Revista geo-paisagem (on line)

Ano  9, nº 17, 2010

Janeiro/Junho  de 2010

ISSN Nº 1677-650 X

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Língua e Poder: A Língua como instrumento ou estratégia política nos Países de Língua Portuguesa

 

Tamara Grisolia Fernandes -  tamaragrisolia@yahoo.com.br

Graduada em geografia  pela UFF [1]

 

 

 

RESUMO

O presente trabalho apresenta uma discussão direcionada pela geografia política a respeito da questão lingüística e seus conflitos nos países membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Nesse contexto, são aferidas questões a respeito do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa, de 1990, levando em conta a repercussão que o mesmo causou perante a elite intelectual de Brasil e Portugal. Ao fim da discussão, os questionamentos levantados na conclusão são colocados, de modo a representar uma conclusão não pontual.

 

Palavras-chave: Língua portuguesa, geografia política, poder

 

ABSTRACT

This paper presents a discussion based on political geography, about the language issue and its conflicts, placed in the member countries of the “Community of Portuguese Language Countries” (CPLP). In this context, questions are surveyed about the Portuguese Language Orthographic Agreement of 1990, bringing to light the effect that it caused on the intelligence of Brazil and Portugal. In the end of the discussion, the questions raised in the conclusion are placed so as to represent a non-point agreement about the mentioned issues.

 

Key-words: Portuguese language,  politic geography, power.

 

 

1. Introdução

 

            O trabalho aqui realizado visa expor conceitos relacionados à língua, linguagem, Estado, nação e poder, de modo a relacionar tais conceitos no campo da geografia política. Com isso, pretende-se demonstrar as formas de poder presentes na língua, mais especificamente, na adoção de uma língua oficial, conceito este também explicado ao longo do trabalho.

            O enfoque dado para se tratar das relações de língua e poder será dado aos países que fazem parte da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa): Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. No trabalho são realizados apanhados com características importantes do país estudado, bem como, se existir o detalhamento de seus conflitos lingüísticos internos.

            Este trabalho será dividido em três eixos. O primeiro, introdutório, contará com as já propostas definições de conceitos relacionados ao tema “língua e poder”. O segundo discursará a respeito dos países constituintes da CPLP e seus conflitos lingüísticos internos. Já o terceiro será a respeito do acordo ortográfico e sua repercussão nos países de língua portuguesa.

            Como este último eixo apresenta-se como uma proposta mais à parte dos demais, conclusões a esse respeito serão realizadas através de questionamentos. Seria o acordo ortográfico mais uma forma de exercício de poder? Seria ele apenas uma tentativa de unidade entre povos de mesma língua? Até que ponto esses dois questionamentos podem ser separados?

            É importante colocar que o objetivo do trabalho não é resolver tais questões, é só colocá-las, contando com a opinião de teóricos da geografia, da sociologia e da lingüística. De forma que, obviamente, a pretensão do estudo não é de alcançar novas resoluções a esse respeito, sendo apenas uma espécie de documentação de algumas teorias e colocação, ao longo de seu desenvolvimento de questões importantes. 

 

 

 

2. A Língua e Suas Definições

 

            A língua é um organismo vivo que compreende diversos estudos e, portanto, diversas definições. Para uma melhor compreensão de seu conceito, será colocada a definição de Ferdinand Saussure, um importante lingüista do início do século XX, cujas pesquisas revolucionaram o campo da lingüística no mundo.

            Segundo Saussure, em seu livro Cours de Linguistique Générale, a língua é um conjunto de signos que serve de meio de compreensão entre os membros de uma mesma comunidade lingüística. É também uma instituição social, um sistema de valores. A esta segunda afirmação, está ligada uma visão mais sociológica e corrobora a versão mais política dada ao entendimento da língua.

            Por outro lado, a primeira afirmação condiz com a explicação linguística e social (não sociológica) da mesma. De maneira que este conjunto de signos a que Saussure se refere tem duas expressões nas concepções de gramática atuais. E é a partir disso que é colocada a diferença de língua e fala (Langue x Parole).

             A língua é um sistema de signos compartilhados, um sistema de combinações possíveis presentes na mente humana. É, portanto, um conceito abstrato. Já a fala é a concretização desse sistema; é quando escolhemos dentre as possibilidades de combinação de sons (fones), sílabas, e assim, falamos. É, portanto, um conceito concreto.

            É importante ressaltar que ao longo deste trabalho será utilizado tanto um conceito quanto o outro, respeitando suas respectivas diferenças. Assim como serão tratados com diferença os termos língua escrita e língua falada. Estes termos representam conceitos totalmente diferentes; a língua escrita está sujeita à norma padrão, a uma gramática normativa, que rege o “bem escrever”. A língua falada, por outro lado, é um organismo vivo, e pode apresentar inúmeras variações, dentro mesmo de um sistema lingüístico comum.

            Ou seja, a língua falada não é estática e deve ser estudada de acordo com suas variações naturais, de acordo com sua evolução. Não deve ser, portanto, ser passível de julgamentos de certo ou errado, apenas deve-se estudar os seus desdobramentos. Por isso, infere-se que o Acordo ortográfico pode até atuar com mudanças significativas na língua escrita, mas não conseguirá romper ou impedir o processo dinâmico de evolução da língua falada, pois esta não respeita naturalmente interferências desse tipo.

 

            2.1. Língua Oficial

 

            A língua oficial é aquela usada em todas as ações oficiais, ou seja nas suas relações com as instituições do Estado. É, dessa forma, a língua que todos os habitantes de um país precisam saber. Sua existência é garantida por lei e, no Brasil, só a Constituição de 1988 passou a determinar a língua Portuguesa como a língua oficial do Brasil. Tal afirmação se encontra no artigo 13 da atual Constituição Brasileira: "A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil".

            Esta língua em questão não deixa de ser parte do que caracteriza a identidade de um povo e de sua nação, pois é um importante traço de unidade. A identidade brasileira, por exemplo, muitas vezes relacionada com a nacionalidade brasileira, é constituída por um conjunto de elementos, e entre eles, um dos principais é o fato de que falamos uma língua tomada como elemento de nossa identidade.

            A determinação de uma língua como oficial implica em várias observações políticas. Uma delas é a tentativa de unificação de um território etnicamente e culturalmente desmembrado, através da utilização de uma língua oficial, por exemplo, para que o mesmo país tenha soberania perante os demais. E, a soberania, desde a revolução industrial está totalmente ligada à formação da nação, fato este que será melhor explicado adiante.

            Outra habilidade (ainda que oculta) da língua oficial é a de exclusão e marginalização. Além das óbvias habilidades de controle da população e centralização política, a determinação de uma língua oficial abafa a voz política de quem não a fala ou escreve, pois é através dela que se travam quaisquer relações com as instituições do Estado.

            Este ponto é bem observado nos países da África, por exemplo, nos quais a maioria da população não fala a língua oficial ou a tem apenas como segunda língua e,portanto, perde a voz nas suas reivindicações políticas. Mas não é só a voz que se perde. Há também perdas de traços culturais muito importantes, pois a língua é cultura e identidade de um povo. A criação da língua oficial força uma substituição de culturas.

           

 

            2.2.Língua Nacional

 

            A língua nacional é a língua que representa uma unidade das características identitárias de um determinado território. Ela reflete, portanto, uma determinada herança étnico-cultural, e é a representação de uma consciência nacional. Esta mesma língua, em alguns casos, pode representar a língua de expressão literária autônoma do país, ou seja, a língua na qual estão os registros literários de uma cultura, sendo estes escritos em tal língua espontaneamente, sem que ela fosse determinada por qualquer órgão ou sob qualquer circunstância.

            Em outras palavras, a língua nacional é aquela compartilhada por um grupo populacional que compartilha de elementos sobretudo étnicos comuns. Uma nação pode ter diversas línguas nacionais, porém, só conta com uma língua oficial. Normalmente, a língua Nacional é a língua materna do indivíduo, aquela que ele aprendeu quando aprendeu a falar, enquanto a língua oficial não é a materna, necessariamente.

            Há línguas nacionais que coincidem com as línguas oficiais, e esse é o caso do português em Portugal. Mas há casos em que tal não acontece, uma vez que existem comunidades dentro do Estado que também falam, ou só falam, outra língua, diferente da oficial. Vários exemplos podem confirmar isso, pois ao redor do mundo todo tal comportamento é recorrente, como é o caso, por exemplo, do galego na Galiza, ou do catalão na Catalunha. Também vemos o mesmo com grande parte das línguas não oficiais no espaço político-geográfico em que se expandiu a Lusofonia, que é o caso que será mostrado no trabalho em questão.

            Como foi utilizado o exemplo da garantia de uma língua oficial pela constituição, é importante utilizar um contraponto. Em Moçambique, por exemplo, as línguas Nacionais têm seu espaço na constituição, que afirma: "o Estado valoriza as línguas nacionais e promove o seu desenvolvimento". Também a Constituição de Timor-Leste estabelece que "o tétum e as outras línguas nacionais são valorizadas e desenvolvidas pelo Estado". Nestes dois países, como veremos nas próximas páginas, os falantes das línguas nacionais representam um número tão grande, que seria praticamente impossível ignorar a força dessas línguas politicamente e não garantir a proteção das mesmas via algum documento de garantia de direitos.

            Atualmente, as línguas nacionais vêm sendo objeto de proteção internacional, uma vez que, sendo normalmente faladas por minorias étnicas ou culturais (minorias nacionais), a sua preservação é uma forma de evitar tendências hegemônicas da maioria ou de discriminação daquelas minorias. Pensadores da literatura e da lingüística permeiam esse debate, defendendo, na maioria das vezes, a resistência das Línguas Nacionais como manutenção de traços identitários. No fundo, a utilização da língua nacional corresponde a um direito fundamental das pessoas que integram uma comunidade nacional, seja ela qual for.

 

3. Nação e Nacionalismo

 

            Nação, segundo a definição presente em Ellery Mourão (retirada de Anderson, 1989) é a reunião de pessoas, geralmente do mesmo grupo étnico, falando o mesmo idioma e tendo os mesmos costumes, formando, assim, um povo, cujos elementos componentes trazem consigo as mesmas características étnicas e se mantêm unidos pelos hábitos, tradições, religião, língua e consciência nacional.

            O Nacionalismo, por outro lado, seria o processo histórico pelo qual as nações modernas têm-se estabelecido como unidades políticas independentes. Para Ernst Gellner (1983), o nacionalismo é a ideologia fundamental da terceira fase da história da humanidade, a fase industrial, quando os estados nação se tornam a forma de organização político cultural que substitui o império. É, portanto, uma ideologia. Ideologia esta “que justifica a nação-Estado” (Gerth e Mills, Dicionário de Ciências Sociais, MEC).

            Um elemento muito importante que constitui o nacionalismo, mais do que a unidade é o sentimento de pertencimento; é a vontade de querer unir-se, o desejo de compartilhar e ser daquele grupo. E entre os fatores que produzem consciência de grupo no nacionalismo encontram-se a literatura, os sistemas de valores, as tradições históricas, a identidade de governo, os símbolos e a língua, entre outros, que as nações procuram administrar em função da manutenção da coesão social e da unidade política.

             O Estado brasileiro, por exemplo, se esforçou para podar as línguas dos imigrantes estrangeiros, principalmente a partir do Estado-Novo (1937-1945), que tinha uma forte política Nacionalista. Durante essa época, as línguas estrangeiras foram interditadas e o ensino da língua portuguesa se tornou intenso nos locais de maior concentração de população imigrante.

            Já a referência à identidade nacional consiste numa abordagem como a tratada por Anderson (1989), que privilegia o sentimento de pertença a uma nação, constituído por meio de simbologias, sistemas de valores, crenças e ideologias criadas para dar unidade à identidade coletiva. Isso sem perder de vista que toda afirmação de identidade nacional é situada histórica e estrategicamente, dependendo da situação vivida pelos indivíduos. Nesse sentido, também o conceito de nação, marcado historicamente por idéias sintetizadoras, pretende aqui ser pensado de forma múltipla e plural, considerando-o não restrito exclusivamente à língua, ao território, à religião ou à raça, embora todos esses referenciais sejam construtores de identidade nacional (Hall, 2003).

 

 

4. Língua e Linguagem na Nação

 

            A língua é um dos principais aspectos do Estado-Nação, pois além de se configurar por si só uma unidade, ela também é instrumento de controle de massas, além de produzir marginalizações e cortes de voz política. Foi através da língua que os maiores e mais radicais Estados Nacionais, como o fascismo, o nacional-socialismo e o nazismo, mantiveram sua unidade, com a propaganda e os meios de comunicação em massa.

            É importante observar que a língua utilizada é uma só, mas as linguagens variam. Por exemplo, temos a linguagem do jornal, do cinema, da televisão, do teatro. Mas a língua utilizada para se estabelecer a comunicação é apenas uma em cada comunidade, ou, nesse caso, em cada nação.

            Para Roland Barthes, "A língua, como desempenho de toda a linguagem, não é reacionária, nem progressista; ela é simplesmente fascista, pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer". Como a língua é uma representação do mundo, só podemos nos expressar através dela e, portanto, estamos presos a essa representação da realidade, somos obrigados a usá-la para nos comunicar e, portanto, viver.

            Sendo assim, a língua é local de submissão do indivíduo, ela é local de inscrição do poder. No Português, isso é notado com as construções, por exemplo do genérico, expresso pelo masculino. Ainda, se utiliza a palavra homem para designar o ser humano em geral, independente do gênero, enquanto em Latim e Grego, por exemplo, existiam palavras para designar o ser humano do sexo feminino e o ser humano do sexo masculino, além de homem e mulher ( homo e ánthropos; mulier e guiné).

 

 

5. Os Países Membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e Suas Especificidades

 

            É importante refletir, a partir da observação do mapa acima, acerca do enquadramento geográfico dos países membros da CPLP. Estes países são: Angola,Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, e estão espalhado por quatro continentes. Na América do Sul, encontra-se o Brasil; na África estão localizados Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe; na Europa está Portugal e na Ásia localiza-se o Timor Leste.

            O espalhamento desses países por esses continentes, por si só, já representa um valor estratégico muito grande, no que diz respeito a geopolítica. A manutenção da língua Portuguesa, portanto, seria de se esperar por parte dos chefes de Estados. E são esforços nesse sentido que serão observados ao longo das próximas explicações, pelas quais serão mostrados cada país membro e seus conflitos lingüísticos internos.

 

            5.1. Angola

            Em Angola, a Língua Oficial é o Português, falado por 30% da população. As Línguas Nacionais são côkwe (pronuncia-se tChocué), kikongo, kimbundu e o umbundu. Angola também conta com 37 línguas indígenas e 50 dialetos.          Neste país houve intensa disseminação do Português, devido a diversos motivos.

            O principal foi a implantação, pelo regime colonial português, de uma política assimiladora que visava a adoção, pelos angolanos, de hábitos e valores portugueses, considerados "civilizados", entre os quais se encontrava o domínio da língua portuguesa.  Essa política teve vigência durante o governo de Salazar.

            Por outro lado, há que ter em conta também a presença de um elevado número de colonos portugueses, espalhados por todo o território, bem como dos sucessivos contingentes militares portugueses que, durante o longo período da Guerra Colonial, se fixaram no interior do país.

            A adoção do Português como língua oficial foi, como se pôde observar, através de um processo impositivo. E embora as línguas nacionais ainda sejam as línguas maternas da maioria da população, o português é já a primeira língua de 30% da população, característica muito peculiar de angola, único país da África na CPLP com tamanha aderência ao Português.

           

 

            5.2. Cabo Verde

            Cabo Verde é um arquipélago composto por 10 ilhas, de posição geográfica altamente estratégica e preciosa, por esta justamente no meio do oceano atlantico, entre os continetes da América e da África. As ilhas que compõe esse arquipélago eram inicialmente desabitadas, por isso, não existiam línguas nativas.

            A língua oficial de Cabo Verde é o Português,mas exxiste uma língua Nacional de forte expressão, que é o Crioulo Caboverdiano. O Crioulo Caboverdiano é de expressãotão grande em Cabo Verde, e tem valor de identidade tão latente, que há um projeto para a oficialização da língua. Assim, a soberania seria reconhecida,com a aproximação de um Estado-Nação.

            A língua Portuguesa teve grande dificuldade de adoção passiva nesse país, como mostra Juliana Braz em seu artigo, pois a população não se identifica com ela. Uma reunião de documentos presente no artigo de Juliana Braz mostra os esforços de membros da população para oficializar o crioulo, que é uma língua falada no cotidiano por quase todos os caboverdianos e de cuja os mesmos se ressentem muito por não utilizá-la para expressar sua voz política.

           

 

            5.3 Guiné Bissau

            Como já foi dito, a forma de organização ocidental é impor fronteiras, impor unidade linguistica, apagando as etnias pre-existentes.Com Guiné Bissau não foi diferente. A Língua Oficial (o português) éfalado por menos de 10% da população. OU seja, 90% da população é marginalizada quando da participação política oficial.

            Suas principais Línguas Nacionais são o Crioulo Guineense, Balanta, Fula, Mandiga, Manjaco, Papél.

            Guiné Bissau teve sua independência conquistada em 1974, lutando ao lado de Cabo Verde, na guerra colonial. Este país conta com diversos conflitos étnicos e sua população não compartilha de um única identidade. Pelo contrário sua identidade é problemática (guineense, crioulo, ou parte de uma etnia específica?).

            A forma de organização adotada pós independência, não só para esse país, como para todos os africanos, foi a forma de organização ocidental predominante: a nação-estado. Apesar dessa tentativa de unificação lingüística em torno do Português, Guiné Bissau conta com uma pequena, porém, forte produção literária em crioulo, que consegue transmitir costumes e sentimentos identitários.

 

 

            5.4. Moçambique

            Em Moçambique, a língua oficial éo português. Porém,um dado muito releante é o de que apenas 6% da população fala tal língua. As principais Línguas Nacionais deMoçambique são XiTsonga, XiChope, BiTonga, XiSena, XiShona, ciNyungwe, eChuwabo, eMacua, eKoti, eLomwe, ciNyanja, ciYao, XiMaconde e kiMwani.

            É importante observar que apenas em 2004 a língua oficial entra na constituição,mas ela o é desde a independência de Moçambique em 1975. Apesar dessaadoção, o artigo 9 da Constituição de Moçambique diz que "O Estado valoriza as línguas nacionais como património cultural e educacional e promove o seu desenvolvimento e utilização crescente como línguas veiculares da nossa identidade".

            Como já dito anteriormente, seria inimaginável o Estado desconsiderar as demais línguas, quando a população conta com apenas 6% de falantes da língua oficial num Estado que, além das línguas Nacionais já citadas, ainda conta com mais 41 línguas Nacionais.

 

 

            5.5. São Tomé e Príncipe

            Em São Tomé fala-se o forro, o angolar, o tonga e o monco (línguas nacionais), além do português (língua oficial). Assim como Cabo verde, São Tomé e Príncipe eram duas ilhas inicialmente desabitas, que sofreram povoação portuguesa e de escravos vindos de várias partes da África.

            O forro (ou são-tomense) é um crioulo de origem portuguesa, que se originou da antiga língua falada pela população mestiça e livre das cidades. No século XVI, naufragou perto da ilha um barco de escravos angolanos, muitos dos quais conseguiram nadar até a ilha e formar um grupo étnico a parte. Este grupo fala o angolar, um outro crioulo de base portuguesa mas com mais termos de origem bantu. O tonga é um crioulo com base no português e em outras línguas africanas. É falado pela comunidade descendente dos "serviçais", trabalhadores trazidos sob contrato de outros países africanos, principalmente Angola, Moçambique e Cabo-Verde.

            A ilha do Príncipe fala principalmente o monco (ou principense), um outro crioulo de base portuguesa e com possíveis acréscimos de outras línguas indo-européias. Outra língua muito falada em Príncipe (e também em São Tomé) é o crioulo cabo-verdiano, trazido pelos milhares de cabo-verdianos que emigraram para o país no século XX para trabalharem na agricultura.

            O português corrente de São Tomé e Príncipe guarda muitos traços do português arcaico na pronúncia, no léxico e até na construção sintática. Era a língua falada pela população culta, pela classe média e pelos donos de propriedades. Atualmente, é o português falado pela população em geral, enquanto que a classe política e a alta sociedade utilizam o português europeu padrão, muitas vezes aprendido durante os estudos feitos em Portugal.

 

           

            5.6. Timor Leste

            O caso do Timor Leste é um pouco diferente dos outros países africanos.Timor Leste é um país localizado na Ásia e, devido à distância geográfica dos demais países delíngua portuguesa, é alvo de diversos debates a respeito da manutenção da língua portuguesa como a Língua Oficial da Nação.

            Como já foi dito, o Português é a língua oficial do Timor Leste, mas esse país tem uma especificidade; ele tem mais uma língua oficial: o tétum. O Tétum é uma língua austronésia, como a maioria das línguas nacionais, com muitas palavras derivadas do português e do malaio. É a língua de maior expressão no Timor Leste.

            Além destas, o Timor Leste ainda conta com as Línguas Nacionais: ataurense, baiqueno, becais, búnaque, cauaimina, fataluco, galóli, habo, idalaca, lovaia, macalero, macassai, mambai, quémaque e tocodede;e as línguas de trabalho: Inglês e Indonésio.

            Esse país é tão linguisticamente complexo e diverso que existem até línguas de trabalho e uma legislação própria que rege esse sistema.

            Devido a essa complexidade, são colocadas freqüentes críticas a respeito da manutenção do Português como língua oficial. Uma delas é acerca da distância geográfica dos demais países de língua portuguesa. Afirma-se que não não tem sentido insistir no estabelecimento de língua cuja população vizinha não tem conhecimento e nenhum traço de similaridade. Os pensadores que fazem essa crítica, optam pela adoção do Inglês ou do Indonésio.

            A outra crítica refere-se à existência do Tétum, que é uma língua nacional e é falada pela maioria da população. São colocados questionamentos a respeito da não consideração dessa língua como a língua oficial, o que a mairia dos estudiosos do assunto acredita ser o desejo da população como um todo, e a melhor saída para o problema de conflito lingüístico.

            Por outro lado, o português é símbolo da unidade do país e símbolo da resistência quando da ocupação Indonésia. Ele representa um valor de unidade em tempos difíceis para a população e isso é um aspecto importante para a justificativa de sua manutenção como língua oficial.

 

           

            5.7. Brasil e Portugal – Casos à Parte

            Portugal tem sua língua materna coincidindo com a língua oficial, portanto não apresenta problemas de conflitos linguísticos nesse sentido.

            Para Portugal e Brasil serão analisados os conflitos no Âmbito do Acordo da Língua Portuguesa.

           

6. Acordo Ortográfico

            O português é hoje falado no mundo por mais de 200 milhões de pessoas. Cada vez mais é considerado importante e de grande relevância, fato esse expressado pela sua adoção como língua de trabalho em diversas organizações internacionais. Acredita-se que tal expressividade do Português reflete-se até no fato de uma das portas de entrada da China em África ocorrer por via do Fórum Macau, sustentado pela partilha da mesma língua. O acordo ortográfico apresenta, além de todas as possibilidades mais adiante comentadas, um passo para tirar a força dos obstáculos que travavam uma maior expansão linguística, para que assim, o Português possa ser assumido plenamente como  quinta língua com mais falantes no mundo, e a prazo, como uma das línguas oficiais das Nações Unidas.

            O Acordo Ortográfico foi aprovado e assinado em 1990, mas só veio a entrar em rigor nos dias de hoje, tornando-se a sua escrita obrigatoriamente oficial a partir deste ano. Tal acordo toma medidas de forma a unificar as escritas de língua portuguesa, através de mudanças na gramática de norma padrão, de maneira que é impossível modificar através de imposições a fala de cada indivíduo.

            O texto Inicial do Acordo é assim apresentado:

“Considerando que o projecto de texto de ortografia unificada de língua portuguesa aprovado em Lisboa, em 12 de Outubro de 1990, pela Academia das Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Letras e delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, com a adesão da delegação de observadores da Galiza, constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestigio internacional (...)” (Acordo Ortográfico, 1990).

 

            O acordo é, portanto, como bem explicitado em seu texto inicial, um passo para a defesa da unidade da língua portuguesa, o que nos remete a uma clara estratégia política de prestígio dos países e defesa de soberania.

            Não é surpreendente que os países Africanos e o Timor Leste não tenham repercutido muito a respeito do acordo. Foi visto que eles já sofrem com tantas questões lingüísticas, que o acordo ortográfico se configura como uma alternativa bem à parte de sua realidade. Para Brasil e Portugal, o caso foi diferente. O acordo teve grande repercussão na comunidade acadêmica, principalmente pelos estudiosos de lingüística e literatura, além de sociólogos.

 

 

7. Conclusão

Com esse trabalho, foi possível chegar a algumas conclusões parciais e depois, a conclusões a respeito de todo o estudo aqui apresentado. À princípio é importante ressaltar a marginalização dos países africanos e do país asiático de língua portuguesa quando da discussão do acordo ortográfico. Isso se dá visivelmente pelo fato de tais países enfrentarem problemas lingüísticos de ordem muito mais grave.

            Estes, depois de conquistada a sua independência perante seu antigo colonizador, Portugal, tiveram que se unificar e proteger por trás da oficialização de um idioma para que a sua soberania fosse reconhecida internacionalmente. A centralização do Português como língua oficial representa a tentativa desses países de se encaixarem num modelo de organização política que não é o seu, porém é o vigente no ocidente.

            Quanto ao acordo ortográfico, o que fica é o levantamento de alguns questionamentos, já introduzidos anteriormente: Seria o acordo ortográfico mais uma forma de controle do Estado e exercício de poder? Seria ele apenas uma tentativa de unidade entre povos de mesma língua ou uma estratégia política de unificação? Até que ponto esses dois questionamentos podem ser separados?

 Volta

Bibliografia:

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SAUSSURE, Ferdinand. Cours de Linguistique Générale.

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Sites Visitados:

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http://literaturapolitica.wordpress.com/2009/01/24/literatura-e-sociedade-na-guine-bissau/

http://www.jornal.st/noticias.php?noticia=7485

http://prowebpt.com/2008/05/02/tudo-sobre-o-novo-acordo-ortografico/

 


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[1] Como aluna realizou um intercambio na Universidade de Coimbra em Portugal voltado para a língua portuguesa.