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Revista geo-paisagem ( on line ) Vol. 1, número 2, 2002 Julho/dezembro de 2002 ISSN 1677 – 650 X |
O ordenamento urbano carioca sob a ótica do plano estratégico de cidades
Resumo:
Após a Revolução
Industrial as cidades reafirmam seu papel como centro de moradias, serviços,
cultura etc. e com o passar dos anos vêm se adaptando as mudanças que ocorrem
no mundo com a globalização. Nesta última fase avançada do capitalismo, vimos
que além da corrida pela produção e consumo, está declarada a disputa entre
cidades para se tornarem espaços atraentes desse capital transnacional e
volátil.
Daí pensar e intervir estrategicamente nas cidades é
criar um ambiente competitivo a partir dos grandes empreendimentos susceptíveis aos grandes negócios, às grandes
transações econômicas e aos grandes eventos culturais. Portanto, o Planejamento
Estratégico das Cidades é uma adaptação da gestão empresarial, que toma
decisões considerando o ambiente externo regido pelos princípios
mercadológicos.
Consideramos que os Planos Estratégicos da cidade do Rio
de Janeiro expressam-se, em parte, nas transformações sócio-espaciais presentes
na conformação de um novo ordenamento territorial.
Diante disso, a análise da evolução dos governos do
Bem-Estar Social até os governos neoliberais e as novas formas de se conceber o
urbano incorporando os princípios de gestão estratégica, nos tornaram possível
elaborar a base teórica e empírica de nosso trabalho.
Palavras-chaves: Urbanização, plano
estratégico, Rio de Janeiro
Abstract :
After the Industrial Revolution, cities have affirmed
their central role in the áreas of housing, services and culture, among others.
Through the years, they have adapted to the changes caused by world
globalization. In this last stage of advanced capitalism, beyond the race for
production and consumption, we can observe a dispute between cities: they
compete to become áreas enticing enough to attract the transnational and
volatile capital generated by their growth. Strategic thinking and intervention
in these centers creates na environment competitive enough to attract great
enterprises, business and cultural events. Therefore, the strategic planning of
cities is na adaptation of the enterpreneurial management mode which, when
making its decisions, considers the external environment guided by market
principles.
We believe that the strategic planning of the city of Rio
de Janeiro is partially expressed by the social and spatial transformations
present in the configuration of a new territorial arrangement. The basis for
our papper has been the analysis of the approach governments have taken towards
social well-being and urban conception by incorporating the principles of
strategic management, up to the neo-liberal governments.
Keywords: Urbanization, Strategic
Planning, Rio de Janeiro
Apresentação:
Várias cidades no mundo nos últimos anos, vêm sendo alvo
das grandes intervenções urbanas propostas no Plano Estratégico de Cidades e
que, aos poucos, vão configurando um novo ordenamento espacial das mesmas,
subsidiado pelas leis do mercado. As exigências mercadológicas atuam como pano
de fundo no cenário de grande competitividade entre cidades e impõem grandes
transformações às mesmas, para que estas sejam atraentes aos grandes
investidores e empreendedores. È o ideário neoliberal imperando nas decisões
políticas e conduzindo o futuro das cidades.
Nessa perspectiva, o Estado intervém minimamente nas
decisões sócio-econômicas e os grandes atores políticos são empresários e
investidores. Essa tendência na administração local se confirma no crescente
processo de privatização das empresas públicas, na desregulamentação das
atividades econômicas e sociais e na reversão dos padrões universais de
proteção social. O poder local composto por políticos comprometidos com a
perspectiva empresarial da cidade lança mão dos instrumentos necessários para
tornar o espaço urbano mais atraente, baseando-se na flexibilização das leis de
uso do solo e na crescente necessidade imposta pelo mercado de as cidades
globais estarem constantemente inseridas no circuito do fluxo internacional de
capital e informação.
A cidade passa a ser administrada como uma grande empresa e com isso lança mão dos meios pertinentes para tornar-se atraente as empresas transnacionais mais competitivas a partir de sua oferta de infra-estrutura. Nesse caso, a informação desempenha grande papel no processo de inovação das empresas e a obtenção e manutenção dessa tendência dominante expressa, por sua vez, a agilização dos elos entre meios técnicos de comunicação, esfera cultural e aparelhos de poder. Tal tendência lança, portanto, um ambiente de disputa entre cidades, que leva as administrações locais a se estruturarem internamente, considerando as freqüentes mudanças do mercado externo e, a partir disso, criarem ambientes atrativos aos investimentos empresariais.
Enfim, a lógica do mercado vem se sobrepor à lógica da
cidade e esta vem se tornando refém dos grandes investimentos dependentes dos
acordos entre o poder público e o poder privado. O Plano Estratégico de
Cidades, no entanto, leva a administração local a adotar uma postura
empreendedora através das políticas voltadas para o seu desenvolvimento,
implicando várias transformações no que diz respeito à infra-estrutura, visando
aos grandes empreendimentos imobiliários.
As cidades ao adotarem nas suas administrações planos
estratégicos, consideram que os mesmos são um instrumento de (re) ordenamento
urbano que têm por objetivo redinamizar a economia local, além do desafio de
minimizar os conflitos sociais oriundos das desigualdades econômicas dos
diferentes segmentos da sociedade, propondo uma elaboração participativa dos
planos, bem como conciliar variados interesses das diferentes classes sociais
como sinônimo de sua eficácia e garantia.
No entanto, o ideário dos Planos Estratégicos da cidade
do Rio de Janeiro teve como fonte inspiradora os Planos Estratégicos
desenvolvidos para a cidade de Barcelona localizada no sul da Europa e capital
da região da Catalunha, com distintos impactos nas respectivas cidades. Para a
cidade de Barcelona, o fato de ter sediado as Olimpíadas e o marketing urbano
gerado pelo evento permitiram atrair muitos investimentos e empreendimentos que
impulsionaram grandes transformações na dinâmica produtiva e infra-estrutura
urbana daquela cidade.
Os projetos
distintos e localizados para a Cidade de Barcelona, segundo seus Planos
Estratégicos, propiciaram investimentos em infra-estrutura urbana
(telecomunicação, saneamento, transportes, lazer, assim como os serviços
ligados aos hotéis e empresas), que permitem a introdução de novas atividades
comprometidas com a competição externa dos mercados internacionais. Os avanços
tecnológicos mobilizaram pessoas e mercadorias, os meios de transportes de alta
velocidade surgiram como estruturadores regionais, aumentaram o volume de
transportes aéreos e o uso dos sistemas de telecomunicações.
O futuro da
cidade de Barcelona é comandado pelos usuários – empresários e turistas. No
entanto, a população da Cidade se elitizou e os desinvestimentos nos setores
públicos básicos de saúde, educação e a geração de empregos comprometem o
futuro dos cidadãos. Barcelona garantiu o seu papel de cidade turística no
circuito das principais cidades turísticas do sul da Europa, além do papel de
centro das atividades do setor terciário superior.
O “modelo
Barcelona” de ordenamento urbano, segundo a lógica mercadológica deixou a Cidade refém das grandes empresas. Os
investimentos no campo social são deixados de lado pelas autoridades, para
darem lugar aos investimentos por parte do poder público e atrair parcerias com
o poder privado, definindo os caminhos da Cidade. Enfim, os planos para
Barcelona alcançaram a melhor inserção da Cidade no contexto capitalista das
grandes corporações que, através do marketing urbano alavancaram uma nova
configuração urbana, porém pagando o preço de uma enorme exclusão social.
Os Planos
Estratégicos desenvolvidos para Barcelona estão calcados em novas formas de
funcionamento da reforma pelo qual a Cidade vem passando desde a década de 80
até os dias atuais. A partir, do primeiro Plano Estratégico para a cidade de
Barcelona com a proposta de reestruturação urbanística da cidade e, após os
Jogos Olímpicos, outros planos são implementados, incorporando uma visão mais
competitiva da cidade, em busca da maior inserção no contexto regional, na
Comunidade Econômica Européia e no contexto mundial.
Porém, a
metodologia do Plano Estratégico sob a ótica catalã é adotada por outras
administrações municipais de vários países que integram o CIDEU – Centro
Iberoamericano de Desenvolvimento Estratégico Urbano, uma associação entre
cidades sediada em Barcelona que tem por objetivo impulsionar as cidades-membro
à realização de planos estratégicos urbanos, como instrumento de ordenamento
futuro das cidades.
A prefeitura da
cidade do Rio de Janeiro é uma cidade-membro dentre as várias que possuem uma
assessoria técnica do CIDEU que, através de visitas de técnicos à Cidade e
realização de seminários de capacitação, vai qualificando a municipalidade
desta na adoção do Plano Estratégico em sua administração local. O CIDEU também
cria uma plataforma de comunicações, com fóruns de debates e intercâmbios das
experiências de planificação estratégica urbana; uma base de dados sobre oferta
e demanda de know-how; promoção do
mercado de projetos urbanos e acordos de cooperação com a Agência Espanhola de
Cooperação Internacional (AECI) e com o Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID).
As propostas de
intervenções dos Planos Estratégicos de Barcelona para torná-la uma cidade
funcional sob o ponto de vista da competitividade, introduzem a lógica
mercadológica e vão inspirar os técnicos e autoridades responsáveis da
Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro na elaboração dos Planos Estratégicos da
cidade do Rio de Janeiro. A partir da década de 90, no governo do prefeito
César Maia, a administração municipal vai incorporar a ideologia do Plano
Estratégico de Cidades sob a ótica catalã.
Inicialmente, o trabalho desenvolvido pela equipe técnica
da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e o setor empresarial resultou no
primeiro plano estratégico, conhecido por Plano
Estratégico da cidade do Rio de Janeiro – Rio Sempre Rio, em 1996. Tal
plano foi considerado pela Prefeitura um instrumento que reverteria o quadro de
decadência da Cidade e a tornaria um local atraente e competitivo sob o ponto
de vista dos investimentos entre o poder público e o poder privado.
Posteriormente, na atual gestão do Prefeito, um segundo Plano Estratégico para
a Cidade está em vias de elaboração.
No caso do Rio
de Janeiro, a economia da Cidade vinha apresentando um processo de decadência
até o atual estado de completa estagnação econômica, com o agravamento das
condições ambientais e infra-estruturais que acarretam na perda de investidores
e empreendimentos para outras capitais. A falta de empregos e moradias, a
deterioração dos equipamentos urbanos, os problemas de mobilidade dos cidadãos,
a falta de infra-estrutura moderna (transportes e telecomunicações), o
obsoletismo do porto e a falta de segurança dos habitantes e turistas dentre
outros fatores, contribuíram para o estado de estagnação econômica da Cidade.
Portanto, o
crescente estado de decadência em que a cidade do Rio de Janeiro se encontra,
levou a administração municipal da Cidade a elaborar o Plano Estratégico a fim
de adotar uma estratégia urbana que pudesse reverter esse quadro de decadência
e diminuir a fuga de capitais da Cidade. Para tanto, esta vem sendo alvo de
grandes intervenções, com o intuito de torná-la uma capital atraente para os negócios
e para o turismo, mas essas atividades, por sua vez, mostram-se altamente
dependentes dos investimentos empresariais.
As grandes
transformações de recuperação e embelezamento dos espaços públicos e melhoria
dos serviços de infra-estrutura impostas na Cidade, segundo os Planos, estão
comprometidos com o processo de empresariamento e empreendedorismo urbano e com
o setor turístico da Cidade que propriamente ao bem-estar da população.
Acrescenta-se a essas observações, quanto às estratégias dos Planos Estratégicos,
que a situação sócio-econômica da cidade do Rio de Janeiro nos últimos anos não
é das promissoras.
Apesar da
administração local adotar o primeiro Plano Estratégico no intuito de reverter
esse quadro e inserir a cidade do Rio de Janeiro no circuito econômico
globalizado, o mesmo não alcançou os resultados esperados. A Cidade nas últimas
décadas vem apresentando um déficit no que diz respeito ao seu desempenho
sócio-econômico, tanto no contexto nacional quanto regional e o agravamento de
seus índices sociais. A cidade do Rio de Janeiro vem apresentando uma redução
na participação econômica, em relação às principais capitais que compõem a
região sudeste. Essa redução da performance econômica da Cidade na região
sudeste e consequentemente, no País, é resultado do processo da decadência de
suas atividades econômicas, observado nos últimos anos.
No entanto, o discurso neoliberal contido nos Planos
Estratégicos para a cidade do Rio de Janeiro impõe que o governo local
desinvista nos setores públicos básicos e invista nos setores que viabilizem o
empresariamento e empreendedorismo da Cidade. Esse fato resulta no agravamento
dos conflitos sociais gerados pela escassez de emprego, pelo crescente processo
de favelização e principalmente pelo aumento da criminalidade em nossa cidade.
Os problemas
políticos, sociais e econômicos a cada ano vêm se agravando na Cidade e são os
principais fatores de expulsão das empresas. Esse fato nos leva a questionar o
real propósito de se adotarem planos estratégicos no intuito de solucionar os
mais variados problemas típicos da nossa Cidade.
Com base em alguns projetos de intervenção desenvolvidos para a Cidade segundo os Planos Estratégicos, os mesmos vêm reafirmar os interesses empresariais nas áreas centrais da Cidade em defesa de uma revitalização local. Como um instrumento de (re) ordenamento urbano, os projetos têm por objetivo inserir a cidade do Rio de Janeiro no circuito do capital transnacional e exaltam a produção de sua imagem.
Temos como
exemplo, no primeiro Plano Estratégico para a cidade do Rio de Janeiro, o
Projeto Teleporto estava incluído na Estratégia 5: Portas do Rio, que propunha
que as “portas de entrada” da Cidade e suas infra-estruturas de acesso fossem
adequadas aos importantes fluxos econômicos. Essa proposta parte da concepção
das cidades como pólos infra-estruturados que articulam redes e fluxos de
pessoas, de idéias, de informações, de capitais e de mercadorias. Como foi
colocado logo no início, a cidade do Rio de Janeiro assumiria uma posição estratégica
no contexto nacional e mundial que a tornaria como centro articulador da região
metropolitana e, ao mesmo tempo, como eixo vertebrador, segundo o plano, da
mais importante região econômica do País contida entre São Paulo, Belo
Horizonte e Rio de Janeiro.
Essa situação privilegiada da cidade do Rio de Janeiro,
segundo o plano, exigiria que as “portas de entrada” e suas infra-estruturas de
acesso fossem adequadas aos chamados importantes fluxos econômicos. Então, o
Projeto Teleporto foi o resultado da proposta de se criar uma zona de
comunicação avançada e de rede de alta velocidade que permitissem atrair
grandes empresas. Ambos nascem da proposta de modernização do setor de
telecomunicações, eliminando as deficiências do sistema de telefonia básica e
potencializando as telecomunicações de alto nível e os serviços de valores
agregados que permitem o desenvolvimento empresarial de serviços avançados.
O Projeto Teleporto justificou, segundo pesquisas, que a
cidade do Rio de Janeiro vinha perdendo negócios e a ida de empresas para
outros centros urbanos era devido principalmente à falta de infra-estrutura dos
prédios antigos do centro da Cidade, não adaptados às atividades do terciário
superior, às dificuldades de acesso e à consolidação do espaço urbano, além da
questão ambiental urbana (poluição, barulho, engarrafamentos etc), impedindo
novos investimentos. As grandes empresas que se instalaram no centro do Rio de
Janeiro começavam a se relocalizar em outros centros urbanos do país devido a
falta de infra-estrutura moderna dos prédios. Portanto, a criação do Teleporto
foi considerado pela Prefeitura, na época, um instrumento de reconquista
econômica da Cidade e um dos meios de inseri-la no contexto das cidades
globalizadas.
Para o prefeito César Maia, então em sua primeira gestão,
o Projeto Teleporto representava a virada do Rio para o século XXI. Esperava-se
que o Teleporto ajudasse a Cidade a se transformar num centro financeiro
internacional. O local onde fosse instalado o Teleporto, seria acometido por um
(re) ordenamento espacial e social para receber tamanho empreendimento. Suas
atividades previstas causariam uma movimentação de pessoas, tornando-se um
local “vivo”, usado como forma de incorporação de novos espaços e fonte de
renovação urbana da Cidade.
O Projeto
Teleporto em 1995, vinha com o ideário de dotar a Cidade de infra-estrutura de
telecomunicação que permitisse o desenvolvimento empresarial de serviços
avançados e conectasse com a esfera das relações econômicas globais,
valorizando o bairro Cidade Nova, outrora decadente.
Enfim, o Projeto Teleporto, incluído no Plano
Estratégico, surgiu como um empreendimento que buscaria inserir a cidade do Rio
de Janeiro no contexto do capitalismo mundial. Foi considerado um projeto de
vanguarda da administração municipal. Por sua vez, tinha como mola propulsora a
aceitação pelos empresários e, com isso, a viabilização das intervenções
previstas no projeto. Passados alguns anos, o projeto perde o “fôlego” e
diversos problemas começam a surgir, tornando morosas as decisões como
dificuldades em encontrar novos
parceiros, rigidez na lei de uso do solo entre outros.
Atualmente, a
prefeitura é a única base empreendedora da área do Teleporto e vem buscando
novas parcerias para desenvolver um novo projeto, o qual vem substituir o
antigo Projeto Teleporto, chamado Projeto NAP ( Network Access Point), que
criaria uma parceria da prefeitura com empresas e instituições da cadeia de
comunicações e de grandes empreendimentos imobiliários. No entanto, o projeto
depara-se com os mesmos entraves que impossibilitaram o projeto anterior.
Apesar da tentativa de recuperação econômica da cidade do Rio de Janeiro, com
os projetos citados, a mesma continua perdendo investimentos capitalistas para
outras cidades, comprometendo ainda mais o seu estado de decadência econômica.
A princípio, esse “novo” projeto não
traz nenhuma novidade no que diz respeito à forma de se administrar o
espaço - com as associações dos setores
público e privado (empresas) em torno dos grandes projetos, criando ilhas
superinfraestruturadas, sem modificar a questão sócio-econômica precária em que
vive grande parte da sociedade carioca. Enfim, é o imperialismo da lógica
empresarial reordenando o espaço urbano carioca.
Portanto, o Projeto Teleporto dentro do PECRJ significou
um grande projeto para a época, mas que por questões políticas e fundiárias não
foi adotado pelo empresariado. Um outro problema podemos observar: o objetivo
principal do Teleporto no início era que as empresas que necessitassem de usufruir
da infra-estrutura tecnológica do prédio da CECN[2]
poderiam alugar salas para se instalar. Atualmente, outros prédios surgem em
outros bairros da Cidade oferecendo as infra-estruturas modernas para abrigar
atividades do terciário superior, o que descarta o papel pioneiro do Teleporto
como instrumento de recuperação econômica da cidade do Rio de Janeiro.
As primeiras intervenções físicas
envolveram desapropriações de terrenos, demolições de antigas construções,
transferência dos habitantes para outras localidades após indenizações, obras
de infra-estrutura e urbanização. Criou-se, assim, uma área equipada com
infra-estrutura e serviços urbanos destinados a suprir as demandas futuras do
Teleporto.
No entanto, o
projeto deixa a área no entorno à margem do processo de modernização. Enfim, a
proposta de intervenção do projeto é teoricamente integradora, pois as áreas
que já possuem alguma infra-estrutura ou que estejam próximas dos aparatos
facilitadores do fluxo do capital, como o centro da Cidade, são as mais
beneficiadas por projetos de recuperação e revitalização, em detrimento de
outros bairros.
Os projetos
propostos para as áreas obsoletas da cidade do Rio de Janeiro são questionados
quanto a sua forma de articular os principais agentes influentes no destino da
mesma e os meios de viabilizá-los. A Cidade tornou-se vítima do discurso do
marketing urbano criado entre os seus
principais agentes, envoltos nos projetos, sem que haja o comprometimento em
viabilizá-los de fato.
Alguns projetos
se iniciam, mas não se concretizam, devido à falta de condições políticas, dos
impedimentos das leis de uso do solo, da indefinição dos parceiros, entre
outros fatores, enquanto outros projetos surgem, dando início a algumas
discussões entre vários segmentos da sociedade e criando, com isso, o próprio
marketing urbano. Enfim, o marketing
urbano criado a partir da discussão dos projetos propostos para a Cidade
segundo os princípios dos planos, tendem a alcançar algum destaque para a
cidade do Rio de Janeiro, nas discussões promovidas pela mídia, sem estarem
comprometidos de fato com a recuperação econômica da Cidade.
Nesse caso, os
Planos Estratégicos para a cidade do Rio de Janeiro não alcançaram os seus
objetivos, uma vez que os índices de desemprego vêm aumentando tanto em
Barcelona quanto no Rio de Janeiro. As atuais exigências de qualificação da
mão-de-obra e da carência de programas que qualifiquem os trabalhadores, vêm
formando um crescente contingente de desempregados despreparados dentro da
sociedade. O caos urbano se instala, porém essa situação é camuflada pelo
discurso das autoridades locais e da mídia de que a cidade do Rio de Janeiro
está em fase de recuperação econômica.
Os Planos
Estratégicos constituem-se muito mais numa estratégia de mobilização social e
de marketing da Cidade do que num
projeto definido de desenvolvimento econômico e social. O marketing da cidade está muito mais comprometido
em vender a imagem desta como boa para se investir e visitar. Os fatores que
levariam à melhor qualidade de vida, ao desempenho da cidadania e cultura estão
mais relacionados à questão da imagem, para a promoção da Cidade junto aos
mercados interno e externo.
Atualmente,
na gestão do prefeito César Maia, a equipe técnica da Prefeitura retomam a
discussão de viabilização do antigo projeto de recuperação e revitalização
urbana da zona portuária da cidade do Rio de Janeiro – o Projeto Porto do Rio.
Este projeto está na perspectiva de revitalização das áreas centrais segundo
suas potencialidades e por sua vez, traz um novo ideário de criar um ambiente
cultural elitizado e em estabelecer uma relação porto-cidade muito mais
intensa, além de propor uma reurbanização nos bairros adjacentes. Cabe-nos
analisá-lo como mais um grande projeto que vem com uma carga de marketing urbano
apoiado pela prefeitura, pelas autoridades locais e pela mídia.
A
prefeitura, há muitos anos, vem notando a deterioração dos bairros que compõem
a zona portuária da Cidade com a perda de sua população residente e com a
crescente degradação de seu acervo histórico e do meio ambiente local.
Portanto, indica a necessidade de colocar-se em prática o projeto que permitirá
articular vários setores interessados em recondicionar e resgatar a importância
econômica dessa área no contexto da cidade. A prefeitura lança mão do marketing
urbano e o projeto é vendido segundo a imagem de que o Porto do Rio se localiza
numa posição estratégica ao conectar o exterior com o interior da Cidade,
próximo aos seus principais eixos viários ao centro financeiro e principais serviços.
Em termos de Brasil, a zona portuária da cidade do Rio de
Janeiro vem sendo alvo das mais recentes e acirradas discussões, cujo o tema é
buscar uma saída para reverter o quadro de estagnação econômica, deterioração
do espaço físico e do obsoletismo das instalações do cais do porto. A
prefeitura da Cidade vem retomando o projeto de recuperação e revitalização do
cais do porto e adjacências, o qual, desde 1978 vem levantando propostas de
intervenções tanto no meio acadêmico quanto pelas autoridades interessadas.
Segundo o projeto, a área
que se desafeta é de aproximadamente 3km e 300m, com início no Píer Mauá e,
gradativamente a partir daí é que se opera o terminal de contêineres do Rio de
Janeiro (TECONT). A idéia quanto ao programa de revitalização consiste em
adotar um programa operacional para
revitalizar esse espaço, que não oferece condições para as operações portuárias
de carga e descarga contêinerizadas pela falta de espaço e devido ao calado
raso, que impede a atracação de grandes embarcações.
A revitalização da área em torno do cais do porto,
abrange da Praça Mauá a Santo Cristo, Saúde e Caju. A idéia inicial é
revitalizar a área compreendida entre o Píer Mauá e o Armazém 6, deixando as
cargas menores para depois dessa área ser revitalizada, enquanto as cargas
maiores são direcionadas para as áreas do Caju e São Cristóvão. Considerando a
potencialidade estratégica da zona portuária do Rio, o programa de recuperação
e revitalização compreende o cais do porto e adjacências. As intervenções previstas
estão no campo da habitação, circulação e articulação, pavimentação, drenagem,
iluminação e reforma paisagística das principais ruas em torno da rodoviária,
da Central do Brasil e da Praça Mauá, além da criação de órgão gestor com as
participações do governo federal, governo municipal e setor privado.
O Projeto Porto
do Rio está sendo elaborado pela Secretaria Municipal de Urbanismo em conjunto
com o Instituto Pereira Passos, a Secretaria de Cultura, a Companhia de
Engenharia de Tráfego e os sindicatos de trabalhadores de atividades ligadas ao
porto. Segundo a equipe técnica, o projeto se justifica pela proximidade do
centro financeiro da cidade do Rio de Janeiro e pela oferta da infra-estrutura
de esgoto, rede de águas pluviais, rede de alimentação de luz elétrica,
transportes; fato que facilitaria sua viabilização.
Segundo a
Empresa Píer Mauá S. A, as intervenções propostas no Projeto Píer Mauá e em
suas proximidades são de transformá-lo num grande centro de turismo, através da
refuncionalização dos armazéns, transformando-os em equipamentos com funções
voltadas para a manifestação de cultura e do lazer. Uma das propostas será a
vinda do Museu Guggenheim, seguindo os mesmos critérios adotados em Bilbao,
para reforçar a imagem da cidade do Rio de Janeiro como fonte consagrada de
produção e divulgação da cultura.
Nesse caso,
seria conveniente averiguarmos com que intensidade os setores da cultura e do
turismo carioca seriam afetados com a instalação de um empreendimento com
características do Museu Guggenheim. Reconhecemos que as atividades culturais
em nosso Município alcançaram um nível de desenvolvimento que as tornaram
participantes preponderantes da realidade sócioeconômica da Cidade.
Então,
perguntamos: será que a possível ampliação do intercâmbio e do exercício da
cultura decorrentes da instalação do referido museu, viria reforçar a imagem do
Rio como fonte já consagrada da produção e divulgação de cultura?
A vida cultural da cidade do Rio de Janeiro é
bastante ativa e a força da sua rede de
centros culturais é notável. Não faltam ao Rio nem instituições, nem ótimos
locais de exposição. Os mais recentes centros culturais são: Centro Cultural da
Marinha, Centro Cultural do Tribunal Superior Federal, Centro Cultural do
Tribunal Regional do Trabalho e o Armazém 5 no cais do porto. O que falta é uma
verdadeira política cultural no Rio. É necessário o emprego de recursos
públicos e privados para manter e melhorar os centros já existentes, como o
MAM, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, o Museu Nacional de Belas Artes,
a Casa França-Brasil, o Museu da República e o Museu Histórico Nacional. É de
máxima urgência que se faça um acordo entre as autoridades federais, estaduais
e municipais sobre o futuro e a coordenação de cada um, em um único projeto que
reveja essas questões.
Infelizmente, observamos que a Prefeitura e as pessoas
interessadas descartam a infra-estrutura cultural que a Cidade já possui,
juntamente com um conjunto de dificuldades, para adotar um projeto que chega do
exterior, como um príncipe encantado, para resolver todos os problemas.
Sabemos, no entanto, que essa tentação raramente resolve os problemas, pelo
contrário, essas “esperanças” de solução tornam-se um problema a mais e agregam-se a outros.
No que diz respeito ao financiamento do Museu Guggenheim,
é necessário maior transparência quanto ao emprego dos recursos públicos, pois
o prefeito declara que tem disponível nos cofres públicos uma verba em torno de
U$ 120 milhões para financiar a vinda do Museu e diz que precisa de empréstimos
para outras obras de infra-estrutura de nossa Cidade, muito mais importantes
para o bem-estar dos cidadãos. Caberia então sabermos sobre que base financeira
será financiado o Museu Guggenheim. Todos os políticos, responsáveis culturais
e patrocinadores devem contribuir para esse estudo de viabilidade do museu,
financiado pela municipalidade, não se restrinja apenas mais uma sede do
Guggenheim na América do Sul; mas também contemple a viabilidade do conjunto do
sistema cultural da cidade do Rio de Janeiro. Um não pode viver à custa do
outro e, se a sinergia não for possível, comprometerá todo o futuro do projeto.
O Projeto Porto do Rio traz uma série de
intervenções no espaço urbano para recuperar e revitalizar o porto, seus
bairros vizinhos e reintegrá-los ao contexto urbano. A equipe técnica da
prefeitura tem se deparado com problemas que vem tornando as negociações
morosas como a questão fundiária de uso do solo, as necessárias desapropriações
e as áreas intocadas pelo patrimônio histórico.
Os maiores
proprietários dos terrenos e galpões abandonados do cais do porto e adjacências
são: a Companhia Docas do Rio Autoridade Portuária, o Banco Central, a Rede
Ferroviária Federal, a Polícia Federal, o Estado e a Prefeitura. Contudo, para
que as intervenções propostas pelo projeto se viabilizem, o mesmo esbarra no
programa de privatização do porto. Por isso, estão sendo criados editais de
concessão, para que os armazéns que acompanham a orla do cais sejam
desapropriados através de decretos, dando lugar a novas atividades. As
atividades previstas como base de ocupação estão ligadas à cultura, lazer e
entretenimento. Porém, o decreto-Lei 3365, de 21/6/41, determina que os bens
dos estados e municípios podem ser desapropriados pela União, mas nunca ao contrário,
o que de fato dificulta as expectativas do governo local com o projeto.
O Projeto Porto
do Rio propõe uma reversão do processo do setor imobiliário empresarial, que
está todo na Barra da Tijuca e os investimentos populares para a zona oeste.
Enfim, os custos calculados em reurbanizar a zona portuária são infinitamente
superiores, porque envolvem mudanças das leis do uso do solo, desapropriações
de terrenos, privatizações, além de adequar ou substituir as infra-estruturas
antigas típicas do centro da Cidade por infra-estruturas modernas.
O
Projeto Porto do Rio traz o ideário de recuperar e reurbanizar a zona portuária
do Rio de Janeiro, transformando-a num espaço de encontro das mais diversas
manifestações culturais e, com isso, inserindo a Cidade no contexto do turismo
das cidades mais visitadas da América do Sul. Este Projeto torna-se um
instrumento de intervenção urbanística de natureza simbólica, pois recria a
imagem da Cidade transferindo o imaginário social, colocando-a no circuito das
capitais do turismo internacional.
No entanto,
mesmo antes que o Projeto se viabilize, a equipe técnica da Prefeitura se
depara com entraves semelhantes aos do Projeto Teleporto. De forma antecipada,
já são detectados impactos locais com a discussão e o marketing do projeto
promovidos pela mídia como a elevação dos custos de vida locais que levam a
gradativa expulsão dos moradores .
O
Projeto Porto do Rio, assim como o Projeto do Teleporto têm o objetivo de criar
o marketing urbano do local, para
atraírem grandes investimentos nessas áreas subtilizadas e com baixa
arrecadação de IPTU. O marketing urbano
do local torna-se um mecanismo que garante grandes investimentos e,
consequentemente garantirá maior arrecadação para a Prefeitura. Os grandes
beneficiados desses investimentos são os investidores, o setor imobiliário, com
a valorização dos imóveis, os empresários, que instalam seus negócios e o poder
público. Os moradores desses bairros que não conseguem acompanhar o aumento dos
valores dos aluguéis e imóveis, além do custo de vida que tende a se elevar,
acabam obrigados a se deslocar para outras áreas. Enfim, a criação dessas ilhas
infra-estruturadas e bairros revitalizados não conseguem inserir a população
autóctone, servindo como um instrumento de segregação social.
Então, a
cidade do Rio de Janeiro, na situação de decadência sócio-econômica em que se
encontra, importa o receituário do Planejamento Estratégico de Cidades e lança
mão de grandes transformações no seu espaço, para se tornar atraente aos
investimentos capitalistas. Nesse sentido, o centro da cidade do Rio de Janeiro
é visto, segundos os planos, como uma área bastante consolidada e de ocupação
muito antiga, que apresenta diversos problemas quanto: à incompatibilidade de
seus prédios às novas tecnologias; ao deficiente sistema viário que não suporta
o fluxo dos veículos durante a semana; à saturação da infra-estrutura de água e
esgoto e ao esvaziamento nos fins de semana. Porém, o centro da Cidade está
estrategicamente próximo dos principais eixos viários, portos e aeroportos,
conectando diversos lugares da Cidade com o mundo.
Esses atributos relacionados ao
centro da cidade do Rio de Janeiro vêm levando a mesma a grandes
transformações, seguindo a regras impostas no ideário dos Planos Estratégicos.
Para tanto, optamos por considerar o Projeto Teleporto e o Projeto Porto do Rio
como exemplos de projetos de intervenção no espaço urbano carioca, que nos
levam à maior reflexão quanto às mudanças pelas quais a Cidade vem passando.
Essa tendência de revitalizar espaços
deteriorados adotando grandes projetos, tem o intuito de atender às
necessidades mercadológicas dos empresários, em primeiro lugar. As reais
necessidades da Cidade e dos seus cidadãos são preteridas. Portanto, os
problemas sócio-econômicos persistem. O município do Rio de Janeiro, apesar do
esforço de adotar em sua administração o Plano Estratégico de Cidades,
depara-se com problemas quanto à
viabilização dos projetos, devido às resistências quanto às drásticas mudanças
e às transformações dos ambientes obsoletos
para novos usos.
Enfim, os projetos criam por si só a positividade
para o Município, com as intervenções urbanísticas na região. A própria
discussão de viabilização do projeto já é um marketing da Cidade no contexto
global. Sua imagem é repensada em função dos projetos que estão sendo
elaborados pela Prefeitura e outras instituições. A Cidade torna-se um objeto
de compra e venda e sua imagem, mesmo que não condiga com a realidade, deve ser
divulgada positivamente para atrair futuros investidores.
Outro
exemplo é o Projeto Porto do Rio, que lança o ideário de recuperar e
revitalizar as áreas obsoletas da zona central da Cidade e prepará-las para
novos usos. As mudanças previstas consistem em divulgar a imagem da Cidade
através dos produtos culturais que para ali são esperados. O ideário dos planos
valoriza uma política urbana virtualizada ao destacar a produção de uma
espacialidade voltada para a locação de
atividades turísticas que, por sua vez, exclui de sua agenda a necessidade de
vida e de trabalho da população local. O essencial da intervenção urbanística é
de natureza simbólica. É recriada a imagem da Cidade, transformando o
imaginário social, para conduzir a uma nova percepção capaz de colocar a Cidade
no circuito das capitais do turismo internacional. A Cidade, para os planos,
torna-se um produto a ser vendido e deixa de ser um espaço de política e
construção da cidadania. A lógica da cidadania é substituída pela lógica do
mercado.
Então, uma pergunta é feita diante dessa
situação de decadência econômica em que a cidade do Rio de Janeiro se encontra:
por que a economia da Cidade não deslanchou após a adoção do primeiro Plano
Estratégico? Isso indica que, apesar das grandes adaptações metodológicas
feitas entre um plano e outro, a recuperação econômica da Cidade e a diminuição
dos grandes conflitos entre as classes sociais estão longe de serem alcançados,
levando a cidade do Rio de Janeiro a um futuro duvidoso.
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[1] Professora de 1º e 2º graus, mestre em geografia pela pós-graduação da Universidade Federal Fluminense.
E-mail: monica.amendola@terra.com.br
[2] Centro Empresarial Cidade Nova, primeiro e único prédio construído em 1995 do projeto original do Teleporto.