enfim, a anterioridade da existência pressupõe que este
indagar o mundo proveio de situações únicas de uma evolução natural que deram
oportunidade à raça humana em se destacar das demais espécies. No entanto,
parece-me que algo não combina, ou seja, a limitude própria da matéria com a
capacidade de abstração da pessoa humana. Obviamente que este tipo de argumento
nos leva a determinados temas desagradáveis como é a hipótese de existir Deus.
Não parece-me que seja tarefa da ciência em negá-lo ou comprová-lo, mas o que
chama atenção é a crença que a racionalidade ou até a materialidade nos deva
levar a um ateísmo ou, no mínimo, ao agnosticismo.
Bom, ultimamente, principalmente a partir da consciência
ecológica, como aponta Nancy Mangabeira Unger (1991), o item da espiritualidade
passa a ser um tópico marcante na construção de um novo olhar sobre a natureza.
Parece-me, portanto, que o avanço da ciência passa por uma não aversão ao
imaterial, ou seja, cabe uma atitude na ciência em que a existência de um Ser
não signifique o término da ciência. Não entendo que esta abertura para Deus
signifique um avanço em si à ciência, mas, fundamentalmente, arranca esta
aversão, quase que instintiva da ciência do mundo ocidental de negar qualquer
possibilidade de sua existência; e ainda, confere à ciência a possibilidade da
abertura de uma visão sobre o nosso universo pela qual o mistério do existir
passa a ser fundada por outras formas de conhecer que não só pela razão. O
físico Fritjoff Kapra em O Tao da Física opera um interessante
paralelismo entre a física moderna e as correntes espirituais do Oriente, é
como se o ato de conhecer fosse elaborado por um processo intuitivo no qual o
raciocínio atua como suporte mas não como piloto.
4 ) Geografia Humana
Não é nossa intenção, nesta parte do trabalho,
elaborarmos uma análise que verse sobre a cientificidade da Geografia Humana à
luz da concepção da Geografia Crítica, pois a divisão entre Geografia Física e
Humana é tida como uma herança de fundo positivista que não se coaduna à visão
da Geografia ser uma ciência humana, para a Geografia Crítica.
A discussão que nos propomos é tratar da Geografia Humana
destacando a contribuição de Richard Hartshorne em sua obra Propósitos e
Natureza da Geografia . O resgate de tal contribuição visa contribuir na
nossa proposta de uma concepção da Geografia que valorize a relação
sociedade e natureza. Embora o livro do Hartshorne não se resuma a discutir
esta relação, dele exploraremos o modo como o mesmo trata desta questão.
A opção por esta questão decorre da ciência hoje passar
por um processo de fortes transformações , nas quais um tema candente no nosso
tempo é a questão ambiental. Em nome desta questão vem sendo elaborada uma
literatura que afeta a economia, a sociologia, a antropologia pois destes
campos de conhecimento são solicitados a respectiva interface com o meio
ambiente.
A valorização da variável ambiental no quadro das
preocupações dos cientistas proporciona, já no campo da Geografia, um resgate
desta antiga discussão Geografia Física x Geografia Humana. O retomar a obra de
Richard Hartshorne significa neste contexto um meio para avançar no tratamento
do tema visando uma contribuição de uma proposta de Geografia que destaque a
relação sociedade-natureza .
· A concepção de Geografia de Richard Hartshorne
Ele entende que a determinação da natureza, do âmbito e
dos propósitos da Geografia constitui principalmente um problema de caráter
empírico. (p. 8)
A limitação do campo da Geografia à crosta externa do
planeta é de origem relativamente recente, vigorando até o século XVIII a
concepção de que o objeto da Geografia era a de ser uma verdadeira cosmografia
abrangendo o estudo da Terra e das estrelas ( p. 23 ) Porém, no advento da
ciência moderna passou a ser promovido uma sistematização do conhecimento
ensejando uma série de especializações que viriam a afetar o caráter da
Geografia. (p. 28) A relação da Geografia com estes setores do conhecimento
sistematizados é permeada por conflitos, embora ocorram vínculos. (p. 29)
Há uma diferença entre uma ciência que analisa uma
categoria particular de fenômenos e a Geografia que visa analisar as diferenças
dos lugares, naturalmente pode surgir uma combinação entre estes dois enfoques
( p. 21 ) Pelo estudo sistemático, o estudo começa pela seleção de uma
modalidade particular de objetos, que são mentalmente abstraídas do complexo de
fenômenos que as rodeiam, há em seguida uma análise dos fenômenos e síntese
sobre os fatores. Na Geografia, há uma análise dos diversos fenômenos que
determinam o caráter variável das áreas estando, estes fenômenos, dispostos e
inter-relacionados na realidade ...” conforme até mesmo um leigo possa
observá-las...” (p. 34)
O exercício de uma ciência sistemática tem a vantagem de
poder concentrar a mente em um dos processos inorgânicos, ou orgânicos ou
culturais; ficando o grau de heterogeneidade mais limitado, e o grau de
integração apenas parcial. (p. 37)
Enquanto para a Geografia a análise de relações
intercausais é mais difícil pois pode ter variações segundo processos
inorgânicos e culturais, ou, orgânicos e inorgânicos, ou, orgânicos e
culturais, ou, ainda, os três simultaneamente, o que torna a tarefa da
Geografia mais difícil, (p. 35). Levando em conta que a Geografia não é
definida em termos de modalidades de fenômenos, mas em termos de seções do
espaço, as integrações que têm de ser analisada são complexas, e a
heterogeneidade dos fenômenos a serem estudados só é limitada pelos fenômenos
existentes e variáveis dentro de determinadas seções do espaço (p. 37)
Mas a “...realidade total aí está para ser estudada, e
Geografia é o nome desse setor dos conhecimentos empíricos que sempre foi
convocado para estudar essa realidade ..”
(p. 35)...” é fundamental para a
verdadeira finalidade da Geografia, como o estudo da realidade da superfície da
terra, sendo esta composta de todas as modalidades de elementos, em todos os
tipos de combinações. Os estudos de categorias individuais de fenômenos são
devidamente atribuídos às várias ciências sistemáticas. O propósito específico
da Geografia é estudar as variações, na face da terra, de fenômenos que existem
em inter-relação, independentemente da classificação dos fenômenos segundo suas
espécies. “ (p. 36 )
No entanto, esta definição da Geografia não exime o
geógrafo de enfrentar a seguinte questão: qual o critério a ser adotado para
nortear a análise complexa de fenômenos heterogêneos? (p. 39) Na prática, o
estudo é iniciado a partir de um aspecto ou tópico pelo qual vai sendo realçado
as inter-relações e interconexões com outros fenômenos até chegar a uma compreensão
da área em estudo (p. 42), o início do estudo, por sua vez, deve estar apoiado
na significância do aspecto escolhido para o homem (p. 49) ...“Qualquer
fenômeno, quer da natureza, quer do homem, é significante em Geografia na
extensão e no grau em que suas inter-relações com outros fenômenos do mesmo
lugar, ou suas interconexões com fenômenos de outros lugares, determine as
variações espaciais daqueles fenômenos, e portanto a totalidade de variação da
área, medida em referência à sua significância para o homem”. (p. 50).
· Geografia Física e Geografia Humana
A distinção entre fenômenos naturais e
sociais ocasiona várias dificuldades para a Geografia, a saber:
a ) o geógrafo deverá ter critérios para
discernir entre o que vem a ser natural daquele que é social. Esta é uma tarefa
difícil pois a associação dos fatores não é exclusivamente humana ou natural.
(p. 54)
b ) quando há a preocupação em dividir o
campo do estudo entre físico e humano, o pesquisador não raro passo “por cima”
de aspectos que não os escolhidos ( por serem físicos, ou humanos ) mas
significativos para compreender o que vem estudando (p. 55)
c ) a análise científica, em geral, já demanda a descrição do modo como o
fenômeno escolhido se inter-relaciona com outros fenômenos, se além deste
aspecto há a solicitação de se separar entre físico e humano, o analista passa
a considerar que há entre as partes uma correspondência, é como se os “dois
lados pesassem da mesma forma para favorecer a compreensão da área “ (haspas
nossa) (p. 55 ).
d ) na divisão entre as partes ( física e
humana ) há uma tendência de uma ser compreendida pela outra; na época de
Hartshorne, o aspecto natural era considerado como causa, enquanto o social
como efeito de modo a minorar as relações ocasionadas por aspectos humanos que
atuam como fatores causais (p. 56)[4]
e ) a operação de dividir entre aspectos
humanos e físicos implica num processo de resgate histórico que explicite a
partir de que ponto um ou outro aparece, ficava difícil indicar que o aspecto
natural explicaria aquela área se este mesmo aspecto só podem ser compreendido
com o apoio da compreensão dos fenômenos sociais, deste modo, para evitar
confusão procurava-se operar uma distinção entre os aspectos a partir de uma
análise histórica. (p. 57-58)
Richard Hartshorne após numerar estas dificuldades e fazer
compreender que esta divisão entre Geografia Física e Geografia Humana está
articulada à corrente de pensamento do determinismo, que propugna a compreensão
da área a partir do modo como o meio natural atua sobre a sociedade, defende
que a crosta da terra, que constitui o objeto de estudo da Geografia, é um
complexo de várias integrações com uma larga multiplicidade de fenômenos,
inter-relacionados segundo uma grande diversidade de maneiras, de modo que não
cabe à Geografia distinguir dentre os fatores inter-relacionados nos fenômenos
que estuda, quais os de origem humana e quais os de origem natural.
Hartshorne considera ser equivocada a divisão entre Geografia
Física e Geografia Humana, ele chega no capítulo VI destacar a origem deste
dualismo, mas o interpreta como um obstáculo para o crescimento da Geografia e
conclui ...”Ao estudar as relações que existem entre os aspectos da terra, a
Geografia analisa esses aspectos na medida em que isso for necessário para
explicar as suas inter-relações, sem levar em conta o fato de tais
inter-relações poderem ou não ser descritas em termos de “leis naturais” ou de
“leis sociais”.(p. 85-6)
E é a partir de uma fase dos estudos que compreende a
especialização por tópicos, como em qualquer outra ciência, estando esta
especialização voltada para os fenômenos associados, embora heterogêneos, que
cada setor da Geografia poderá contribuir para a compreensão da diversidade da
face da terra. Assim, as diferentes abordagens da Geografia, orientadas para o
estudo particular de integrações parciais corroborariam, a partir de sucessivas
combinações entre os resultados encontrados por estes enfoques, na compreensão
aproximadamente completa das variações da superfície terrestre . (p. 86)
· Objeção ao pensamento de Hartshorne
Pelo exposto sobressai uma poderosa contribuição deste
autor ao enfatizar a noção de complexidade nos estudos da Geografia a partir de
uma “não discriminação” na consideração entre aspectos inorgânicos, orgânicos
ou humanos.
Porém, há um aspecto que fragiliza a proposta de
Hartshorne, a saber: a noção de área como seção da esfera terrestre não dá
devida segurança ao pesquisador sobre o que de fato deve-se considerar
como área, quais são os parâmetros para considerar a área estudada, quais os
seus limites ? Por exemplo, quando resolvo estudar o Estado de São Paulo,
proponho-me a analisar uma área que trás subjacente um qualitativo, qual seja,
uma área circunscrita, definida por uma terminologia da estrutura de poder do
sistema federativo de um país; ou ainda, quando estudo a Mata Atlântica, a área
a ser considerada, que abrange parte do Estado de São Paulo, terá dimensão e
proporções em função de um tema = a mata.
Em resumo, não há uma área pura, as designações
utilizados por um geógrafo ao referir-se de sua área de estudo, ( p. exemplo a
mata, a cidade, o Estado, o bairro, etc.), designam, sub-repticiamente, uma
determinada ótica de análise da área. A saída deste caráter “sistemático”, a
partir da busca de sucessivas inter-relações com outras várias, está calcada
por um critério frágil, pois, em última análise, o que dita a busca das
integrações dos fenômenos ? Como indica Hartshorne é a significância deste
estudo para o homem, ora que homem ? O favelado, os ricos, ? Nesta
designação Homem está o pressuposto a noção de uma sociedade harmônica, que
embora possa ter conflitos, chega a ultimar um objetivo comum.
Um segundo aspecto diz respeito à concepção de ciência
calcada na neutralidade do próprio pesquisador, não ficando claro o engajamento
político, a sua formação ideológica, etc.. o raciocínio de Hartshorne indica
ser possível uma operação intelectiva ao estudar uma área passível de ser
comungada por outros geógrafos.
Um outro aspecto a assinalar encontra-se na contribuição
das “diferentes geografias”, tópicas, voltadas para determinadas parcelas do
complexo mundo inter-relacionado da face da Terra, que em determinado momento
contribuem na compreensão global da área. Ora, a depender do fenômeno
analisado, mesmo havendo uma preocupação com um caráter integrador, buscando
relações com outros fenômenos, as dimensões de tempo e de espaço são distintas.
Por exemplo, se um estudo é sobre cidade, e outro é sobre redes de transporte,
a lógica a ser extraída para a compreensão de ambos os fenômenos encerra
peculiaridades que dificultam uma imediata integração numa fase posterior do
estudo.
No entanto, o principal ponto a ser observado sobre este
sentido colaboracionista dos diferentes setores da Geografia é a premissa de
que todos falam a mesma linguagem, guardam conceitos semelhantes, enfim têm uma
comunicação fácil. Está implícito, às vezes ele o coloca explicitamente,[5]
que a própria realidade propicia esta
nitidez. É como se houvesse o império da realidade diante da qual o geógrafo
amealharia informações, relações, para chegar ao intento tão buscado que é o
patamar da compreensão global das diversidades da superfície terrestre.
Logo há um ponto fraco na principal argumentação do autor
para definir o caráter da Geografia que talvez explique a sua relativa pequena
repercussão diante do crescimento da Geografia Crítica. No entanto, a lembrança
de Hartshorne decorre de sua ênfase em destacar: a) o caráter complexo da Geografia, b ) a
ênfase em não “discriminar” aspectos físicos ou sociais, c ) e ainda
destacar o foco dos estudos não em fenômenos, como é próprio das ciências
sistemáticas, mas nas áreas, nos espaços.
Deste modo, a partir do “exemplo” de Hartshorne, inicio
uma proposta de concepção de Geografia tendo como material de apoio e
referência o estudo de Edgar Morin publicado na obra O Método , este
sociólogo francês vem se destacando no contexto das discussões sobre os
paradigmas da ciência a partir de sua tentativa de integrar aspectos físicos e
humanos .
A apresentação do pensamento do sociólogo francês
representa um verdadeiro desafio, não só pela magnitude da obra O Método
, mais de mil páginas, mas também pela forma como pensa, um pensar globalizante
propondo a constituir um novo paradigma para a ciência de nossos dias; não
deixa de ser um projeto ambicioso, mais consoante às necessidades de nosso
tempo. Deste modo, apenas realçamos algumas noções do raciocínio que são
muito caras ao sociólogo, mas que aqui são introduzidas para realçar aspectos
da nossa forma de perceber a questão da cientificidade da Geografia.
· O pensamento de Edgar Morin
Morin reconhece uma séria crise da ciência, não sendo
mais possível desconhecer a particularidade de nossa época cujos problemas atingem
a tal magnitude de interações e aspectos que não são mais passíveis de serem
compreendidos como até então foi produzida a ciência. Esta, a partir de
sucessivos cortes de seu objeto do conhecimento proporcionou um fantástico
processo de manipulação da natureza e das próprias informações produzidas, mas
nega o caráter integrador dos fenômenos que deve ter a ciência.
Deste modo, ele propugna pelo paradigma da complexidade,
que viria em contraposição ao paradigma da simplicidade até então adotado pela
ciência moderna. A complexidade não se situa apenas ao nível da observação e
construção das teorias, mas ao nível do processo de orientação da construção do
pensamento (p. 348 tomo 1). Pela complexidade é factível a impossibilidade de
negar a existência das incertezas (p. 348, tomo 1) Falta agora transformar a
descoberta da complexidade em método. (p. 351, tomo 1).
Ele reconhece na Ecologia um campo do conhecimento que
vêm fugindo desta forma sescionista de
produzir a ciência visando a manipulação. Pela primeira vez na história
ocidental, uma lógica científica, a ecológica, está subordinada à proteção da
vida e a qualidade de vida. (capítulo VI, tomo 2 )
O raciocínio de Morin segue uma ordem anelar, elabora
raciocínios como que composto por anéis interligados mas que seguem uma ordem
acumulativa, ou seja, não se trata de um círculo vicioso, mas sim de anéis que
vão se sobrepondo, interligando-se, assim por diante. Ele traça, por exemplo,
uma relação anelar entre physis e antropos, ou objeto e sujeito, ou ordem e
desordem, etc.. Estes anéis são formas do autor em traçar um encadeamento que
chegue a construir o seu método. Ele adota um raciocínio circular pautado em
relações contraditórias, avulsas, mas que chegam a uma ordem e posterior
desordem, construção e ruptura. Ele visa constituir um novo princípio de
organização do saber.
Ele entende que há uma organização na realidade, mas que não decorre de um processo
pré-concebido, mas sim , do conflito de variáveis que a partir de diversos
“desencontros” passam a apresentar uma determinada regularidade, porém, esta
ordem adquirida ao acaso não é contínua, ela pode vir a sofrer inflexões de
modo a gerar novos conflitos e assim proporcionar novas combinações .
A organização é que informa o sistema. Para Morin a concepção
de sistema segue uma leitura distinta
da realizada a partir da década de 50 com a elaboração da chamada Teoria Geral
do Sistema; que ao ser adotada pela
Geografia desembocou num incremento da quantificação dos métodos utilizados na
pesquisa.
Morin diferencia a sua acepção de sistema da visão tradicional do sistema enquanto fluxos,
relativamente harmônicos. Ele entende que o sistema apresenta-se como uma
unidade, uma unidade complexa, elaborada por êmulos diversificados que embora chegue
a uma certa “situação de equilíbrio”, esta situação enseja novos enquadramentos
de forma a suscitar reações, movimentos, rupturas e desestabilização. Sendo
assim, o sistema existe enquanto uma emergência, como se fosse um grande fluir
de uma dinâmica, coesa internamente, mas circunscrita a mudanças
diversificadas (capítulo 2 da primeira
parte do tomo I).
Correlata as noções de organização e sistema,
devemos realçar a de máquina. Ele
entende, por exemplo, que o ecossistema é mais do que um sistema e sim uma
máquina . (tomo 2, p. 86)
O ser-máquina está relacionado à determinada produção;
se as interações, reações, transações e retroações marcam a organização, todo
este processo chega a algo, produz algo, por exemplo ...” a produção de átomos
de carbono no seio duma estrela efetua-se de modo extremamente improvável e
poderíamos considerá-la unicamente como o fruto de encontros ao acaso, se não
existisse a organização das estrela que provoca incessantemente colisões entre
núcleos de hélio...”(nota 1, tomo 1, p. 151 ). A produção pode vir tanto pela
soma, adição, como pela desagregação ou esmagamento, assim, pela concepção de Morin o ser-máquina não vem
a ser aquela marcada por uma perspectiva cartesiana, uma máquina ordenada, uma
máquina feito relógio, ela é práxis. Pelo ser-máquina ser há uma organização
ativa que ela não se limita ao ambiente biológico, inorgânico ou social. A
percepção de ser-máquina diz respeito ao como Morin vê o mundo. O mundo, o
universo, é um ato em ação, em retroação, enfim em movimento. (Vide capítulo 1
segunda parte, tomo 1).
Morin verifica, no entanto, a inviabilidade de ser
constituído um paradigma da complexidade sem a correlata transformação do mundo
das idéias. Ele aponta no tomo 3 de sua obra a distância entre o pensamento e a
linguagem. Embora uma reflexão tenha por expressão uma forma de comunicação,
dada pela linguagem, não é possível entender como sendo a mesma coisa, o
pensamento e meio de comunicação. Entre o pensamento e a sua comunicação há um
sem número de mediações que chegam a comprometer a própria capacidade de
cognocibilidade . (Tomo 3, pp. 209-211 )
Morin no tomo 4 entende que estamos, a partir de um
levantamento das mediações do ato de conceber as idéias e um histórico da
evolução do ato de pensar humano, numa época de barbárie. Nosso universo mental
ainda é perpassado por circunstâncias, crenças, atitudes que obstaculizam o
avanço de um paradigma da complexidade. Por isso, ele chega a indicar três
grandes carências no campo da teoria científica, a saber: a) falta de uma atitude
reflexiva, de elucidação epistemológica sobre os seus fundamentos; b) há uma
distância entre o ato de conhecer e o ato ético de julgar, a ciência se
posiciona como a-ética, o que cria sérios problemas; c ) evita os problemas
fundamentais da filosofia ( tais como por que a existência da vida? qual o
sentido da vida? ). (p. 247)
Não é nossa intenção retratar os principais aspectos do
pensamento, pois seria uma tarefa assaz complexa
, mas, a partir do que já foi exposto, passaremos em seguida a analisar a
forma como Edgar Morin pensa a relação sociedade-natureza.
Obviamente que este tema é encontrado na obra O Método mas inserido na construção de
um verdadeiro paradigma pela qual procura-se trazer uma alternativa ao da
ciência ocidental pautada por uma orientação cartesiana, o que exigiria um
verdadeiro trabalho de garimpagem.
Deste modo recorremos a uma outra obra de Morin que trata
mais especificamente deste tema, a saber: Sociologia.
Morin destaca que o estudo da sociedade deve ter uma
idéia de unidade global, permeada de conflito e de complementaridade. (p. 66)
No entanto, as teorias sociológicas não incluem a infra-estrutura biofísica na
abordagem sobre a sociedade (p. 79).
Ele percebe a sociedade enquanto sistema, sendo aplicada
a idéia de sistema a objetos fenomenais, mas que não chegam a se identificar
com eles. Há diferentes sistemas, de diferentes ordens, o corpo humano, por
exemplo, também é um sistema, então a sociedade é visto como um conjunto
contraditório, intricado, relacionada, coeso, e em degradação de sistemas.
Logo, a percepção de sistema segue a intenção do autor em constituir um patamar
paradigmático pelo qual possa analisar a sociedade. Não se trata de apontar as
bases da sociologia, mas sim a de destacar uma perspectiva sistêmica muito útil
para compreender a sociedade. (p. 61)
Ele entende que deva ter uma concepção mais ampla de
ecossistema, ele o entende como ...“a ciência das interações entre elementos
(sistemas) de natureza diferente ( geológicos, climáticos, vegetais, animais,
humanos, sociais, econômicos, tecnológicos, mitológicos, etc.. ) no seio de um
“nicho” natural ou de uma aglomeração social. Ora, estas interações têm um
caráter sistêmico, quer dizer, sofrem ou estabelecem coações, regularidades,
ciclos, complementaridades, antagonismos, etc.., cujo conjunto constitui um
ecossistema para todos os sistemas nele estão imersos”. (p. 103).
Para que haja sistema é necessária a manutenção das
diferenças, ou seja, o jogo das inter-relações entre elementos é perpassado por
combinações e conflitos, mas o sistema só é percebido enquanto tal quando estas
combinações e conflitos convivem e subsistem de modo a fundar um aspecto
organizacional. (p. 62-3) Mas o sistema
não é eterno, ele cedo ou tarde desagrega, de modo que correlato ao modo
organizacional do sistema há o seu antiorganizacional (p. 64).
Há uma espécie de processo circular pelo qual os sistemas
mantêm-se por combinações e contradições internas que são mantidas por um certo
tempo, porém há a morte, a desagregação (entropia) , só que o fim de um sistema
significa a regeneração de outros sistemas, é como se fosse condição do
processo da vida. A auto-regeneração configura a perpetuação da dinâmica de um
fluir, de um emergir, enfim, de uma emergência.
Ele propõe, uma noção paradigmática na análise da
sociedade ao destacar a noção de
auto-eco-reorganização pela qual é possível destacar a capacidade
auto-organizadora da sociedade, a relação com o ambiente (relação ecológica), a
permanente desorganização interna (entropia), e a reorganização interna (
auto-regeneração ). (p. 69)
Morin entende, assim, que a teoria sociológica deve ser
uma teoria do auto-eco-reorganização... “Essa teoria permite conceber a
sociedade não só na sua realidade biofísica mas também na sua complexidade
organizacional. Desde a partida “natural”, a nossa teoria põe no centro o
indivíduo...Desde a partida, a nossa teoria concebe a organização social como
fenômenos neurocerebral, ao passo que as teorias sociológicas apenas concebem
forças mecânicas, gastos energéticos pré-termodinâmicos, equilíbrios de
sistemas fechados...Desde a partida, pudemos conceber ao mesmo tempo a
invariância e a possibilidade evolutiva, ao passo que as teorias se dividem
entre um imobilismo estrutural e um dinamismo sem estrutura.”(p. 96).
Uma poderosa contribuição de Edgar Morin à nossa proposta
diz respeito à forma como ele trabalha a noção de meio ambiente na obra Sociologia. Segundo ele o meio tem uma origem geográfica que não se coaduna com uma
percepção da complexidade, pois remete para as características físicas que
determinam ou condicionam os seres vivos e sociedade. (p. 97)
Cabe não ignorar dois aspectos a trabalhar com a noção de
meio, a saber: a) “Que o conjunto dos fenômenos num dado nicho ecológico
constitui, pelas suas interações, um sistema de tipo original: o ecossistema”,
b) “Que todo o organismo (sistema aberto) está intimamente ligado ao
ecossistema numa relação fundamental de dependência/independência em que a
independência aumenta ao mesmo tempo que a dependência.” (p. 97).
A superação destes obstáculos significa, sobre o primeiro
aspecto, adotar uma perspectiva sistêmica, tal como ele a concebe; onde a
hierarquização, regulação, regularidade, coação, complementaridade e
antagonismos perfazem os traços de um ponto de vista sistêmico. Mas é um quadro
relacional sistêmico precário, frágil, passível de degradação, e ainda, o seu
processo organizacional não decorre de um eixo, de um aspecto determinante, mas
de interações às miríades . A Terra passa a ser vista assim como um ecossistema
global resultante da integração de ecossistemas e ecossistemas, que pela
abrangência de cada um, pode vir a ser, enquanto ecossistema, apenas um
elemento de um ecossistema maior, e assim sucessivamente. Assim “o termo
ecossistema, e também o termo sistema, é integrável numa sistemologia geral e
ao mesmo tempo definível segunda a escala ou o nível de observação e de
estudo”. (p. 98 ).
Sobre o segundo aspecto, cabe adotar uma noção de
dialética sistêmica pela qual a dependência articula-se, alimenta-se da
independência. A liberdade humana, a autonomia não é vista como emancipação das
condições dadas pelo meio social, mas sim próprio de um exercício, de um
processo onde esta existência é um processo interativo e contraditório com a dependência.
(p. 97).
Porém, quanto maior o desenvolvimento da sociedade, maior
é o caráter “técnico” desta sociedade, ou seja, maior são as redes de controle,
julgamento, punição, além disto, maior é o número dos lugares, os objetos
produzidos pela e para a produção. Neste sentido, para esta sociedade
modernizada, avançada, ele propõe o termo ecossistema sociourbano, pois é pela
cidade que a sociedade se interage com o ecossistema . Enfim este
“...ecossistema sociourbano não é senão a sociedade moderna considerada do
ponto de vista ecológico, ou seja, do ponto de vista dos indivíduos, grupos,
instituições, etc.., que estão, no interior, em relação de sistema aberto ao
ecossistema” . (p. 98).
Tratamos o meio urbano como sistema pois vem a ser uma
totalidade de relações na qual interferem as organizações e as instituições, os
grupos sociais e os indivíduos, o que configura uma multiplicidade de sistemas
relacionados uns com os outros. Mas o ecossistema sociourbano compreende também
elementos do meio natural (clima, subsolo, atmosfera, microorganismos, etc..) o
que confirma o seu caráter ecológico. (p. 98-9 )... “Assim, o ecossistema
sociourbano é um conjunto de conjuntos constituído não só pelo conjunto dos fenômenos
especificamente urbanos, mas também pelo conjunto dos fenômenos sociais e pelo
conjunto dos fenômenos biogeoclimáticos que estão localizados nele”. (p. 99)
· Proposta
A proposta a ser apresentada tem os seguintes aspectos
que seguem abaixo.
1. O principal deles vem a ser o não considerar a Geografia
como ciência, mas como saber.
A principal diferença entre ciência e saber é de que a
primeira, ao contrário da segunda, por tratar de aspectos regulares passíveis
de detectar normas (e partir delas leis) pode realizar prognósticos
relativamente seguros, já o saber, no entanto, está calcado no que passou sem
muita chance de prever com certeza; ele tem, obviamente, a capacidade de trazer
algumas observações para o futuro que podem ocorrer ou não.
No caso específico da Geografia, há dois fortes obstáculos
que dificultam a realização do projeto de vir a ser ciência.
O primeiro decorre de ser uma disciplina que analisa a
sociedade, ou seja um objeto cuja normatividade, regularidade verificada não
faculta a formação de leis que possam dar um prognóstico de seu comportamento
para o futuro.
O segundo decorre da interface que a Geografia apresenta
com o mundo natural. Estes dois campos (= natural e o social), embora venham a
ser a grande marca da Geografia, obstaculiza ainda mais a realização de um
projeto que relacione Geografia e ciência pois cada um deles têm lógicas
próprias de organização de modo que o estudo de sua relação visando a busca de
leis não parece ser factível a ponto de
traçar prognósticos seguros.
A postura aqui assumida fica mais fácil numa época onde
há enorme processo de revisão dos fundamentos da ciência moderna de base
cartesiana em função de novas perspectivas. Até pouco tempo atrás seria
inconcebível esta posição pois o ato de reconhecer-se como não ciência era o
atestado de um conhecimento inútil, de inexato, não passível de crédito.
Porém, a crise que
permeia o campo científico faculta novas formas de abordagem que
proporciona o posicionamento acima.
A se assumir um campo do conhecimento não científico
faculta à Geografia largar o enorme de peso de se obrigar a ter que elaborar
leis, teorias, o que de certa forma vem aumentando a diluição de seu caráter
tendo em vista que os trabalhos passam a ser uma Economia, ou Sociologia, ou
ainda Antropologia, etc.. espacializadas. Mesmo na Geografia Crítica a
Geografia não saiu de sua posição de depositária de outros saberes.
Cabe frisar, no entanto, que a proposição da Geografia
não ser uma ciência e sim um saber, isto não significa que esta vem a ser arte.
A diferença entre saber e arte é que para ambas o peso do
raciocínio tem sentidos diferentes. Na arte, o raciocínio está consoante à
sensibilidade do artista, à sua subjetividade, visando comunicar uma mensagem
pessoal, portanto particular ; para o saber, o raciocínio busca argumentos
lógicos, comprováveis que sedimente a sua forma.
2. Outro pressuposto é o de adotar uma nova forma de abordar a
causalidade. Importante abandonarmos a idéia de qual a causalidade tenha uma
rigidez pela qual é construída uma relação imediata entre causa efeito. A
adoção da causalidade circular implica
na percepção de que há uma contínua transformação dos fenômenos em estudo, e
estes por interações múltiplas decorrem de causas e concorrem como efeitos
afetar nas próprias causas. (p. 238-239, tomo 1)
Tal procedimento interrompe com a postura de entender os
fenômenos determinados por algumas variáveis principais, a transformação dos
fenômenos e sua compreensão passam por ascese em não “discriminar”
perspectivas que tentem compreender o objeto em estudo. Esta ascese implica não
só numa abertura às observações realizadas sobre a realidade, mas sobre a
própria forma como é formada a nossa mentalidade.
3. Outro pressuposto indica que não é possível um consenso
sobre o objeto da Geografia a partir de uma definição empírica do mesmo, como
se existisse na realidade esperando ser descoberto. ...”Ora, o observador que observa, o espírito que pensa e concebe, são
indissociáveis duma cultura, e portanto de uma sociedade Hic et nunc. Todo o
conhecimento, mesmo o mais físico, sofre uma determinação sociológica”
(Morin, 1º vol. p. 15 ).
Se um geógrafo tem por área de concentração a botânica e
outro o urbanismo e resolvam realizar um trabalho em separado sobre a mesma
área, mesmo que haja um esforço em apreender sucessivas inter-relações
dificilmente chegarão a um resultado comum pois o objeto de estudo é objetivado
pelo sujeito do mesmo, ou seja, o seu olhar, a sua cultura acumulada, os
hábitos de pesquisa estarão norteando o trabalho e delimitando a própria
competência de abordar bem um determinado campo de interações e outro não.
4. Outro pressuposto é de virmos a trabalhar o objeto da
Geografia sem operar distinções entre o campo físico e humano, sem cair na
armadilha de querer definir a Geografia como um saber físico ou humano,
novamente nos reportando à Morin .( tomo 1. p. 15 ). ..” O grande corte entre as ciências da natureza e as ciências do homem
oculta, simultaneamente, a realidade física das segundas e a realidade social
das primeiras “
O resgate do projeto unitário da Geografia encerra a
compreensão do princípio que nos obriga a isolar e a separar para conhecer;
assim como um outro princípio capaz de ligar novamente o isolado e o separado.[6]
Uma percepção da complexidade dos fenômenos implica a idéia de que não há algo
completamente físico, ou completamente social; é necessário superar a visão que
o objeto físico não tem alguma relação com um aspecto social; romper com a
noção de que ele é a própria revelação de si, como, , se ele não fosse
previamente condicionado por uma percepção forjada pela cultura, contexto
social do pesquisador, etc..
Havemos de romper com os dois pontos de vistas, um
fisicomórfico, e outro antropossociomórfico, pelos quais temos o paradigma da
simplicidade. Estas duas entradas se contrapõem na constituição de uma
compreensão articulada entre elas, Morin propugna por uma concepção pelo qual a
realidade vista como sistema que se alimenta de movimentos contrários das duas
formas de percepção. (tomo 1, p. 254)
No livro de Hartshorne há uma análise sobre a razão da
divisão entre Geografia Humana e Geografia Física, logo não passa a ser nossa
preocupação a compreensão do princípio que separa, mas cabe ver o princípio que
“reorganize o nosso sistema mental para reaprender a aprender “ ( p. 25 )
Enfim, ao ser valorizado o paradigma da complexidade não
está incluso a desvalorização dos estudos temáticos, mas sim a desvalorização
dos estudos temáticos serem entendidos como estudos da totalidade.
Não está em questão na proposição aqui elaborada desmerecer
a produção da Geografia Crítica ou da Geografia Tradicional, de cunho
positivista, mas valorizá-las como formas, caminhos, tendências circunscritas à
história, ao meio social, enfim a uma época. Pela proposição aqui expressa está
indicado que há uma nova época sendo desenhada a partir de marcantes e velozes
mudanças desde o cenário político internacional até o cenário do cotidiano a
partir de novos costumes e valores, e sobretudo mudanças que ocorrem no mundo
tecnológico que embora alcance tanta efetividade em adentrar nas relações
sociais, nos laboratórios de pesquisa, etc.. vêm ruindo as velhas concepções de
conhecer.
É a época da crise, de uma crise que diz respeito ao
fundamento da civilização. Qual o projeto que orienta a humanidade nesta virada
de século e milênio? Há buscas cada vez mais frenéticas, pois os impasses as
impelem, a perspectiva de uma guerra total, de um empobrecimento acelerado, do
aparecimento de doenças que eram até então desconhecidas pois o ecossistema do
planeta encontra-se em sucessivos momentos de rupturas de seu equilíbrio, tudo
isto enfim impele a busca por novos parâmetros de conhecimento.
Pelo paradigma da complexidade é considerado não só os
campos distantes, mas também os que se opõem...“A complexidade corresponde, neste
sentido, à irrupção dos paradoxos ou contradições no centro da teoria.” (p. 345)
Por este enfoque o esforço não é o de reduzir, delimitar, mas sim de o de
recorrer, retroagir, o de perceber que as variáveis consideradas são mais do
aparentam ser, ou ainda, podem oferecer mais informações que podem ser obtidas
através de um processo seccionador da realidade.
A Geografia não se assentaria numa base, num objeto, ela
participaria de um jogo circular, de um debulhar do conhecimento a partir da
concepção que esta mesma realidade tem a emergência e a regressão, o avanço e
recuo. Não se trata mais de reificar a divisão da Geografia em Geografia
Econômica, Humana, etc.. ou ainda abrir um fosso entre Físico e Humano,
indicando a impossibilidade de ser mantido o projeto unitário da Geografia.
Conclusão
Fica possível resgatar o projeto de unidade da Geografia,
que visa abordar os aspectos físicos e humanos, sem o receio de não encontrar
regras absolutas ( como chegou a tentar o determinismo para validar a Geografia
no campo da ciência ) desde que os geógrafos percam de vista a intenção de ter
a Geografia como ciência.
O que se propugna é a Geografia da Tentativa, de uma
Geografia apta e atenta às transformações da ciência pois nos encontramos na
curva da história, o atravessá-la reserva-nos surpresas que podem coincidir
numa derrocada ou renovação da Geografia. Já nos foi acometida uma curva depois
da qual a Geografia não se saiu tão bem
como as outras ciências sociais como a Antropologia, Sociologia, Economia, ou
até mesmo a História, refiro-me à época da busca da cientificidade , período no
qual a principal “contribuição foi a noção do determinismo”
Acredito que o termo Geografia da Tentativa não venha a
ser muito “simpático” pois declara implicitamente uma possibilidade de
insucesso, mas de fato pode vir a ocorrer.
Pois, não é certo a adoção do paradigma da complexidade
pela Geografia. Na verdade, há um campo que concorre com ela que vem a ser a
ecologia. Nos últimos anos a ecologia saiu claramente de sua percepção calcada
na regulação das relações entre seres vivos para entrar no âmbito da economia,
no modelo de desenvolvimento, na política, até atingir o campo da filosofia.
Nesta virada da história há uma competição entre
ciências, a ênfase pela interdisciplinaridade e transdisciplinaridade decorre
da ruptura de parâmetros solidamente fundados no século passado e no entanto, a
Geografia é convocada, como qualquer forma de saber, a rever a sua produção, os
seus critérios, etc..
Cabe, no entanto, registrar que este paradigma da
complexidade está numa situação semelhante ao da Geografia Crítica ou seja, não
vai ter grande avanço se não ocorrer mudanças institucionais e sociais que
afetem a própria forma de ensino da Geografia. A vigorar esta forma secionada de
se ensinar a Geografia no Brasil, pautada em lista de disciplinas, sem ser
criado um espaço que propicie o exercício da análise pelo paradigma da
complexidade, estamos fadados a ter um fracasso .
Bibliografia:
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[1] O presente texto foi registrado na Biblioteca Nacional no volume conhecido por Cadernos de Doutorado no ano de 1996.
[2] Prof. Dr. do Departamento de Geografia (UFF) – helio@vm.uff.br
[3] Pela percepção marxista o conhecimento decorre de uma apreensão cognitiva de algo situado na realidade, a revisão e superação do conhecimento decorrem de novos confrontos com a realidade. O objeto do conhecimento é a realidade objetiva que o cientista verifica, experimenta, interroga e tira suas conclusões. O conhecimento é dado pela experiência empírica, pela observação e experimentação.
A existência antecede a consciência, havendo uma prioridade e exterioridade do real frente ao conhecimento ...”Assim, as coisas tem uma existência anterior e exterior às representações que os homens delas fazem...O pensamento é uma apropriação humana do real...” . Sendo a realidade movimento, o conhecimento também assim se torna, sendo relativo, pois visa acompanhar um fluir. (nota p. 35 Upege)
O espaço era uma realidade anterior ao homem, manifestação de formas de materialidade inorgânica e orgânica. O homem transforma o mundo externo teleológicamente pelo trabalho, apropria e transforma o espaço natural. Tal transformação é permeada por um conhecer o espaço, porém o sucessivo desenvolvimento dos meios de produção vão proporcionando novas formas de mediação entre o homem e o seu meio. Não bastam as noções de localização das meios de sobrevivência, há de ter novas formas de decodificação na compreensão do espaço, pois nelas passam a ser registrados formas múltiplas de apropriação do espaço ...”O ser já não é uma “natureza em si” mas uma “natureza para o homem” e cada vez mais um trabalho do homem. De tal modo imbuído do movimento e da dinâmica própria da materialidade social “(p. 35-36, Território Livre nº 1 )
[4] Assim, por haver divisão e ocorrer um esforço para demonstrar a cientificidade da Geografia, a área tem uma compreensão a partir de seu quadro natural que atua “em oposição ao quadro social”.
[5] Na Geografia, em contraste com diversos fenômenos, as quais, em virtude de sus existência, determinam o caráter variável das áreas ...Ela começa, portanto, com as coisas tais como estão efetivamente dispostas e inter-relacionadas na realidade, conforme até mesmo um leigo possa observá-las..(1978, p. 34) (sublinhado nosso ).
[6] Morin indica que além desta dificuldade epistemológica há a dificuldade enciclopédica e outra lógica para superar esta divisão entre o campo físico e humano (1º tomo, 1987, p. 15-16 ).